Grupo quer ajudar a mudar Coimbra "sem custos" e para já

Foto
Grupo criou site para levar queixas de cidadãos à câmara PAULO RICCA

Um grupo de licenciados em informática criou um movimento de voluntários com projectos para "desenvolver Coimbra"

No centro histórico de Coimbra, Sérgio Santos pede para falar com o gerente do Café Santa Cruz. Numa mão leva um autocolante azul que identifica os "Cafés Wifi", na outra um tablet com a página da Internet em que aquele estabelecimento já está identificado como um dos que têm Net gratuita e que "recebem bem" quem quiser lá passar uma tarde a trabalhar. "Gostávamos que colocasse este autocolante na porta porque...", começa Sérgio. É interrompido pelo gerente do café, que olha para a aplicação informática com publicidade gratuita e desconfia: "Sem custos?"

A resposta é "sim, sem custos". E aquele é apenas um dos projectos que os elementos do Improve Coimbra desenvolvem nas horas livres. Não são sempre as mesmas pessoas, não trabalham sempre juntos nem ao mesmo ritmo e reúnem-se uma vez por mês, para fazer balanço do trabalho desenvolvido e procurar ideias novas, com a convicção de que podem "mudar a cidade" e oferecer-lhe o que "lhe faz falta", "de forma rápida, eficaz e - lá está - sem custos", explica Sérgio Santos.

Por exemplo: de onde saiu o dinheiro para os autocolantes dos "Cafés Wifi"? Gustavo Felisberto, de 35 anos, que trabalha numa empresa de software, dá uma gargalhada: "Do bolso, mas é quase nada!" Quanto ao tempo, "é roubado aos fins-de-semana". "Se servir para alertar as pessoas para a possibilidade de elas próprias fazerem algo por Coimbra, é muito bom", diz Gustavo.

Todos afirmam não esperar mais do que isso e não pretenderem mais do que participar na construção da cidade. "Os representantes dos partidos políticos ouvem as pessoas para ganhar as eleições. Nós, quando nos reunimos temos como objectivo fazer", compara Alcides Fonseca, de 24 anos, professor de informática na Universidade de Coimbra.

A descer para a Baixa da cidade para colocar autocolantes em edifícios devolutos convidando ao debate sobre o futuro de Coimbra (com o início da frase "Isto dava..." ou "Gostava que isto fosse..." e o espaço em branco para as pessoas escreverem), Alcides comenta que "não é por acaso que as candidaturas ouvem os eleitores quando já têm os programas feitos e não tornam a ouvi-los depois de conquistarem o poder".

"Ainda se ao menos cumprissem esses programas...", comenta Gustavo, que trabalha precisamente numa ferramenta de "participação cívica".

Enquanto outros desenhavam a aplicação com a tal rede de cafés onde nas horas de menos afluência as pessoas podem usar a Internet com um consumo mínimo (http://cafewifi.improvecoimbra.org), Gustavo dedicou-se ao projecto No Meu Bairro, uma aplicação lançada com o apoio da Câmara Municipal de Coimbra, através da qual os munícipes podem registar os problemas que querem ver resolvidos (http://www.nomeubairro.pt) e remeter a queixa directamente para a autarquia.

A maior parte dos elementos do Improve Coimbra é da área da informática, embora haja excepções, como Inês Frade, de engenharia civil, que constrói e propõe "percursos cicláveis" (http://pedal.madeincoimbra.org/) numa cidade pouco amigável para os amantes das bicicletas. "Precisamos de gente de outras áreas, mas já vão aparecendo pessoas de arquitectura, de economia, de engenharia civil...", enumerou ontem Sérgio Santos, quando acabou a reunião que abriu o 7.º encontro do movimento, que decorre este fim-de-semana.

Isto é empreendedorismo

A trabalhar na sua própria empresa, uma start-up na área da informática, Sérgio é um dos fundadores do Improve Coimbra (https://www.facebook.com/ImproveCoimbra) e de outras organizações que promovem o trabalho colaborativo. Frisa que "se o Improve está ligado a alguma coisa, não é tanto ao associativismo, mas ao empreendedorismo", e diz que "daí vem o sentido prático de muitas das iniciativas".

Ontem, a visita ao mercado municipal, por exemplo, permitiu alimentar a página que promove aquele espaço (http://mercado.improvecoimbra.org/), mas também estudar as condições para ali dinamizar eventos e fazer negócios alternativos. Sérgio diz não ter dúvidas de que os cidadãos estão abertos a novidades, como o gerente do Café Santa Cruz, Nuno Miranda, que não teme ver o espaço invadido por estudantes sem poder de compra. "Hoje em dia, a Internet gratuita é indispensável e a divulgação é uma mais-valia", comentou, depois de colar na porta o autocolante do Improve Coimbra.

Sugerir correcção