A cândida Miley Cyrus agora é provocadora e o mundo choca-se

Era a filha bem-comportada adorada pela América, mas nos prémios MTV optou por uma actuação libidinosa, vincando a passagem à idade adulta - como aconteceu com outras estrelas juvenis

Não se falou de outra coisa esta semana. Os tablóides agradeceram ter assunto todos os dias. As televisões passaram repetidas vezes as imagens. Nos jornais de referência, o tema rivalizou com a situação na Síria. E na Internet gerou um falatório infindável, com reacções diversas entre a reprovação, o choque e a paródia.

A cantora Miley Cyrus, 20 anos, até há pouco uma celebridade da cultura infantil e juvenil de imagem angelical, surpreendeu o mundo durante a cerimónia do último domingo nos prémios VMA da MTV, transformando-se por minutos numa figura hiper-sexualizada. Dançou de forma erotizada, recorrendo a movimentos de anca em posição inclinada, na companhia do cantor Robin Thicke - um tipo de dança conhecido como twerk.

Um tipo de acção praticada há muito em sítios de má fama nos EUA, sejam bares de camionistas ou selectos clubes de striptease para executivos, que consiste em movimentos executados por mulheres, numa posição inclinada, geralmente ao nível dos quadris do homem, com o objectivo de excitar a sua libido. Um movimento que também cabe em géneros musicais onde a performance física adquire uma componente lasciva, como o dancehall jamaicano, o reggaeton latino, o kuduro luso-angolano, o baile funk brasileiro ou derivações do hip-hop como o crunk.

O efeito não se fez esperar. Num ápice converteu-se na vergonha de inúmeras famílias e motivo de críticas cruéis na Internet. Cantoras de perfil semelhante, como Kelly Clarkson, ou a mãe de Robin Thicke censuraram-na. A associação de pais The Parents Television Council (da qual faz parte o pai de Miley, Billy Ray Cyrus) emitiu um comunicado questionando como é que a imagem da antiga estrela infantil seria vista por crianças de 14 anos. Feministas declararam que o seu comportamento reduzia a mulher ao papel de objecto. E outros interrogaram a possível apropriação cultural de uma performance até aí confinada a géneros musicais conotados com a pop negra. E, claro, também existiu quem a defendesse, acusando os detractores de cinismo.

Três dias depois da polémica foi divulgada uma canção (Twerk) que junta a voz de Miley Cyrus a outra celebridade juvenil, Justin Bieber, ao som do rapper Lil Twist, o que contribui para pensar que a sua actuação nos VMA foi premeditada. E no mesmo dia, a palavra twerk foi incluída no dicionário digital de Oxford, levando a mais uma série de comentários - até o actor Morgan Freeman usou o seu vozeirão durante um programa da TV americana para ler a definição da palavra.

O que se passou tem alguns condimentos singulares, mas é simultaneamente uma das histórias mais antigas da cultura popular, com características análogas à de outras celebridades que, em determinado momento do seu percurso, quiseram dominar o cenário da pop de massas com sexo e provocação, nesse gesto emancipando-se também da imagem de ídolo infantil, tentando conquistar outros mercados e outros públicos.

Por outro lado, é produto integrante do próprio sistema de espectáculo americano, que costuma escandalizar-se com alarido quando acontecem episódios com algumas semelhanças com este (do mamilo de Janet Jackson à mostra no Super Bowl ao beijo na boca entre Madonna e Britney Spears também nos VMA).

O que parece estar a acontecer com Miley Cyrus já aconteceu com Christina Aguilera, Britney Spears, Justin Timberlake e, se recuarmos mais atrás, com Kylie Minogue e até com Michael Jackson. Todos eles famosos desde a infância e, em determinada altura, obrigados a emancipar-se. Ou seja, a fazer escolhas.

No caso de Cyrus, a opção parece ser converter-se numa rapariga hiper-sexualizada que pretende assumidamente chocar o grande público.

Nada de surpreendente. A maior parte das celebridades desta área, na passagem para a maioridade, explorou a sexualidade, como se isso marcasse a entrada na etapa adulta da sua carreira. O que tem custos. No seu caso, vai quase de certeza deixar de ser a filha bem comportada preferida da América.

