Almada, uns olhos à beira-rio

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A partir de 3 de Setembro recomeçam as visitas guiadas à Lisboa de Almada inseridas nas comemorações dos 120 anos do nascimento do artista. Ver mais em: [email protected]ã: 218170742, Tarde: 218170593 João Catarino Ilustração

Cento de vinte anos depois do nascimento de Almada Negreiros, é tempo de redescobrir a cidade através das obras que ele pintou e gravou em pedras e em vidros.

É bom quando um artista nos obriga a andar pela cidade. Com Almada Negreiros é assim. Se queremos ver os desenhos que deixou gravados ou pintados em várias paredes e vitrais temos que percorrer Lisboa, da Cidade Universitária à Gare Marítima de Alcântara ou à da Rocha Conde de Óbidos.

Agora que se celebram 120 anos do seu nascimento apareceram uns olhos à beira-rio. Ali no final (ou no início) da Ribeira das Naus, junto à esplanada, erguem-se contra o céu duas sobrancelhas e dois olhos: Reminiscência, escultura a partir da Auto-Reminiscência, do próprio Almada.

Mesmo gravadas ou pintadas em pedra, houve coisas que se perderam: uns frescos nos Correios de Aveiro mal-amados e que acabam por ser destruídos depois de durante um período terem sido escondidos, um mural que existiu na estação dos correios dos Restauradores, em Lisboa, e que foi sacrificado numa remodelação, uns painéis para a Pastelaria Suíça, no Rossio, conta Joaquim Vieira na Fotobiografia de Almada.

Com outros cruzamo-nos milhares de vezes. A empena lateral do edifício do Diário de Notícias, com vários jornais sobrepostos, é um trabalho de Almada, visível por quem vier do lado do Marquês de Pombal. Mas é preciso entrar no jornal para ver o imenso planisfério (são 54 metros quadrados), onde Neptuno, ninfas, animais, plantas e os signos do Zodíaco se encontram, e, ao lado, o mapa de Portugal e as quatro estações.

Não muito longe dali, na Avenida de Berna, estão os vitrais que Almada fez, numa das várias colaborações com o arquitecto Pardal Monteiro. "Fui educado pelos jesuítas, de modo que estava mais ou menos informado", terá dito sobre as eventuais dificuldades de tratar um tema religioso. Mais à frente, o universo da abstracção e da geometria no painel em pedra gravada Começar, de 1968-69, no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian. Também em pedra incisa, a representação dos homens do Conhecimento, das suas leis e fábulas, nas paredes das Faculdades e da Reitoria da Cidade Universitária, no Campo Grande.

E depois, por Lisboa fora, até junto ao Tejo e às duas gares marítimas. Na fotobiografia, Joaquim Vieira chama "odisseia à beira-rio" ao trabalho gigantesco que foi a pintura dos frescos, cinco anos ao todo, à beira-Tejo - as fotos mostram Almada a desenhar no chão, de gatas, sobre enormes folhas de papel, que era depois perfurado ao longo das linhas desenhadas e passado para a parede.

Em Alcântara, um marinheiro e a namorada, um piquenique à sombra de uma árvore, D. Fuas Roupinho salvo à beira do abismo, a Sé de Lisboa ao fundo, e as peixeiras em primeiro plano, o aqueduto e os barcos no Tejo, e a Nau Catrineta "que tem muito que contar". Na Rocha Conde de Óbidos, um desenho de linhas mais cubistas, com a modernidade do mundo industrial a romper por entre a mesma vida bucólica da beira-rio.

Pena é que já não se possa ver a casa do nº 28 da Rua da Alcolena, no Restelo, que foi, toda ela, concebida como uma obra de arte completa, projecto do arquitecto António Varela com azulejos e vitrais de Almada Negreiros. Foi para essa casa que Almada fez o belíssimo vitral Eros e Psique - a investigadora Barbara Aniello dedicou-lhe há poucos anos um estudo em que defende que a moradia "constitui um dos mais raros e belos exemplos do diálogo inter-artes em Portugal no século XX", sendo, no seu conjunto, uma metáfora desse mito de Psique representado no vitral de Almada. Mas a moradia foi comprada, sofreu obras profundas, e é hoje outra.

Há, contudo, de Almada trabalhos que nos chegam para um dia inteiro de passeio pela cidade (e tantas outras coisas, dos textos ao teatro, aos cartazes, às ilustrações). E há agora aqueles olhos à beira-rio, esse rosto que ele próprio tantas vezes representou, com os enormes olhos por baixo das espessas sobrancelhas e que aqui é totalmente engolido por esses olhos, transformando-se em duas bolas e duas meias luas cheias de expressividade.

"Olha, aquele é o Almada Negreiros", diz uma avó a uma menina de vestido às bolinhas que passeia na Ribeira das Naus. A menina, talvez de uns sete ou oito anos, provavelmente não sabe nada sobre esse homem que nasceu há 120, mas olha para os dois olhos e as linhas rectas que deles saem, e talvez se interrogue se é de riso ou espanto, ironia ou mágoa, zanga ou sabedoria, esse olhar que nos interpela, logo antes do céu e do mar.