Na Internet, a conversa é outra

De ameaças de morte feitas por anónimos a deslizes de políticos habituados a comunicar em público: online, somos mais desinibidos e rudes

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Os telemóveis permitem hoje uma ligação constante às redes sociais NICOLAS ASFOURI/AFP

Este mês, uma rapariga britânica de 15 anos suicidou-se, na sequência, segundo o pai, de mensagens publicadas na sua conta do site Ask.fm. A plataforma é usada sobretudo por adolescentes e permite fazer perguntas e deixar respostas anonimamente. Uma das mensagens dizia: "Morre, toda a gente ficará feliz."

No mês passado, uma feminista britânica foi alvo de repetidas ameaças de violação no Twitter, por vários utilizadores, muitos identificados com fotografias e nomes verosímeis. Numa mensagem particularmente brutal, um deles escreveu: "Se as tuas amigas sobreviveram a uma violação, é porque não foram bem violadas." As ameaças levaram à detenção, pelo menos, de um jovem de 21 anos.

Há muito que a gíria da Internet tem um termo para este tipo de insultos: trolling. Na mitologia escandinava, os trolls são seres sobrenaturais que vivem longe dos humanos. São anti-sociais e agressivos. Alguns têm uma aparência de monstros. Na linguagem moderna da Internet, os trolls são pessoas que, em fóruns, redes sociais e caixas de comentários, discutem sem argumentos racionais ou simplesmente insultam e ofendem os outros, embora não necessariamente com a violência dos exemplos acima. Os académicos têm outro nome para o fenómeno: desinibição tóxica.

"O efeito da desinibição online é uma força poderosa, mesmo quando estamos cientes do efeito que tem em nós. Muitas vezes, opera a um nível inconsciente", explica ao PÚBLICO o investigador americano John Suler, da Universidade de Rider, que em 2004 cunhou o conceito de "desinibição tóxica".

O fenómeno não diz respeito apenas a mensagens ofensivas: "Soltam-se a linguagem rude, as críticas duras, raiva, ódio, até ameaças. As pessoas exploram o submundo negro da Internet, os lugares de pornografia e violência, lugares que nunca visitariam no mundo real", escreveu no livro The Psychology of Cyberspace ("A Psicologia do Ciberespaço"), que está disponível online (do outro lado da desinibição tóxica, Suler coloca a desinibição benigna, que faz com que sejamos mais propensos a revelar emoções e desejos, ou a dar conselhos e ajudar os outros).

O caso da jovem que se suicidou pôs o Reino Unido a discutir o cyberbullying. Mas a desinibição não parece ser uma característica apenas dos mais novos. O psicólogo Américo Baptista, professor na Universidade Lusófona, afirma que "não são só os jovens" que têm este tipo de comportamento, embora seja de esperar que tenham "maior espontaneidade e menos filtro do que os adultos". No mundo offline, observa, "as interacções do nosso dia-a-dia caracterizam-se por termos um feedback imediato. Na Internet, não há esse feedback, há uma maior sensação de liberdade". Mas ressalva que, apesar de um "maior descuido" no mundo online, "o que acontece na Internet é o que acaba por acontecer na vida real".

A mesma opinião tem o especialista em segurança online Tito de Morais: "A intermediação da tecnologia muitas vezes leva as pessoas a dizer e a fazer aquilo que presencialmente não fariam. Não vemos as consequências dos actos em quem está do lado de lá. No caso particular dos jovens, se pegarmos na definição de desinibição - o desrespeito por convenções sociais, a impulsividade, a fraca avaliação do risco -, vemos que são características típicas da adolescência."

Internet menos anónima

John Suler aponta vários causas para a desinibição tóxica. Entre elas estão o anonimato, o facto de a comunicação ser assíncrona (alguém deixa um comentário que pode ser visto minutos, horas ou até dias depois), a concepção do mundo online como um mundo de fantasia, "separado das exigências e responsabilidades do mundo real", e ainda a ausência física do interlocutor.

Hoje, nas redes sociais, pelo menos um dos factores está esbatido: o anonimato. O Facebook tem uma regra que impede nomes falsos (há casos, incluindo em Portugal, em que o site pediu cópias de documentos para verificar a identidade dos utilizadores). A maioria das pessoas coloca no site informação que permite ligar o perfil a uma identidade offline. A generalidade dos utilizadores no Twitter também não oculta a identidade verdadeira.

Um estudo da União Europeia, publicado no ano passado, colocava Portugal entre os países onde os utilizadores consideravam ser menos problemático partilhar informação pessoal nas redes sociais, uma característica mais acentuada nos países do Sul e do Leste da Europa. Já o estudo "A Internet em Portugal 2012", do Observatório da Comunicação, indica que 96% dos utilizadores de redes sociais revelam o nome, 86% indicam a data de nascimento e 77% publicam uma fotografia pessoal.

