Habitantes de freguesias de Sintra sem carro queixam-se de falta de autocarros

Cidadãos mostram-se relativamente satisfeitos com comboio até Lisboa, mas aqueles que não têm carro queixam-se das ligações dos autocarros.

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Transportes públicos constituem problema para os moradores

O despertador de Sandra Reis, técnica oficial de contas de 46 anos, toca às 5h45. Às 7h30 sai de casa, no Cacém, em Sintra, e, na maior parte das vezes, vai a pé até à estação para apanhar o comboio até Lisboa. Caminha todos os dias 30 minutos, num sentido e noutro. "Às vezes apanho um autocarro, mas quase sempre vou a pé. Em determinadas freguesias de Sintra há poucos transportes e eu acho o Cacém mal servido de transportes", diz, durante o percurso de comboio que saiu de Sintra às 8h10 em direcção a Lisboa.

São sobretudo os habitantes das freguesias de Sintra que não têm carro, como Sandra Reis, que mais se queixam. Dizem estar bastante dependentes do comboio para ir trabalhar para Lisboa e que, quando este falta, o transtorno é grande. Consideram não só que devia haver mais alternativas de deslocação até Lisboa, mas também que os autocarros que ligam as freguesias mais afastadas ao centro e às estações ferroviárias têm horários muito espaçados.

Embora não seja a única empresa rodoviária a operar em Sintra, a Scotturb, que circula no concelho, é aquela que é mais vezes referida por estes habitantes. Em resposta, a empresa precisa que opera 58 carreiras regulares, realizando cerca de 1800 circulações todos os dias, mas adianta também que não possui vias dedicadas (corredor bus) para circular com os autocarros no concelho de Sintra, "onde o trânsito já é muito congestionado mesmo para os ligeiros", o que "pode vir a dificultar o cumprimento dos horários das carreiras."

Carlos Porfírio, pasteleiro de 39 anos, que também não tem carro, está há mais de meia hora à espera de um autocarro numa paragem na freguesia de Colares, em Sintra. Foi lá inscrever o filho de 16 anos numa escola profissional. Divorciado, a viver com três filhos, reclama não só da frequência de autocarros nas Mercês, onde mora, como também da falta de alternativas ao comboio que usa, todos os dias, para chegar a Benfica, onde trabalha: "Em dia de greve dos comboios, já tive de ir de táxi para Lisboa. Ir e vir são 40 euros. Antigamente o meu patrão pagava, agora não", diz.

Em dias de greve da CP, Sandra Reis acabou por apanhar um autocarro até Belém. Porém, considera que os autocarros que servem aquela freguesia são poucos em frequência e número. Depois de fazer 30 minutos a pé todos os dias a pé, Sandra Reis apanha o comboio até Lisboa, de seguida o metro e ainda volta a andar mais 10 minutos a pé até ao local de trabalho. Faz este percurso para ir e regressar do trabalho todos os dias.

Ir a Lisboa à noite

De manhã e num dia de Verão, o comboio sai quase vazio da Portela de Sintra, embora comece a encher à medida que as pessoas vão entrando nas estações seguintes. Ainda assim, e apesar de os lugares sentados estarem preenchidos, há bastante mais espaço do que noutras alturas do ano.

As pessoas que têm carro acabam, quase todas, por usá-lo nas deslocações diárias entre casa e as estações da linha de Sintra. Preferem pagar estacionamento durante todo o dia, deixando o carro na zona da estação de comboio, a usar o autocarro: "Uso a linha de Sintra todos os dias para Lisboa. Venho do Magoito de carro até à Portela [de Sintra] e depois apanho o comboio. Não venho de autocarro, porque não dá, não me compensa de maneira nenhuma. Prefiro deixar o carro a pagar. Há poucos autocarros, ia ser complicadíssimo", justifica Carlos Carvalho, empresário de luvaria de 54 anos, que trabalha em Lisboa.

Também Rui Rocha, de 36 anos, prefere deslocar-se de carro de Colares, onde mora, até à Portela de Sintra, onde apanha o comboio para trabalhar em Lisboa: "Os autocarros são complicados. São muito espaçados, não são fiáveis, não cumprem horários. Prefiro trazer o meu carro", diz. A economista de 55 anos Júlia Matos, que vive em Montelavar, Sintra, e trabalha em Lisboa, também prefere deslocar-se de carro até à estação da Portela de Sintra, onde apanha o comboio: "Há camionetas, mas os horários são muitos espaçados", argumenta.

Maria Fernanda, 66 anos, que vive na freguesia de Colares há 20, onde tem um quiosque de venda de bilhetes e passes de autocarro, diz que o pior é à noite: "Aqui, durante o dia, as pessoas que não tiverem carro não têm outra hipótese para chegar ao comboio que não seja o autocarro. Mas à noite não há, se alguém quiser ir a Lisboa tem mesmo de arranjar carro", nota.

Apesar disso, o taxista Manuel Luís, 64 anos, que também mora e trabalha em Colares, não regista mais movimento. Pelo contrário: "Estamos com falta de trabalho", desabafa. Embora seja dos poucos a considerar que não é preciso haver mais autocarros, admite que ainda há quem necessite do táxi para chegar a casa: "Há pessoas no Penedo [aldeia] que não têm hipótese de ir de autocarro lá para cima, para a serra. Então, ligam para taxistas, para nós esperarmos por eles [à noite] para os levarmos lá. São dois quilómetros e meio a subir. Mas também as pessoas, como a vida está, não podem querer ter o transporte à porta de casa", defende. E acrescenta: "Antigamente havia muitos reformados que pediam serviços de táxi, mas, com os cortes, pedem aos vizinhos, aos filhos, aos amigos, agora é tudo para a poupança...", lamenta.