Todos os protestos desde 1979 num único mapa – ou quase

Investigador norte-americano criou mapa animado que sintetiza manifestações de todo o mundo ao longo de mais de três décadas. Calcanhar de Aquiles: só reúne protestos noticiados.

Detalhe do mapa de John Beieler para Outubro de 2011
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Detalhe do mapa de John Beieler para Outubro de 2011 DR

O Brasil, um dos colossos da geografia mundial, é um dos países mais apagados do mundo no mapa animado que John Beieler criou para mostrar a evolução dos protestos por todo o globo desde 1979. Mesmo depois de 1985, com o fim da ditadura militar. O gigante acorda devagar com a crise mundial e, quando o mapa termina, em Junho de 2013, já está bem desperto com a recente onda de contestação.

John Beieler é um estudante de doutoramento na Universidade Estadual da Pensilvânia, EUA. Tem 23 anos. No final de Julho, achou que seria interessante usar a base de dados em que trabalha, a Global Database of Events, Language, and Tone (GDELT) – ou seja, a Base de Dados Global de Acontecimentos, Linguagem e Tom –, para desenvolver um mapa que fizesse uma súmula visual de como as manifestações se espalharam pelo planeta ao longo do tempo.

Fê-lo em quatro horas. Está habituado a trabalhar com bases de dados (a sua investigação em Ciência Política está muito centrada no GDELT). Seleccionada a informação pretendida, bastou-lhe usar um software especializado (CartoDB) para a animar sobre um mapa do Google.



O resultado é um mapa que mostra os pontos do planeta onde se registaram pelo menos dez protestos num dado mês. A animação faz o mapa evoluir de mês para mês, de Janeiro de 1979 a Junho de 2013, com pontos amarelos a surgiram automaticamente nos locais onde tenham havido manifestações noticiadas. Isto porque o GDELT reúne apenas informação publicada nos jornais. A base de dados segue milhares de títulos internacionais e tem registo mais de 250 milhões de acontecimentos, mas as falhas são inevitáveis.

Beieler pede por isso que se olhe para o mapa com cautela. Quando o mapa foi publicado, o investigador sublinhou que o aumento no número de protestos também está relacionado com o número de fontes disponíveis (mais do presente e menos do passado) e com a leitura que o software em que o GDELT corre consegue fazer do noticiário mais antigo, com formas de discurso e vocabulário diferentes aos que são usados hoje em dia.

Também é preciso olhar com cuidado para os países onde há (ou houve) censura: os protestos podem ter acontecido mas não terem sido noticiados, o que inquina o resultado. É por isso que o fim da ditadura militar poderia ser um momento de viragem para o Brasil neste mapa. Mas não é. O Brasil tem 86 ocorrências no mapa (cada ocorrência corresponde a uma cidade com pelo menos dez protestos num único mês). A Rússia tem 971. A China, 1037.

Dados "bastante precisos"
Os números reais podem não ser exactamente esses, mas John Beieler garante que “os dados são bastante precisos”. “[A base de dados] Não é perfeita, nunca será perfeita e aqueles de nós que trabalham com dados não fazem qualquer reivindicação de perfeição”, diz ao PÚBLICO. Num conjunto de respostas enviadas por e-mail, o norte-americano sublinha: “para os acontecimentos diários, monitorizamos milhares de fontes noticiosas, mas para os dados mais antigos estamos limitados ao que há disponível nos arquivos”.

“É por isso que os dados são muito mais escassos nos primeiros anos e que há um aumento constante ao longo dos anos”, continua. Desde que divulgou o mapa, Beieler recebeu “muitos e-mails” de pessoas que davam conta de protestos ausentes. “Não tenho mantido um registo, e não há muito que possamos fazer sobre isso. Esperamos que a segunda versão do software que estamos a escrever [para o GDELT] aumente ainda mais a precisão da codificação (que já é muito precisa), mas estaremos, de novo, constrangidos ao que é relatado nos media.”

Apesar da cautela necessária para fazer leituras que se fazem do mapa, há alguns acontecimentos de impacto internacional que se podem constatar à parte o aumento constante de protestos ao longo do tempo. A queda do muro de Berlim e a implosão do União Soviética fazem aumentar o número de ocorrências no Leste da Europa, logo no início dos anos 1990. A partir de 2007, ponto de partida da actual crise financeira e económica, os pontos espalham-se por todo o globo. Quando o mapa chega a 2011, é no Médio Oriente que se podem ver a surgir pontos amarelos onde ainda não se tinham visto – é a Primavera Árabe.

John Beieler congratula-se: “Há picos de protestos quando e onde seriam de esperar, o que é uma notícia muito boa para o conjunto de dados. Embora possa não ter tudo, não há buracos flagrantes nos dados.” O próximo passo é assegurar que o mapa não morre, que inclui os mais recentes acontecimentos. Segundo o investigador, isso já está a ser feito, de modo a espelhar as actualizações do GDELT, que é um projecto de enorme envergadura com uma equipa dividida pelas universidades da Pensilvânia, do Illinois e do Texas.

“Esta é a primeira vez que um esforço de recolha de dados desta dimensão ocorre em Ciência Política e, possivelmente, todas as Ciências Sociais. Os dados permitem-nos monitorizar várias interacções humanas e políticas ao longo do tempo e do espaço, o que tem implicações que não conseguimos sequer compreender neste momento”, conclui Beieler.