Miley Cyrus não inventou nada, portanto. Mas é possível que as suas origens tenham contribuído para o alarido. A verdade é que nem Britney, Aguilera ou Timberlake (todos eles descobertos nos anos 1990 no programa de TV O Clube do Rato Mickey) gozaram do mesmo culto, partilhado por pais e filhos, como Miley quando era a protagonista de Hannah Montana. Uma série de TV da Disney com muito mais audiência do que o programa dos anos 1990.

Por outro lado, Miley é filha de Billy Ray Cyrus, estrela da música country dos anos 1980, o género que invoca mais a América rural conservadora. Desde 2006, com a sua expressão cândida, Miley foi a filha querida da América. Para a sociedade americana mais puritana parecia encarnar os valores mais conservadores.

O alarme soou quando obteve o primeiro êxito retumbante com Party in the USA (2009), surgindo com uma imagem mais exuberante, como se viu um ano depois no Rock In Rio-Lisboa. Esse parece ter sido um período crucial para operar a mudança. Acabou o contrato com a sóbria Hollywood Records e mudou-se para a RCA, onde se começou a delinear a nova Miley - do ponto de vista sonoro e físico. Uma espécie de rapariga-choque, com algo de malicioso e de vulgaridade erotizada, na linha de Rihanna.

Daí para a frente, sempre que foi fotografada ou surgiu em acontecimentos sociais, apareceu invariavelmente com a mesma cara, de língua para fora, torcendo a boca, com roupas caras, numa atitude de vilã, que se lhe desconhecida até aí.

Por norma as celebridades que jogam no mesmo tabuleiro, como Britney ou Aguilera, guardam períodos de silêncio. E depois surgem com novo visual, novas operações estéticas, novos discos.

No seu caso parece não ter havido descanso. Existiu, isso sim, um crescendo. Primeiro foi a mudança de visual, optando por um corte de cabelo curto. Depois a mudança de manager - agora é Larry Rudolph, o homem que conseguiu tornar Britney num símbolo sexual - e o anúncio de que haveria novo álbum em Outubro. O álbum chama-se Bangerz e está a ser ultimado por alguns fabricantes de êxitos como Pharrell Williams, devendo constituir um compromisso entre a pop de massas e o R&B.

Neste momento ela é a única jovem da pop de massas que parece ter condições para rentabilizar o criar polémica. Tem alguns trunfos: a idade, o físico, o seu passado e o twerking. No vídeo de We can"t stop já ensaiava esses movimentos e aquilo que até aí era um exclusivo de linguagens minoritárias tornou-se das massas.

E mais massificado ficou na gala da MTV, com Miley a passar o dedo de esponja que lhe serviu de acessório durante a actuação pelos genitais, enquanto se torcia, para pasmo de muitos que não compreendiam o que se estava a passar.

Hoje todos falam dela. Resta saber se é a melhor estratégia. Mesmo entre cantoras para consumo massificado, é preciso talento e ideias próprias, para mais numa fase de transição. Existe o risco de que a partir de determinada altura só se fale da sua deriva pessoal, podendo cair numa espiral que a conduza ao descrédito.

Não basta ser maliciosa para adquirir espessura. Mas para já parece ter descoberto os prazeres de se comportar contra as expectativas, convertendo-se numa figura sexualizada, sendo vista ao lado de quem opera no quadro das fantasias com carros, mulheres e luxo, como Snoop Dogg ou Big Sean. Mas será que isso vai contribuir para que Bangerz se converta num sucesso?

Na passagem dos anos 1980 para os 1990, Madonna percebeu que a condição de celebridade estava a mudar. Não era só necessário obter visibilidade. Era preciso revelar segredos, prazeres, o corpo. Foi assim que se impôs às virginais Debbie Gibson e Tiffany, hoje totalmente esquecidas. No início do seu percurso, Britney Spears não era Madonna e também não era Gibson. Tentou ser as duas numa só. De dia, afirmava na TV: "Não acredito no sexo antes do casamento". À noite surgia na MTV de uniforme escolar insinuante alimentando as fantasias dos mais velhos, dizendo: "Não gosto de muita roupa. Faz-me suar".

Miley Cyrus parece ter aprendido com essas histórias, mas quer ir mais longe, deixando-se de subtilezas. O seu objectivo é assumidamente chocar o público médio. Parece estar a conseguir.

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