É pena Sandra e George não terem estado sozinhos no espaço

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Sandra Bullock (em cima) e George Clooney no filme Gravity, do mexicano Alfonso Cuarón, exibido fora de competição no Festival de Veneza. E os dois actores norte-americanos a chegarem num táxi aquático ao festival TIZIANA FABI/AFP

Começa com um desejo de silêncio que é interessante, como se dissesse chiuuu!!!!! aos blockbusters. Mas depois apetece dizer chiuuuu! à música que o inunda. Gostaríamos de ter visto George Clooney e Sandra Bullock muito mais sozinhos no espaço em Gravity, que abriu o Festival de Veneza

Quando Sandra Bullock disse, na conferência de imprensa que abriu na quarta-feira a selecção oficial do Festival de Veneza, que não é propriamente muito "skilled" no que quer que seja, mas consegue fazer um pouco de várias coisas, referia-se ao seu corpo treinado pela dança e ao que teve de aproveitar disso para simular estar em situação de ausência de gravidade, no espaço, em Gravity. Estava a fazer passar uma mensagem de normalidade doméstica que acaba por ser a sua persona (e não é propriamente uma actriz muito skilled). Mas é também o saldo a tirar da ambição de um projecto como o do filme do mexicano Alfonso Cuarón, exibido fora de competição.

Foram mais de cinco anos com este projecto, porque foi preciso inventar a tecnologia para simular corpos em situação de ausência de gravidade, que é o que acontece às personagens de Bullock e de George Clooney, as duas únicas ao longo de Gravity - e a partir de certo momento, é mesmo só uma. Uma coisa tem que se dizer: esse investimento produtivo colocado na tecnologia é completamente serenado em Gravity, filme que começa por surpreender, é verdade, por desejar instalar-se no silêncio estando claramente num espaço minado porque ali costumam explodir barulhentos blockbusters. A isso Gravity começa por dizer: chiuuu!!!!

Ao começar assim, consegue fazer crer que a sua maior ambição não é, portanto, o computador, mas um lirismo muito humano, com Sandra e George sozinhos no espaço, visto que a sua nave foi destruída, a lutarem pela sobrevivência e a reinventarem as suas vidas - e os actores falaram aqui também de como a sua solidão em cena foi alimentada com música, toda uma soundtrack concebida para os colocar, sem acção a rodos e sem diálogos e sem o campo-contra-campo para preencherem o vazio, no arco emocional que as cenas pediam.

Mas depois... começa a mostrar-se também que as personas de George e de Sandra (aquilo que dizem ser o charme dele e que é a tendência incorrigível para fazer o número de mestre-de-cerimónias das cenas; e o tal lado de desenrascanço doméstico dela) talvez impeçam o filme de chegar às alturas, como Mary Elizabeth Mastrantonio e Ed Harris chegavam, mesmo estando nas profundezas, no Abismo de James Cameron (1989) - e Bullock sozinha na nave também é um fraco remake da Ripley de Sigourney Weaver no Alien. E começa a mostrar-se que se calhar - mas não é apenas uma hipótese, o filme vai confirmando-o - essa vocação doméstica do par para a qual George e Sandra aqui parecem feitos (há momentos de uma screwballcomedy eficaz mas não excessivamente inspirada, logo, não inteiramente jogada nem arriscada) é apenas o rosto da visão convencional e domesticada de Cuarón, que também é um dos argumentistas.

No fundo, como ele depois disse em conferência de imprensa, tudo isto será uma grande metáfora, em que os destroços das naves rimam com as dificuldades destes dias difíceis. E em que espreita e se declara uma filosofia de auto-reconstrução: a personagem de Sandra Bullock, presa a uma tragédia do passado, tem de andar outra vez de pé e sozinha - e Cuarón não faz por menos, filma Sandra a passar do rastejanço ao andar humano, como uma síntese da evolução das espécies (ali vê-se como o treino de dança dela ajudou). O que começou silencioso acabou a gritar. Por esta altura já a música deflagra há algum tempo das imagens, apetece mesmo sussurrar: chiuuuu!!!!. É pena Sandra e George não terem estado sozinhos no espaço.