Subitamente o euro entrou na não-campanha alemã

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O Partido Social Democrata, SPD, opositor de Merkel, pede mais flexibilidade na gestão da crise europeia e nos termos dos empréstimosA União Democrata Cristã (CDU) , de Angela Merkel,trouxe a questão europeia para a campanha das legislativas, consideradas as eleições mais importantes da Europa AFP/DPA/HENNING KAISER/GERMANY OUT

Falta um mês para as eleições e os alemães não estão entusiasmados. Mas de repente, o ministro das Finanças lançou a Grécia e o euro na campanha

Os alemães votam daqui a um mês nas que já foram classificadas como as eleições mais importantes da Europa. Mas o interesse dos alemães pela campanha das legislativas de 22 de Setembro parece não ser grande, com 73% dos inquiridos numa sondagem da revista Stern a dizerem que estão "pouco" ou "nada" interessados na campanha, e metade dos inquiridos com idades entre os 18 e os 29 anos a nem sequer saberem dizer em que mês se realizam as eleições.

A imprensa, com a sua necessidade de etiquetas, já decidiu que esta é a "não-campanha" ("nichtwahlkampf"). Os motivos para o tédio são mais do que muitos: a vitória anunciada de Angela Merkel para um terceiro mandato, e, segundo as sondagens actuais, com a mesma coligação (a chanceler já deu entrevistas em que pôs a hipótese de uma nova "grande coligação" com os sociais-democratas, para depois, noutra entrevista, recusar esta hipótese); a pouca diferença de programas dos partidos do "centro" (a democrata-cristã Merkel tem sido mestre a apropriar-se dos temas clássicos do centro-esquerda como o salário mínimo, que não existe na Alemanha a não ser em certos sectores), e uma desconfiança generalizada em relação aos políticos.

Esta desconfiança tem uma vertente particular: a grande maioria dos alemães - nove em cada dez - não acredita que os seus dirigentes lhes estejam a dizer a verdade sobre a crise do euro.

Quem espera que este sentimento forte se reflicta nos resultados de Merkel sairá desiludido: a desconfiança é dirigida a toda a classe política e Merkel é vista como a aposta segura e credível para lidar com a crise, mais do que o seu opositor, Peer Steinbrück, do Partido Social-Democrata (SPD, centro-esquerda). Na verdade, as propostas do SPD, apesar de pedirem mais flexibilização na gestão da crise europeia ou nos termos dos empréstimos, não têm uma abordagem radicalmente diferente da de Merkel - e na Alemanha a questão da gestão da crise não é vista como uma oposição entre austeridade e crescimento. Aliás, austeridade é "política de poupança". E investimento é "contrair dívidas", algo que na Alemanha ninguém quer (a palavra alemã Schuld tanto quer dizer dívida como culpa).

Recém-entrado na campanha depois de anos na sombra, o antigo chanceler social-democrata Gerhard Schröder está justamente a tentar mudar a percepção de que Merkel é a aposta "segura". Schröder perdeu o cargo por causa das suas ambiciosas reformas da Agenda 2010 (apresentadas em 2003), que, ao diminuir as prestações sociais, incentivar a procura de emprego e flexibilizar o mercado de trabalho, levaram a uma debandada dentro do seu próprio partido, eleições antecipadas e uma derrota eleitoral.

As consequências das reformas da Agenda 2010 foram inicialmente negativas para o emprego e são apontadas como a causa de mais desigualdades sociais na Alemanha. Mas são também vistas como a chave para o baixo desemprego alemão - ainda há um ano o Wall Street Journal entrevistava Schröder e dava ao texto o título "O homem que salvou a economia alemã".

O SPD está a tentar apresentar Schröder como o homem corajoso que não hesitou em fazer reformas dolorosas, por oposição a Merkel, a chanceler da abordagem passo a passo que na crise europeia, acusam, apenas fez com que tudo se tornasse mais difícil - e caro - de resolver.

E subitamente na semana passada, a questão europeia entrou na campanha, curiosamente, pela mão da própria União Democrata Cristã (CDU), na voz do ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble. Merkel tinha vindo a empurrar a questão da possibilidade de um novo resgate grego para o próximo ano. Com o próprio banco central alemão a considerar que um novo empréstimo era praticamente inevitável, Schäuble pôs as cartas em cima da mesa e admitiu essa probabilidade.

