Quem é o maior artista britânico? Hockney? Não. "É Bridget Riley. E não vamos esquecer Paula Rego"

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Para o crítico do Guardian, Paula Rego é um dos artistas vivos mais importantes do Reino Unido ENRIC VIVES-RUBIO

São ainda muito poucas, em comparação com o sexo oposto, as mulheres presentes nas grandes colecções dos museus

É a velha questão da desvalorização das mulheres no mundo das artes. Ou como é que nunca uma mulher foi considerada a maior artista. O assunto não é novo, mas uma recente visita de férias a Roma do crítico de arte do The Guardian, Jonathan Jones, voltou a trazer a questão para o centro do debate.

"Fui a Roma nas minhas férias. Fartei-me de ver pinturas, frescos e estátuas, desde os antigos mosaicos romanos aos nus de Canova. Nenhumas destas grandes obras de arte de séculos passados estão creditadas a mulheres", escreveu o crítico na sua coluna semanal, concluindo desde logo que a ausência de nomes femininos não significa que estes não tenham existido "antes dos tempos modernos", referindo o exemplo da artista barroca Artemisia Gentileschi (1593-1656).

Jonathan Jones continua a sua reflexão, escrevendo que se antigamente a sociedade mantinha as mulheres longe das artes, hoje continuam ainda a existir "telhados de vidro no que diz respeito ao reconhecimento". "As mulheres já não estão impedidas pelo sistema de se tornarem artistas. Mas a elas são-lhes constantemente negados os elogios finais da fama e do respeito."

O crítico do jornal britânico questiona-se ainda sobre quem é o artista vivo mais importante do Reino Unido, escrevendo que o nome que mais depressa surge, e o que a maioria das pessoas diria, é David Hockney quando os mais importantes são mulheres, garante. "É Bridget Riley. E não vamos esquecer Paula Rego", diz Jones, lembrando também os nomes de Rachel Witheread, Sarah Lucas e Tacita Dean.

"Todas estas mulheres têm reconhecimento, mas não o suficiente, nem o tipo certo. O sentido de grandeza é ainda profundamente patriarcal", defende o britânico, para quem os críticos de arte, como ele, têm a responsabilidade de mudar a mentalidade, não procurando "uma imagem de autoridade em nomes e caras masculinas".

Este é o tema de estudo de Gemma Rolls-Bentley, uma curadora independente britânica, que há pouco tempo se debruçou no top dos 100 artistas que mais venderam em 2012 e percebeu que nesta centena não surge uma única mulher. Num estudo mais aprofundado, Rolls-Bentley chegou à conclusão de que, por exemplo, na Tate Modern, 83% dos artistas representados são homens. Destaque aqui para a portuguesa Helena Almeida que surge na lista feminina da colecção da Tate.

E o seu estudo vai mais longe: estima-se que apenas cerca de 5% do trabalho apresentado nas principais colecções permanentes de todo o mundo é de mulheres. O colectivo feminista americano radical conhecido como Guerrilla Girls alertou para isto já em 2006 ao divulgar cartazes a perguntar por que é que a mulher tem de se despir para entrar na iconografia dos museus. Outro cartaz registava a evolução da percentagem de mulheres artistas na Bienal de Veneza, desde a primeira edição em 1895 (2,4%) até cem anos depois (9%).

Apesar das críticas, em Maio, ao The Guardian, Rolls-Bentley reconheceu que a situação está a mudar, exemplificando com o aumento das exposições a solo de mulheres na feira de arte contemporânea de Londres, a Frieze Art Fair, entre 2008 (11,6%) e o ano passado (23,3%).

Para Robert Rosenblum, professor na New York University e curador do Guggenheim, o facto de as mulheres não aparecerem na lista dos melhores de sempre ou dos mais rentáveis "é porque nenhuma delas é tão distinta como Picasso foi, ou como Cézanne foi", defendeu em Janeiro no site ARTnews.

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