As portas de Hollywood estão abertas para Rodrigo Leão

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Rodrigo Leão num concerto no Cinema São Jorge, em Lisboa, na antestreia do filme O Mordomo ENRIC VIVES-RUBIO

O novo filme de Lee Daniels, O Mordomo, chega hoje a Portugal, depois de ter sido estreado nos cinemas norte-americanos há três semanas. Na ficha técnica há um nome português: Rodrigo Leão. É do compositor a banda sonora do filme, que já é apontado para os Óscares.

A ligação de Rodrigo Leão ao cinema não é de hoje mas nunca foi tão falada como agora. Na semana em que A Gaiola Dourada, de Ruben Alves, se tornou em Portugal no filme mais visto do ano com mais de 400 mil espectadores, chega às salas portuguesas O Mordomo, de Lee Daniels, que também por estes dias bateu o recorde nas bilheteiras norte-americanas ao tornar-se no primeiro filme de 2013 a ficar três semanas seguidas no top do boxoffice. E, apesar de retratarem realidades tão distintas, há uma coisa que estes dois filmes partilham: a música do português.

Se há um ano dissessem a Rodrigo Leão que a sua música iria ser reproduzida nos cinemas de todo o mundo e ouvida por milhares de pessoas, provavelmente o músico e compositor português duvidaria. Não por não acreditar no seu trabalho, que já tem provas dadas, mas por "incrivelmente ter acontecido tudo neste ano", conforme conta ao PÚBLICO. "É quase uma coincidência isto", diz Rodrigo Leão, para quem não é uma novidade compor para cinema. Em 1994, por exemplo, foi o músico o responsável pela banda sonora de Lisbon Story, do alemão Wim Wenders.

A novidade aqui portanto, além do sucesso dos filmes, é a entrada do músico português no circuito comercial de Hollywood. O Mordomo, a história verídica de Eugene Allen que trabalhou durante 30 anos na Casa Branca e que estreia hoje em Portugal, é a primeira grande produção de cinema na qual Rodrigo Leão se envolve.

Mas não foi fácil o caminho até aqui. Sete anos passaram desde o primeiro contacto de Rodrigo Leão com o realizador Lee Daniels. "Na altura eu soube que ele estava à procura de um músico para a banda sonora de Precious. Cheguei a viajar para os Estados Unidos e a encontrar-me com ele", conta ao PÚBLICO Rodrigo Leão, explicando que neste processo, além de o realizador ficar a conhecer o trabalho dos próprios músicos que se candidatam ao lugar, são pedidas composições, numa espécie de concurso.

"Acabei por não ser escolhido para esse filme, mas a verdade é que ele [Lee Daniels] ficou a conhecer o meu trabalho", continua o músico, explicando que o processo de selecção para O Mordomo foi em tudo semelhante ao de Precious, filme nomeado em 2010 para seis Óscares, dos quais venceu dois.

Encaminhado para os Óscares parece também estar este novo filme, que segundo o The Wrap sofre mesmo de uma "Oscar-itis". Ou seja, há passagens em O Mordomo, protagonizado por Forest Whitaker e Oprah Winfrey, que terão sido exactamente pensadas para agradar e comover a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E é nestes momentos que a música de Rodrigo Leão desempenha um papel fundamental, "quase tornando-se numa personagem" do filme, como escreve a actriz e crítica de cinema Carole Mallory no Huffington Post. Para o Newsday, a "música sofredora" do compositor português faz com o filme se torne "mais poderoso". Enquanto o The Hollywood Reporter destaca que "a escolha pouco comum de Rodrigo Leão acaba por dar um resultado saboroso e original" ao filme que aborda a questão das lutas raciais através do retrato de sete presidentes norte-americanos. Na semana passada, Barack Obama viu o filme, que já somou 79,5 milhões de dólares (60,3 milhões de euros) nas bilheteiras dos Estados Unidos, e disse ter-se emocionado (até às lágrimas).

No entanto, para Rodrigo Leão ainda é muito cedo para falar em Óscares. "Não trabalho a pensar nisso. O que acontece aqui é que a música acaba por encaixar muito bem no filme. Há uma certa unidade e isso nota-se", diz o compositor, revelando que foi compondo a música ao mesmo tempo que o filme se foi realizando. "Eles mandavam-me as cenas e eu tinha de compor, em muito pouco tempo, uma música para elas. Às vezes até me davam algumas referências musicais, diziam para ouvir isto ou ver aquilo para perceber o que eles queriam", conta Rodrigo Leão ao PÚBLICO.

Todo este processo começou em meados de Abril para no final de Junho ter de estar pronto. "Foi um trabalho muito intenso, falava várias vezes ao dia com o Lee Daniels e a sua equipa", lembra Rodrigo Leão, explicando que no processo inicial da composição a preocupação com a imagem era grande. "Mas depois à medida em que trabalhámos na música, acabámos por esquecer a imagem", conta o músico, que apesar de gostar de trabalhar em cinema, esperando que mais projectos surjam, não pensa abandonar a música longe dos ecrãs.

"Não me vejo a largar aquela ideia de disco com princípio, meio e fim. No cinema a pressão é maior, enquanto a gravar um disco tenho muito mais tempo para me dedicar. O cenário ideal é conciliar as duas coisas", diz o músico, que enquanto não edita um novo álbum debruça-se exactamente sobre o trabalho que tem feito para o cinema. Em Novembro, vai apresentar nos Coliseus de Lisboa e Porto, a 23 e 24, respectivamente, o espectáculo que tem como título Bandas Sonoras e onde apresentará alguns dos seus trabalhos nesta área. Ao seu lado terá, além do grupo habitual de oito músicos, um quarteto de cordas e um trio de metais, o australiano Scott Matthew.

"É um concerto em que tocarei essencialmente as músicas que compus ao longo deste ano. A presença do Scott Matthew faz sentido na medida em que temos colaborado bastante nos últimos tempos", explica Rodrigo Leão, deixando no ar a possibilidade de em Novembro revelar temas inéditos. "Tenho trabalhado nisso com o Scott Matthew e em Novembro teremos novidades, estamos mesmo a pensar gravar um disco juntos", revela o músico, "feliz pelo momento que a sua carreira atravessa".