Sintra A "grande guerra" vive-se nas fileiras dos sociais-democratas

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A presidência da Câmara de Sintra, o segundo maior concelho do país em termos de eleitores, vai ser disputada por 11 candidatos fotoS: daniel rocha

O PS fez uma aposta forte, mas arriscada. Um nome sonante nos meios políticos, mas alheio ao concelho e ao partido. O PSD pode ter deitado tudo a perder com o cisma provocado pela superestrutura partidária. Independentes espreitam

Sintra é um dos concelhos onde as eleições autárquicas prometem ser mais renhidas, com um total de 11 candidaturas, e um daqueles em que todos os olhares estão virados para um candidato independente, actualmente vice-presidente do município, que rompeu com o PSD, partido pelo qual tem sido eleito. Também aqui se verá se a crescente atracção do eleitorado pelas candidaturas independentes, ainda que nascidas no seio dos partidos, se está a consolidar, ou se as máquinas partidárias conseguem fazer valer o seu peso e fazer vingar as suas lógicas de captação de votos.

Tanto ou mais do que saber se Basílio Horta, o fundador do CDS que desde há dois anos veste a camisola do PS, conseguirá colher os frutos do cisma que feriu o PSD local, interessa aqui saber quem ganhará o braço-de- -ferro que opõe dois homens nascidos para a política neste partido: Pedro Pinto e Marco Almeida.

O primeiro concorre porque a direcção do partido de que é vice-presidente lhe ofereceu o lugar, sem ter qualquer ligação ao concelho e com parte do PSD sintrense contra ele. Até no CDS, que integra a coligação maioritária em Sintra há 12 anos e que agora se renova com Pedro Pinto à cabeça, o actual vereador Luís Duque abandonou o barco para apoiar Marco Almeida - o candidato discreto que fez toda a sua vida no concelho e que a direcção de Passos Coelho enjeitou em favor de um dos seus barões.

Pedro Pinto (57 anos) e Marco Almeida (44) têm em comum, para lá das suas militâncias no PSD e na JSD, pelo menos o facto de terem nascido na Angola colonial. Mas o primeiro andou sempre lá por cima, e de um lado para o outro: presidente da JSD, deputado em cinco legislaturas nacionais, deputado em Estrasburgo, vereador em Lisboa, candidato derrotado à Câmara de Matosinhos (1997), agora vice-presidente de Passos Coelho. Já Marco Almeida agarrou-se à terra, fixou raízes no concelho - não nos palácios da vila, mas nos bairros sociais, a começar pelo de Mira Sintra, onde viveu, andou na escola e foi escuteiro. Fez um percurso de intenso trabalho local, autárquico e associativo, sempre nas estruturas da JSD e do PSD e com algumas passagens por órgãos nacionais do partido, ainda que nas segundas linhas.

Nos últimos 12 anos, como vice-presidente da câmara e número dois de Fernando Seara, desenvolveu fortes laços com as escolas, as colectividades de cultura, recreio e desporto, as instituições de solidariedade social, as juntas de freguesia.

Daí o apoio inicial da concelhia do partido e de grande parte dos presidentes de junta à sua candidatura, incluindo a socialista que preside à Junta de Freguesia de Monte Abraão (Fátima Campos) e que faz parte das suas listas. E daí também o protesto da concelhia e de muitos militantes de base, e a demissão da líder local da JSD, quando a direcção do partido preferiu o barão à formiguinha trabalhadeira.

Passado o tempo da agitação, as duas candidaturas estão agora no terreno a disputar o mesmo eleitorado, sendo certo que Marco Almeida, com o histórico (e agora dissidente) social-democrata António Capucho a encabeçar a lista para a assembleia municipal, não hesita em piscar o olho à esquerda, prometendo mesmo "um Estado social local" e exibindo o trabalho feito nas áreas que tutelava nos últimos três mandatos.