"Redes sociais como o Facebook foram criadas com o objectivo de as pessoas serem mais honestas sobre a sua identidade. Mas isso não acontece, por exemplo, nos jogos de computador online", lembra o investigador americano, explicando que "o grau de anonimato varia de um ambiente para outro, às vezes com diferenças drásticas de comportamento". Porém, com a Internet menos anónima, há quem argumente que outros factores contribuem mais para o efeito de desinibição.

Um estudo de dois investigadores da Universidade de Haifa, em Israel, indica que a ausência de contacto visual pode ser mais relevante do que o utilizador não estar identificado. Noam Lapidot-Lefler e Azy Barak tentaram medir a agressividade das comunicações numa ferramenta de conversação escrita. Conceberam uma experiência em que 142 participantes foram divididos em pares, onde os interlocutores tinham diferentes níveis de conhecimento e contacto. Em alguns casos, as pessoas não se viam nem sabiam nada sobre a outra. Noutros, tinham acesso a informação como idade, profissão, nome e género. Noutros ainda, uma câmara mostrava o corpo do interlocutor, visto de lado. Por fim, havia quem tivesse uma câmara adicional que permitia aos participantes verem os olhos da pessoa com quem conversavam.

Aos pares foi pedido que imaginassem estar numa situação em que cada pessoa precisava do mesmo medicamento para salvar a vida de alguém que lhes era próximo, mas só havia uma dose. O objectivo era convencer o interlocutor a abdicar do fármaco salvador.

A análise das conversas escritas indicou que a ausência de contacto visual era o factor que mais coincidia com o aumento de linguagem agressiva e rude. "No que diz respeito a expressões de desinibição tóxica, a ausência de contacto visual levou a que os participantes se sentissem menos expostos e mais anónimos e, portanto, mais inclinados a entrar em comportamentos incendiários", concluiu o estudo.

Sempre no palco

Abundam os casos de comentários descuidados online vindos de pessoas bem identificadas e até com reconhecimento público. Um caso de falta de contenção foi protagonizado recentemente por um jornalista sénior da revista Time. Michael Grunwald escreveu no Twitter uma mensagem na qual dizia estar ansioso por defender num artigo um ataque com drones ao mentor da WikiLeaks, Julian Assange. Grunwald acabou por pedir desculpas e retirar a mensagem pouco após a publicação, não sem que antes caísse sobre ele uma chuva de críticas e vários pedidos para que fosse demitido (o que não aconteceu; a Time escreveu apenas uma nota em que se distanciava das declarações feitas "na conta pessoal" do jornalista).

O Twitter está recheado de deslizes de figuras públicas, embora com níveis distintos de gravidade. Em Portugal, o vice-presidente da bancada parlamentar do PSD e candidato à Câmara de Gaia, Carlos Abreu Amorim, cometeu uma das mais notórias gaffes online deste ano ao assinalar a vitória do FC Porto no campeonato de futebol com uma mensagem aos adeptos do Benfica em que lhes chamava magrebinos. Pediu desculpas no dia seguinte: "Ontem fiz um tweet em que brincava com amigos meus benfiquistas. Lamento se ofendi alguém, não tinha essa intenção. Foi um momento infeliz" (a mensagem original continua publicada).

Já em 2009, uma mensagem no Twitter do então deputado Pedro Duarte visava a jurista Isabel Moreira (hoje deputada na bancada do PS), que estava a participar num programa televisivo: "Não sei, nem quero saber, a sua orientação, mas falta-lhe homem" (Duarte, que hoje trabalha na Microsoft Portugal, negou a autoria e disse que a conta do Twitter tinha sido atacada).

Não é razoável pensar que o jornalista da Time e os deputados portugueses não tenham noção de como uma mensagem na Internet se pode espalhar de forma quase imediata. A questão, considera o investigador Charlie Beckett, director do Polis, um think tank de media na London School of Economics, é que as regras de comportamento ainda não estão inteiramente definidas no mundo online e as esferas do público e privado cruzam-se ocasionalmente. "A Internet está a tornar visíveis e audíveis coisas que costumávamos dizer em privado ou entre amigos. Algumas dessas coisas vão ser rudes, tontas ou provocadoras porque isso é o que as pessoas dizem em privado."

No mundo da avalanche de comunicação, onde toda a gente fala, os políticos têm um problema adicional, argumenta Beckett: "É dada importância a tudo o que dizem" - mesmo que sejam os 140 caracteres, ou menos, de um tweet. "Agora, [os políticos] não têm um espaço privado, o que significa que estão sempre no palco. Têm dificuldades em adaptar-se às regras das redes sociais porque estão habituados a ter o poder de controlar a conversa. [Fora da Internet], são eles que normalmente definem o tom."