"Há pessoas em situações piores e que não se metem na droga, mas eu tenho este escape"

Quase triplicaram as readmissões de consumidores de heroína e isso deve-se à melhoria nos registos - que já não assumem como novo um paciente reincidente - mas também às recaídas de quem foi apanhado pela crise, como Fernando e Paulo

Detinha-se em cada pormenor dos candeeiros que lhe saíam das mãos. Tantas vezes trabalhou desde o despertar ao adormecer. Durante anos, nem fez férias. Não se lembra de entrar num cinema ou num teatro. "Esqueci-me de mim. Esqueci-me da minha vida familiar, que não construí. Esqueci-me da minha vida social. Libertei-me das drogas agarrando-me ao trabalho."

Já consumiu esta manhã. Pesam-lhe os olhos. Arrasta um pouco a voz. Está dentro de uma sala do Centro de Respostas Integradas - Porto Ocidental, que dispõe de equipas técnicas especializadas na prevenção, tratamento, reinserção e redução de riscos e minimização de danos. Não se pode demorar nesta conversa. O pai está lá fora. Trouxe-o à consulta.

O pai julgara-o a salvo. Toda a família o julgara. Paulo sujeitara-se a uma desintoxicação, abrira uma empresa e durante 12 anos nada mais parecera interessar-lhe. Em 2008, perante a queda do banco Lehman Brothers nos Estados Unidos, não imaginou "isto", mas agora acha que "isto" começou aí.

O mercado nacional está impróprio. Paulo sente-o desde 2003. Um irmão tem uma empresa de exportações. Ia a feiras internacionais e trazia-lhe encomendas. Paulo só tinha de as aviar. "Telefonava-se para o cliente. "Mande 50% para começar a fazer a encomenda. Quando estiver pronta, mande o resto."" Desde 2009, tudo mudou. As encomendas foram mingando. Acabou a liquidez que lhe permitia "trabalhar com uma certa folga". Os dias esvaziaram-se.

Recaiu em Setembro de 2011. Consumiu quase três meses. Organizou a agenda para ficar internado uma dúzia de dias numa clínica de desintoxicação. Encomendou o material de que necessitava para satisfazer uma nova encomenda. Quando chegasse, podia retomar os trabalhos. Em Agosto de 2012, tornou a recair.

A crise agravou-se. A "fabriqueta" de Paulo não resistiu ao cancelamento de uma grande encomenda. Era o seu maior cliente - uma empresa francesa que representava 70% da facturação. E ele está cansado dos dias dominados pela heroína. Só quer abrir falência, fazer tratamento, mudar de vida.

O subdirector-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), Manuel Cardoso, disse-o durante uma audição na Comissão Parlamentar de Saúde em Julho: quase triplicaram as readmissões de consumidores de heroína nos serviços - 1008 em 2010, 1843 em 2011, 2881 em 2012. São dados brutos, que, segundo elucida, por telefone, não se podem ler sem cuidado. Parte dessa subida explica-se pela mudança no registo, que deixou de assumir como novo um paciente que entra num serviço se antes frequentou outro. De resto, há quem tenha abandonado o tratamento e decidido retomá-lo e quem tinha tido alta, refeito a sua vida, e voltado a consumir, como Paulo.

Depois daquela subida abrupta, o número de readmissões parece estar a estabilizar. No primeiro semestre deste ano, registaram-se 856. "Sabemos que há factores - uns de ordem pessoal, outros de contextos - que favorecem os consumos", comenta Santos Silva, da Divisão para a Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências na Região Norte. "Alguns estão na ordem do dia, como o desemprego e a diminuição dos apoios sociais. Tentamos antecipar os cenários e trabalhar com os utentes para conter os riscos."

Desde o início da crise que João Goulão, director-geral do SICAD, chama a atenção para o risco de agravamento do consumo de heroína, sobretudo pela via injectável. "Estão na primeira linha da fragilidade social", indica. Têm "maior dificuldade em lidar com a frustração". E podem recordar aqueles primeiros consumos, que lhes deram uma sensação de grande bem-estar.