Analistas dividem-se: terá Schäuble querido matar à nascença um assunto inevitável na campanha? ("Matar o mal pela raiz", disse Peter Matuschek, chefe de análise política do instituto de sondagens Forsa, ao canal de informação económica Bloomberg). Ou calculou mal e permitiu que a questão entrasse na campanha? ("A Grécia é um assunto perigoso. Não é muito inteligente trazê-lo ao de cima numa altura em que há um sentimento geral de calma", diz Klaus-Peter Schöppner, do instituto Emnid, citado pela Reuters.) Já ontem, Schäuble reafirmou uma clara oposição à emissão conjunta de títulos de dívida europeia, as chamadas eurobonds, tema que tem andado arredado da própria agenda europeia.

"Já deixei claro que salvar a Europa e manter o continente unido tem um custo, também para nós alemães", disse o rival de Merkel, Peer Steinbrück, que já foi o seu ministro das Finanças durante a grande coligação que marcou o primeiro mandato de Merkel (2005-2009).

"Não se ganha a confiança dos eleitores a esconder e obscurecer", disse, pelo seu lado, Schröder. "Só dizendo directamente." Mas a verdade, diz Matuschek, é que as sondagens mostram claramente uma coisa: "O pouco apetite para mudança."

Nas últimas semanas, o Partido Liberal Democrata (FDP), parceiro de coligação de Merkel, subiu nas sondagens, pouco, mas o suficiente para fazer cada vez mais possível a repetição da actual coligação. Apesar de marcada por vários desentendimentos (ironicamente muito mais do que a grande coligação dos rivais CDU-SPD), seria a escolha preferida de Merkel. Ainda por cima, o peso relativo dos dois parceiros alterar-se-ia, com uma diminuída expressão do FDP, que em 2009 obteve 14,6%, e que agora estava no limbo dos 5%, tendo estado em causa que passasse a barreira dos 5% para ter representação parlamentar - nas últimas sondagens tem aparecido com 6%.

Tentando apresentar-se como uma opção para quem não partilha do discurso da inevitabilidade dos empréstimos, surgiu no início do ano o partido Alternativa para a Alemanha (AfD). Defende que os países do Sul deveriam poder sair do euro - para o seu próprio bem, já que poderiam assim desvalorizar a sua moeda e tornar-se de novo competitivos, algo que com a moeda única só conseguiriam com cortes de 30% nos salários, dizem os seus líderes.

Estes líderes não são políticos populistas - são economistas, académicos, a maioria sem experiência política. Dizem que o problema é justamente a falta de conhecimento sobre economia da população. "Cerca de 80% das pessoas, ou mesmo 90%, não têm qualquer conhecimento de economia", sublinhou Bern Lucke, um dos fundadores do partido AfD. "Esta situação é muito perigosa para a Alemanha e para a União Europeia", defendeu, em declarações ao Wall Street Journal. Para já, as sondagens não prevêem que o partido consiga eleger deputados. Terá dificuldade, sendo um partido de um só tema e formado tão perto das eleições. Mas pode estar sub-representado nas sondagens por defender algo que muitos inquiridos sabem que é pouco popular.

Lucke terá razão numa das suas afirmações: a complexidade da crise do euro não ajuda à sua discussão. "Quem é que realmente percebe o que se está a passar?", diz Schöppner. "E quem é que percebe realmente o que é que os políticos estão a defender nestas questões?"

A campanha tem-se antes focado em assuntos como o salário mínimo ou as alternativas de creches para as mães - na Alemanha é normal que muitas mães fiquem em casa bastante tempo depois do nascimento dos filhos, de modo a não serem vistas como Rabenmütter, as mães-corvo que abandonam depressa os filhos. Os conservadores aprovaram um subsídio para mães que não usem infantários, todos os outros partidos querem direito a infantário público.

Como diz Noah Barkin, chefe de delegação da Reuters para a Alemanha: "Bismarck disse que os alemães dormem melhor quando não sabem como as salsichas e as leis são feitas." Merkel tem apostado em "manter tudo simples, tal como Bismarck".