A ti, bombeiro

A ti, Bernardo, Ana Rita, Pedro, António, à bombeira de 21 anos que morreu esta quinta-feira no Caramulo e a todos os outros a quem o espírito de missão não permitiu que regressassem a casa

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Nelson Garrido

Sempre gostei dos corajosos. Gosto da companhia deles. Desses seres que se arriscam, que se expõem, que se atrevem. Gosto dessa energia e valentia para estar na linha da frente. E por isso, admiro profundamente os que, sem dúvidas nem lamentos, tudo fazem para salvar o que é dos outros, a vida dos outros.

Depois de mais de 40.000 hectares de área ardida, em 2013.

Depois de constatar que a montanha verde, paisagem da minha infância, passou a cinzenta.

Depois de sentir o cheiro a queimado ainda antes de entrar nas ruas daquela terra onde aprendi a ler.

Depois de o cinzento ter invadido os pinhais, os pomares, as culturas, os jardins das casas daquela gente com quem tanto tenho em comum.

Depois de ter assistido às reportagens televisivas, lido os artigos noticiosos, visto as gravações das câmaras de segurança de uma moradia de família e acima tudo, ter encarado, olhos nos olhos, a tristeza de quem em minutos perdeu o que demorou uma vida de árduo esforço a construir.

Depois tudo isto, que poderia ter sido bem mais avassalador, e sem tencionar substituir o dever das altas patentes governativas da nossa sociedade, é tempo de um oportuno e público “obrigado”!

A ti, que ao ouvir a sirene abandonas aquele que era um almoço de celebração em família, que deixas o jantar ainda no fogão, que não terminas de vestir o miúdo depois do banho ou que sais do trabalho deixando o empregador descontente.

A ti, que se chegas tarde és ineficaz e só a morte te concede um estatuto heróico.

A ti, Bernardo, Ana Rita, Pedro, António, à bombeira de 21 anos que morreu esta quinta-feira no Caramulo e a todos os outros a quem o espírito de missão “vida por vida” não permitiu que regressassem a casa para terminar o que abruptamente deixaram a meio.

A ti, que salvaste as casas e a vida dos que me são próximos e, consequentemente, a minha.

A ti, que mesmo acreditando nas sábias palavras de Machado de Assis — “A gratidão de quem recebe um benefício é bem menor que o prazer daquele de quem o faz” — , um grandioso e humilde obrigado!

De mim. De nós. De todos nós.

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