Aparecem alguns neste prefabricado montado na Rua de Diogo Botelho, uma das mais longas da Foz do Douro. Antes daquele homem alto, de 47 anos, nesta cadeira esteve sentado Fernando, três anos mais velho. Também ele entrou em perda e não soube lidar com ela. Vendedor de imóveis, "ganhava muito bem". "Quando veio esta crise, o meu nível de vida baixou drasticamente." As casas demoram cada vez mais a serem vendidas a preços cada vez mais baixos. Começou a não haver dinheiro para extras lá em casa. "Quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Ia no segundo casamento. Separou-se. "Voltei-me para a droga."

"Não serve de desculpa", apressa-se a dizer Fernando. "Há pessoas em situações piores e não se metem na droga, mas, como tenho experiência com droga, tenho este escape." Ninguém me venha dizer que os problemas se esquecem. Aquilo não é uma bebedeira, a pessoa não esquece, mas fica mais dormente."

Recaiu há dois anos. Andava a ver imóveis, um deles perto do Bairro Dr. Nuno Pinheiro Torres, um ponto de tráfico na zona ocidental do Porto. "Pensei: se consumir hoje, não me agarro. O problema é esse. Ao fim de quatro ou cinco dias, uma pessoa quer sentar-se e já sente alguma coisa na espinha, já precisa de consumir para estar a 100% para trabalhar. E começa a mesma roda..."

João Goulão recusa "uma relação de causa-efeito" entre a crise económica e a readmissão de heroinómanos nas consultas. Nas recaídas desaguam múltiplos factores. Parece-lhe claro, porém, que o que caracteriza Portugal, e outros países em situação económica semelhante, "é algum decréscimo nas substâncias mais associadas ao ambiente recreativo e algum recrudescimento nas mais ligadas ao alívio do sofrimento", como a heroína e as bebidas alcoólicas.

Manuel Cardoso não notou apenas um aumento de readmissões de heroinómanos, mas também de cocainómanos e de alcoólicos, ainda que em menor escala. E tudo isso está a suscitar preocupação. O Grupo Português Activistas Tratamentos VIH/Sida, a Agência Piaget para o desenvolvimento e a associação CASO - Consumidores Associados Sobrevivem Organizados decidiram até preparar um documento para remeter à tutela com sugestões para "conter e reverter a situação".

Pelo menos por enquanto, salienta João Goulão, a subida não é suficiente para inverter as tendências que se vêm registando nos últimos anos em Portugal. Há cada vez menos consumidores de heroína: aparecem poucos novos, só que os velhos, em contrapartida, aparecem cada vez mais doentes, a exigir cada vez mais cuidados, em estruturas como o CRI-Ocidental. "Alguns dizem ter dificuldade em vir às consultas", lamenta Goulão. "Nós tínhamos facilidade em mobilizar apoios da Segurança Social para pagar transportes, agora é muito difícil", esclarece. Depois de "uma série de anos a tentar chegar quase à porta destas pessoas, tão difíceis de mobilizar", o país enfrenta falhas nos serviços de proximidade (ver texto em cima).

Não foram só os números de empresas falidas e de trabalhadores atirados ao desemprego que subiram. Nem os serviços específicos e as prestações sociais que se tornaram mais inacessíveis. Rendem menos os expedientes a que recorrem alguns toxicodependentes, como pedir esmola ou arrumar carros.

Está na literatura científica, mas para o perceber basta passar uma manhã ou uma tarde no CRI-Ocidental: faltando estupefaciente ou dinheiro para o comprar, há quem deixe de consumir, quem reduza a quantidade, quem mude para algo mais barato e quem tente obter o mesmo efeito com uma menor quantidade. Quem opta por bebidas alcoólicas pode beber mais depressa ou de estômago vazio, por exemplo. Quem snifa cocaína pode fumar base de cocaína ou crack, quem fuma heroína pode injectá-la. E isso tem maiores consequências na saúde pública.