Câmara de Lisboa inaugura "Rua Rosa" com apoio de marca de vodka

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A rua foi repavimentada e vai ser pintada de cor-de-rosa, por iniciativa dos bares Vitor Cid

Rua Nova do Carvalho vai ser transformada em "galeria de arte" com nome de vodka e com protestos de moradores da zona

A Câmara de Lisboa, em parceria com uma associação de bares e discotecas e com uma marca de vodka, inaugura na próxima quinta-feira um "projecto de intervenção urbana", no Cais do Sodré, que tem sido contestado por dois grupos de moradores e por alguns hotéis da zona.

O projecto, desenvolvido num troço da Rua Nova do Carvalho, junto a algumas das casas de diversão nocturna mais conhecidas da zona, tem por base a pintura do pavimento com tinta cor-de-rosa e a montagem de "oito estruturas tipo Mupi", que servirão de suporte ao que os promotores chamam "uma galeria de arte ao ar livre". O espaço, no qual a câmara proibiu o trânsito há cerca de dois anos, foi baptizado, segundo um comunicado subscrito pelas três entidades envolvidas na iniciativa, como Absolut Pink Gallery - uma designação que remete para a marca de vodka que paga a intervenção.

A supressão do tráfego automóvel naquele local em finais de 2011 foi acompanhada de uma primeira pintura do alcatrão a cor-de-rosa, que desapareceu pouco depois. A iniciativa, que potenciou a ocupação nocturna da via pública pelos frequentadores das discotecas e bares vizinhos, tem sido desde então fortemente criticada por alguns moradores, que se queixam do ruído e da sujidade provocada pelos milhares de pessoas que ali acorrem, sobretudo aos fins-de-semana.

De acordo com o comunicado ontem divulgado pela câmara e parceiros, o pavimento da rua "foi recuperado" e os passeios foram nivelados, inserindo-se a intervenção numa "estratégia de reabilitação do bairro". O objectivo, afirmam, consiste em "contribuir para a requalificação, recuperação e limpeza da rua; facilitar a ordenação das esplanadas; melhorar a iluminação; potenciar novas valências de comércio e actividades em diferentes horários; e reforçar as indiscutíveis valências culturais e criativas já presentes no bairro".

Quem acha que este projecto - desenvolvido no âmbito de um concurso de ideias lançado pela Associação Cais do Sodré (bares e discotecas) - não trará quaisquer benefícios ao bairro é o grupo de cidadãos Nós Lisboetas, a Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA) e alguns hoteleiros. Em resposta a anteriores protestos, o gabinete do vereador Sá Fernandes comunicou à AMBA que o projecto vencedor do concurso promovido pelos bares e discotecas foi "aceite" pela câmara "após a realização dos ajustes identificados pelos serviços técnicos competentes".

"É nosso entendimento que esta intervenção, para além de contribuir para um melhor ordenamento das esplanadas, possibilitará também um controlo maior da aglomeração das pessoas na rua indo ao encontro desejo dos moradores", salienta a assessora do vereador que respondeu à associação. Reagindo a esta argumentação, a AMBA afirma que a intervenção a inaugurar visa "reforçar e incrementar a inadmissível utilização de uma via pública para uma pretensa "galeria de arte a céu aberto", paga por uma empresa de bebidas, em incumprimento dos necessários requisitos da lei do ruído, de salubridade, segurança e ordem pública". A associação considera que a chamada Rua Rosa está ser "imposta à margem da lei e das regras de conduta que pautam a administração pública - apenas favorecendo alguns negócios naquela rua, a par da promoção do consumo de álcool e do desregramento urbano".

Na carta que enviou há dias a José Sá Fernandes, a associação exige que lhe seja facultado um conjunto de documentos camarários que terão servido de suporte às decisões que permitiram a concretização do projecto dos bares na via pública.