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Megafone

É quase isso: ás de espadas, ás de copas, hás-de perder

Quando se aprende a jogar póquer, ter um par de duques dá a sensação de se estar prestes a comprar o palácio de Buckingham. No final da jogada, podemos estar a dever dinheiro a um mafioso

O póquer é um jogo extremamente divertido: quando achavas que já tinhas ganho, o céu cai-te em cima da cabeça. Este é um jogo que requer concentração, capacidade de cálculo e de representação. Já agora, importa conseguir antecipar a jogada do adversário. No fundo, é uma mistura de xadrez com teatro, mas com roleta russa, pelo meio.

 

Por outras palavras, jogar póquer pode ser como negociar com a “troika”: durante cinco minutos, podemos mostrar cálculos e fazer de conta que estamos a controlar a situação; no fim, podemos levar um tiro.

 

Se o tiro não vier, há sempre um piano à espera de cair em cima de uma cabeça.

 

O jogador profissional de póquer tem a segunda profissão que mais depende da sorte e do azar. A primeira é a de treinador de futebol: esquemas tácticos com algoritmos de extrema complexidade, vértices do triângulo do meio-campo, transições e segundas bolas, mecânica quântica, marcações zonais, balística e psicanálise, tudo cai por terra com uma bola no poste. Ou com um remate do Hélder Postiga.

 

Talvez pareça que a mecânica quântica, a balística e a psicanálise estejam a mais, na lista de parâmetros que enumerei, mas isso é para quem não conhece o trabalho de Jorge Jesus.

 

Quando se aprende a jogar póquer, é inevitável sentir entusiasmo com qualquer combinação. Ter um par de duques dá a sensação de se estar prestes a comprar o palácio de Buckingham. No final da jogada, podemos estar a dever dinheiro a um mafioso.

 

Que se prepara para comprar o palácio de Buckingham e fazer dele um bar manhoso.

 

Ter duas cartas do mesmo naipe parece-nos um livro de cheques. Quando a jogada termina, entramos para o livro de calotes de alguém.

 

Aprender as combinações do póquer leva o seu tempo, mas chegar ao fim desse processo é compensador. Podemos, entretanto, ter perdido a casa, o carro, um braço e um rim. Mas é extraordinário saber distinguir um trio de um “full house”.

 

Muita gente se dedica ao póquer “online”. É a segunda forma mais eficaz de perder dinheiro na net. A primeira é pedir a um “hacker” que nos roube.

 

Quando o volume de perdas de um jogador atinge um determinado ponto, já não interessa ter 100 mil fichas. Importa ter uma: a que desliga o computador. O problema é que um jogador que esteja a perder muito, não consegue fazer mais do que perguntar, enquanto a sua cabeça agride violentamente uma parede, por que motivo todas as forças da Natureza e o Pinto da Costa estão a jogar na mesma mesa que ele.

 

(O Pinto da Costa segue na frente, com 2.146.985 fichas.)

 

Claro que há um lado positivo: o póquer é das poucas formas de um português extrair dinheiro a um alemão ou a um norte-americano.

 

Sim, sr. Primeiro-Ministro, estou a falar de exportações.

 

Não, pessoal dos “swaps”, não estou a falar de esquemas duvidosos de obtenção de lucro.

 

Como qualquer jogo complexo, o póquer tem um vocabulário específico. Ver um transmissão deste jogo é extremamente divertido, também por podermos ouvir algo como: “O jogador fez tri-bet em pré-flop, no UTG; ficou no draw, no flop; estava nuts no turn e sofreu uma bad beat no river; saiu da mesa tilt, porque arrumou na bubble”.

 

Se não percebeu esta frase, não se assuste: talvez se encontre longe de perder muito dinheiro a jogar este jogo.

 

P.S.: Pinto da Costa está all-in. O Universo faz fold, o Mundo faz popcorn.

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