Ordem quer triagem de doentes nas urgências feita apenas por médicos

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"São cada vez mais recorrentes os relatos de mortes de doentes triados com a pulseira verde nos hospitais", escreve a Ordem dos Médicos NUNO FERREIRA SANTOS

Médicos dizem que há cada vez mais casos mal classificados que resultam em morte. Enfermeiros garantem que estão preparados para triar doentes nas urgências. "Um médico acerta mais", diz Ordem

Está aberta mais uma guerra entre médicos e enfermeiros. A Ordem dos Médicos (OM) defende que a triagem dos doentes nas urgências dos hospitais deve deixar de ser efectuada por enfermeiros, como acontece há mais de uma década em Portugal, passando a ser assegurada por clínicos experientes. "Um médico acerta mais do que um enfermeiro. Os médicos é que têm formação para fazer diagnósticos", justifica o bastonário da OM, José Manuel Silva.

São afirmações que "geram dúvidas e desconfiança na população e podem colocar em causa um sistema com provas dadas cientificamente e com elevado grau de satisfação por parte dos utentes", critica o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Germano Couto. O sistema que começou a ser usado nas urgências hospitalares em Portugal a partir de 2000 - a chamada "triagem de Manchester" - classifica a gravidade e a prioridade dos doentes através de protocolos clínicos, atribuindo pulseiras com cores, desde o vermelho (emergência) até ao azul (não-urgente).

Para sustentar a polémica posição, que veio publicada na última edição da revista da organização, a Ordem dos Médicos alega que são "cada vez mais recorrentes os relatos de mortes de doentes triados com a pulseira verde [caso considerado não-urgente] nos hospitais". Avança mesmo com um exemplo de uma mulher de 38 anos que sofreu uma paragem cardiorrespiratória pouco tempo depois de lhe ser atribuída uma pulseira verde numa urgência hospitalar.

O nome da unidade de saúde não é referido na revista, mas o caso, que terá ocorrido em Março deste ano no Hospital de Setúbal, deu origem a queixas na Ordem e na Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e à abertura de um inquérito pelo Ministério Público. A doente, "alegadamente saudável e sem qualquer medicação habitual", manifestava "agitação psicomotora e queixas inespecíficas de ansiedade", descreve a revista. Classificada com "comportamento estranho", foi encaminhada para o serviço de Psiquiatria. "Dez minutos depois", quando um médico se preparava para a observar, deu-se a paragem respiratória. Do relatório hospitalar não é evidente que tenha havido qualquer falha ou problema, mesmo na triagem, conclui a OM, que considera que o defeito está no sistema de Manchester, que padece de "graves limitações". "Só os médicos têm a formação necessária para se aperceberem dos sinais insidiosos que podem apontar para situações potencialmente mais graves", remata.

Admitindo embora que preferia ser atendido por "um enfermeiro experiente do que por um médico acabado de formar" numa urgência, José Manuel Silva acrescenta outro motivo para sustentar a reivindicação de que a tarefa da triagem devia estar nas mãos dos clínicos. Em Portugal, ao contrário do que acontece no Reino Unido, onde foi criada a triagem de Manchester, não há falta de médicos.

Este sistema de triagem "não é um momento de diagnóstico clínico, é uma forma de racionalização de tempos de espera com base em indicadores clínicos", retorque Germano Couto, que lembra que os enfermeiros estão "devidamente preparados para esta função". "Uma paragem cardiorrespiratória pode ocorrer a qualquer um, em qualquer momento e em qualquer local, mas o seu resultado será provavelmente menos grave se existir uma avaliação prévia que permita identificar as pessoas que estão em maior risco", acrescenta.

O bastonário da OE remete para um estudo efectuado em 2006 no Hospital de Sto. António, que prova que médicos e enfermeiros estão quase sempre de acordo na hora de classificar a gravidade dos casos. Um grupo de alunos do 5.º ano de Medicina avaliou uma amostra de 1.746 urgências, comparando a sua opinião com a triagem feita por enfermeiros. "Houve total concordância relativamente à atribuição da classificação vermelha e azul" e, nas restantes, "registou-se uma diferença de opinião em apenas 1% das situações".