Hey Dude, onde está o meu sonho americano?

Frederick Wiseman na universidade de Berkeley e os Safdie no acesso à NBA do basquetebol americano: o que ficou dos sonhos.

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At Berkeley
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“Hey Dude, vamos formar uma universidade?”: UC Berkeley, a mais antiga Universidade da Califórnia. O mito da sua fundação, em 1868, conta uma espécie de charranço hippie algures pela época da Gold Rush, “Hey Dude, vamos formar uma universidade?”.

 A anedota é uma espécie de back to the future, o regresso ao passado com o conhecimento do que aconteceu no futuro: o capital simbólico que o campus da Bay Area adquiriria, nos anos 60 do século XX, com o Free Speech Movement, com o activismo estudantil, com a contracultura…

Mas assim começa e assim progride o documentário At Berkeley, de Frederick Wiseman (fora de concurso): sempre sinalizando um enfraquecimento desse peso simbólico, mostra alunos e professores a lidarem como podem com a memória e com um património nos pacíficos relvados de um campus hoje a braços com a queda das contribuições do Estado. Com a diminuição da aposta no ensino público, também o pensamento fica menos livre e em crise. E assim se condiciona, também, a mobilidade social, que é tão-só uma das miragens oferecidas pelo chamado sonho americano.

Em quatro horas, e depois de 14 meses de montagem: os edifícios e as aulas, onde se analisa o Walden de Thoreau ou os novos pobres, os da classe média, hoje derrotada e em dificuldades para enviar os seus membros para a universidade. Será que a preocupação mediática com a nova pobreza é uma espécie de novo espectáculo motivado pela visibilidade de estrelas como Angelina Jolie e Bono? As aulas inquietam-se, assim...

Uma aluna negra pergunta: porque é que se há-de preocupar com a nova pobreza, quando ela pertence a um segmento da população americana que está velha de ser pobre? Outra aluna negra dá conta da sua experiência: é frequente ao querer entrar para um grupo de trabalho receber como resposta um sorriso de que o grupo está cheio - porque é que quando um aluno negro fala na aulas todos se viram para o olhar, continua; será que não é uma pessoa e é já só o representante de qualquer coisa?

Nos edifícios administrativos – sempre este dispositivo no filme de Wiseman: um plano exterior, depois as pessoas lá dentro - discute-se como (não) responder às pressões do mercado que ameaça levar de Berkeley os professores-estrela. Para a biblioteca acorre um movimento de protesto: Education is a right, not a privilege. Apontam-se as razões para a diminuição de adesão e de entusiasmo nas manifestações: nos anos 60 corria-se perigo, nos anos 60 os manifestantes corriam atrás de um assunto, ou era o Vietname ou eram os direitos civis ou…, enquanto hoje uma manifestação é uma oportunidade de festa não excessivamente motivadora porque demasiado concorrida no elenco dos assuntos do dia, quase um menu de restaurante que fatiga.

Planos de pausa, como separadores: o bucolismo dos relvados, os recitais no campus… Naquela sua resistência em analisar excessivamente os seus filmes e em atribuir statement à montagem, Wiseman foi lacónico no final da sessão: era necessário dar descanso aos espectadores dos enormes blocos de conversa… Há aqui uma arquitectura em construção: Berkeley, apesar da excepcionalidade (ainda assim) da sua condição, apesar da particularidade de participar ainda de uma espécie de utopia comum a alunos e professores e que não deve ser comum a assim tantas universidades e sistemas de ensino, é uma miniatura de uma coisa maior: um retrato de todos nós, hoje. Como se estivéssemos a ser vistos do espaço – por isso a sua serenidade.

Não há nada de lacónico na forma como Josh e Benny Safdie filmam os sonhos a morrer, e até acabam o seu documentário Lenny Cooke (secção Giornate Degli Autori) com uma versão própria do monólogo do Robert-de-Niro-Toiro-Enraivecido decadente ou do Marlon-Brando-Há-Lodo-no-Cais-i-could-have-been-a-contender: a sua personagem, o basquetebolista Lenny Cooke, que foi uma promessa do basquetebol universitário, e que se perdeu por entre más escolhas e caminhos minados, a falar para si próprio, como quem espanta fantasmas ao espelho, uma década depois de ter falhado a sua passagem para a NBA e de a sua carreira não ter ido a lado algum. Embora tenham pegado em material que não lhes pertencia (as imagens de Cooke no início dos anos 2000 são do produtor Adam Shopkorn) os Safdie partem disso para fazerem o retrato de uma personagem que em tudo cabe no seu universo: um homem em risco de emasculação.