Recuperar terreno

Pedro Pinto parte lá muito de trás e tenta recuperar terreno com o apoio de figuras públicas nas quais procura a notoriedade que lhe falta no concelho. O cantor Luís Represas, conhecido pelo seu passado na área da esquerda, é o mandatário. Hernâni Carvalho, jornalista de televisão, é o candidato à presidência da assembleia municipal. E nos cartazes, além destas duas figuras, aparece com o actual presidente (e candidato a Lisboa), Fernando Seara (que não terá gostado muito de se ver nesse papel), com a atleta Carla Sacramento e com o ex-futebolista Carlos Mozer.

No seu programa aparecem tópicos idênticos aos que são ostentados por Marco Almeida e Basílio Horta - turismo, investimento, emprego, transportes - e uma insistência particular no tema da segurança. Para o apoiar nessa área foi buscar Hernâni Carvalho, que não é candidato à vereação e a quem se refere como especialista na matéria. A principal ideia já apresentada neste domínio é a criação de mais lugares de guarda-nocturos. Original também é a proposta de instalação de uma feira popular num local do concelho que ainda não foi revelado.

Potencial beneficiário desta disputa entre os seus antigos aliados é Basílio Horta (70 anos), que também foi buscar o apoio de nomes sonantes do mundo socialista, incluindo Mário Soares, Jorge Sampaio e Jorge Coelho. Freitas do Amaral, também fundador do CDS, é outro dos seus apoiantes.

Sem actividade ligada ao concelho no seu currículo, Basílio Horta, tal como Pedro Pinto, tem sido visto como um "pára-quedista" nesta campanha eleitoral e também teve de se defrontar com alguma resistência nas instâncias locais do partido que o acolheu. Dois históricos presidentes de junta do PS viraram-lhe mesmo as costas para se candidatar como independentes: Barbosa de Oliveira que dirige a junta de Queluz e avançou com uma candidatura independente à câmara; e Fátima Campos, a aguerrida autarca de Monte Abraão que agora lidera a lista do movimento de Marco Almeida para a nova junta de Massamá e Monte Abraão. Nas hostes de Basílio Horta ficaram dois actuais vereadores socialistas, Eduardo Quinta Nova, que integra a lista para a câmara, e Domingos Quintas, que lidera a candidatura à assembleia municipal.

Nos seus activos avulta o capital de influência que reuniu nas funções nacionais e internacionais que desempenhou na área da promoção do investimento estrangeiro e do comércio externo, sendo a atracção de empresas e a criação de emprego uma das suas principais bandeiras eleitorais. A adopção de medidas de emergência para recuperar o litoral do concelho é outra das propostas de Basílio Horta.

A única sondagem não partidária que se conhece até esta data foi feita para o Jornal de Notícias a meio de Julho e dava uma ligeira vantagem para Marco Almeida, com 26,9% das intenções de voto. A seguir vinham Basílio Horta (26), Pedro Pinto (19,2), Pedro Ventura (CDU) com 10,6% e Luís Fazenda (BE) com 7,4%.

Pedro Ventura, para lá da promoção das políticas sociais e de defesa do serviço público, aposta num ordenamento do território "norteado para a criação e fixação de emprego e combate às desigualdades sociais". A promoção de uma "dinâmica metropolitana" de desenvolvimento económico e social é outra das bandeiras da CDU.

Luís Fazenda, por seu lado, compromete-se a lutar contra a privatização e a degradação dos serviços públicos dependentes do município, insistindo na necessidade de criar emprego, nomeadamente através da promoção, pelo município, da marca Sintra, não apenas no que respeita ao turismo, mas em relação a todas as potencialidades do concelho.

Além de Pedro Pinto, Marco Almeida, Basílio Horta, Pedro Ventura e Luís Fazenda estão na corrida à Câmara de Sintra Nuno Azevedo (PAN), António Laires (PCTP/MRPP), Nuno da Câmara Pereira (PND), José Lucena Pinto (PNR), João Massena (PTP) e o independente Barbosa de Oliveira (actual presidente da junta de Queluz, eleito pelo PS).