A guerra de que Obama não podia fugir

Síria deverá ser bombardeada a qualquer momento. Debate sobre a dimensão e alvos já é aberto

Ao fim de três anos de uma brutal guerra civil - 100 mil mortos -, chegámos ao ponto em que um ataque contra a Síria pode acontecer a qualquer momento. Generais, diplomatas, ministros, estrategas e deputados de vários países estão a ser chamados para anteciparem o fim das férias e participarem nos planos da guerra.

Ontem foi particularmente notório o tom de confiança e prontidão que veio de Londres, de Washington e do secretário-geral da NATO. Os 20 inspectores da ONU que estão na Síria a recolher provas do uso de armas químicas ainda não apresentaram o seu relatório, mas muitos países do Ocidente e da Liga Árabe não dão mostras de precisarem de ler as conclusões. A Itália tem sérias reservas e diz que só aprovará a resolução proposta pelo Reino Unido para um ataque se as provas forem tornadas públicas e o Conselho de Segurança aprovar uma intervenção. Este debate parece no entanto já ultrapassado pela realidade. O primeiro ataque químico do século XXI vai muito provavelmente ter uma resposta militar sob liderança americana. A discussão é agora sobre se será mais ou menos cirúrgico, se a "punição" a Assad se limitará aos quartéis envolvidos nos ataques químicos ou se incluirá também os seus palácios e outros símbolos de poder.

Não poderia ter sido até ontem. Barack Obama tinha que discursar sobre os 50 anos do "discurso do sonho" de Martin Luther King sem os seus porta-aviões estarem em simultâneo a bombardear a Síria. Inevitavelmente, muito do que Obama disse ontem sobre a América foi lido à luz do que está na cabeça de todos - a guerra na Síria. Feito o discurso, a partir de agora não há mais constrangimentos. Chegados ao ponto de a dúvida sobre as armas químicas ter passado o teste americano da "dúvida razoável", Obama não podia não fazer nada. Não fazer nada, por pequeno e cirúrgico que seja, seria a sua total descredibilização.

Uma boa herança

de Santos Pereira

O ministro da Economia não desiste da reindustrialização e aproveitou o comité de sábios criado pelo seu antecessor, Álvaro Santos Pereira, para a desenvolver. Ao contrário do que é habitual, Pires de Lima decidiu não inventar a sua própria roda e fazer tudo de novo. Uma estratégia que se saúda, mesmo que o conceito de reindustrialização seja vago e confuso. Porque a ideia do regresso a um modelo tradicional de indústria é algo que faz pouco sentido nos tempos em que a incorporação de serviços nos bens industriais é o que faz a diferença. Depois, porque não é crível que o país tenha pergaminhos para, subitamente, querer emular o exemplo alemão. Ainda assim, a aposta do Governo em produzir bens transaccionáveis merece atenção. Porque contraria os tempos do consumo e do défice externo, nos quais a indústria ou a agricultura foram menosprezados. Um sinal de aprendizagem com os erros colectivos que deve ser encorajada.