Papa Francisco prepara-se para substituir o seu primeiro-ministro, dizem media italianos

O cardeal Tarcisio Bertone tem sido criticado por incompetência e até por corrupção. O seu sucessor pode ser anunciado hoje.

Acabou-se a era Bertone no Vaticano, noticiam os jornais italianos: o Papa Francisco escolheu o seu novo secretário de Estado e o poderoso cardeal Tarcisio Bertone, cuja gestão da cúria foi muito contestada - e até alvo de acusações de desonestidade - vai ser afastado. O seu substituto está escolhido e vai ser hoje anunciado oficialmente: é o arcebispo Pietro Parolin, actual núncio papal na Venezuela.

Parolin é italiano, tem 58 anos, é padre desde 1980 e entrou ao serviço da diplomacia do Vaticano em 1986. Em 2002, foi nomeado subsecretário da Secção para as Relações com os Estados da Secretaria de Estado do Vaticano - uma espécie de vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, explica o siteVatican Insider do jornal italiano La Stampa.

A saída de Bertone, que completará 79 anos em Dezembro, não é uma surpresa. Sabia-se que estava insatisfeito, e que a sua saída seria uma questão de tempo. Em Julho, o cardeal Timothy Dolan, de Nova Iorque, lamentou numa entrevista a demora na substituição de Bertone, recorda o Vatican Insider. "Espero que, depois das férias de Verão, se concretize algum sinal mais concreto sobre a mudança de gestão", afirmou.

Bertone chegou a secretário de Estado - um cargo equivalente a primeiro-ministro do Vaticano - em 2006, um ano depois de Bento XVI ter sido entronizado e tinha uma relação de grande confiança com o Papa Ratzinger. Apesar de se irem avolumando as vozes críticas contra a sua gestão - o dossierVatileaks conterá muitas acusações contra ele -, o Papa Bento XVI nunca o afastou.

Mas agora Bertone, dizem os jornais italianos familiarizados com os bastidores do Vaticano, está descontente com uma série de acontecimentos que, de forma mais ou menos indirecta, afectam a sua reputação.

Antes de abdicar, Bento XVI prolongou por mais cinco anos, até 2018, a nomeação de Bertone como presidente da Comissão Cardinalícia de Vigilância sobre o Instituto das Ordens Religiosas (IOR, o chamado banco do Vaticano). Ora, no fim de Junho, o cardeal salesiano teve de assistir à prisão, por acusações de corrupção, de um prelado italiano da administração da Santa Sé, Nunzio Scarano. Por causa deste escândalo, teve ainda de lidar, a 1 de Julho, com a demissão do director e do vice-director do IOR, Paolo Cipriani e Massimo Tulli, dois próximos seus.

O Papa nomeou em Julho uma comissão de oito sábios para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano, com especialistas exteriores à Santa Sé. Ora Bertone afirmou, a 3 de Agosto, ter iniciado a reforma do banco do Vaticano antes da chegada do Papa Francisco. E a seguir pediu uma audiência ao Sumo Pontífice para discutir as condições da sua saída, relata o jornal Corriere della Sera.

Apenas um dos sábios desta comissão de reforma é italiano - e está também a incomodar Bertone. Trata-se de uma jovem laica de 32 anos, especialista em relações públicas e com ligações à Opus Dei. Francesca Immacolata Chaouqui distinguiu-se por fazer comentários no Twitter com uma abertura pouco comum para os membros desta organização - alguns deles visando precisamente o secretário de Estado do Vaticano. "Creio na igreja: una, santa, católica e apostólica. Talvez alguém devesse recordá-lo a Bertone", escreveu a 1 de Março de 2012.

Resta saber que posições reterá Bertone quando deixar de ser primeiro-ministro do Vaticano. Ele pediu ao Papa sinais públicos de confiança, diz o Corriere. Pensa-se que deverá continuar a ser camerlengo (camareiro), um posto-chave na transição após a morte (ou demissão) de um Papa e na Comissão Cardinalícia de Vigilância sobre o IOR.