Justificação de Menezes para apoio a idosa do Porto gera contestação

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As explicações de Luís Filipe Menezes sobre o montante pago a uma idosa não convencem farmarcêuticos nelson garrido

Comentários em redes sociais ligadas ao sector farmacêutico dizem que os valores avançados pelo candidato do PSD à Câmara do Porto não podem corresponder a medicamentos para diabéticos.

As justificações de Luís Filipe Menezes relacionadas com o pagamento da renda de casa e da factura da luz a uma idosa que vive num bairro social do Porto causam estranheza nos farmacêuticos contactados pelo PÚBLICO que questionam a validade dos argumentos apresentados pelo candidato do PSD à Câmara do Porto.

A candidatura de Menezes justificou o apoio dizendo tratar-se de uma "idosa, diabética, que necessitava de comprar medicamentos no valor de 250 euros com carácter de urgência".

Numa conferência de imprensa, na sexta-feira, Amorim Pereira, número dois da lista à Câmara do Porto e mandatário financeiro da candidatura, disse ainda que "face a esta situação única e particularmente dramática do ponto de vista humano, os elementos da comitiva [que acompanhava o candidato] quotizaram-se" para "liquidar duas pequenas contas da fruição da sua casa, o que lhe impedia de pagar os citados medicamentos".

Perante o teor das justificações, os comentários surgidos nos blogues de farmacêuticos contestam os fundamentos, uma vez que, para o caso de doentes diabéticos, a despesa mensal é de 15 euros. "Numa situação de extrema gravidade com patologias associadas seria no máximo de 60 euros." E explicam que, "tratando-se de uma idosa, parte dos medicamentos até é gratuita porque tem regime especial".

Isaura Martinho, proprietária de uma farmácia num bairro social da cidade, explica mesmo que "a insulina é gratuita para os pensionistas", e "os antidiabéticos orais ficam relativamente baratos, e os medicamentos que tomam para patologias associadas à diabetes são baratos".

"Se os doentes tivessem que pagar 250 euros em medicamentos, já não havia doentes, estavam todos mortos", diz a farmacêutica, que não esconde a indignação com que ouviu as palavras do candidato social-democrata. E diz: "Em política não pode valer tudo. Luís Filipe Menezes cometeu um erro e não pode desculpabilizar-se cometendo outro. [Luís Filipe Menezes] não pode utilizar a questão do medicamento para encobrir um erro que cometeu e foi isso que me chocou", comenta Isaura Martinho.

"Lido todos os dias com doentes nestas circunstâncias na minha farmácia e não há nenhum que tenha receitas para pagar naquele valor", afirma. "Fiquei escandalizada, aquilo que o candidato disse não é honesto e parece que na política vale tudo."

"A medicação e a política do medicamento é um assunto sério e os políticos têm de entender isso", remata a farmacêutica, que comentou nas redes sociais a polémica que envolve Luís Filipe Menezes.

O também farmacêutico Pedro Coelho tem uma opinião idêntica. "Tendo em conta as comparticipações a que a senhora tem direito, o valor em causa parece-me inviável", afirmou Pedro Coelho ao PÚBLICO. Frisa que a insulina para os diabéticos é gratuita e até a comparticipação do Diamicron, por exemplo, [um medicamento usado pelos diabéticos] é alta".

Mas Pedro Coelho, que contactou três farmácias da cidade, faz uma ressalva. "O valor da factura só faz sentido, se estivermos a falar de dívidas na farmácia de seis meses."

Por seu lado, o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Maurício Barbosa, prefere não comentar o caso, por falta de dados concretos. "Os meus colegas farão os comentários que entenderem, até porque estão mais familiarizados com os valores [dos medicamentos], mas não disponho de dados que me permitam dizer que o valor é alto de mais", declarou o bastonário. O PÚBLICO contactou a candidatura de Menezes que não quis fazer declarações.

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