Torne-se perito

A conselheira do Papa que falava de mais no Twitter

Francesca Chaoqui criticava o secretário de Estado Bertone. Agora é um dos sábios de Francisco e é alvo de polémica

Francesca Chaouqui, numa imagem tirada do Facebook
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Francesca Chaouqui, numa imagem tirada do Facebook DR

Na comissão de oito sábios nomeada em Julho pelo Papa Francisco para limpar a estrutura económica e administrativa do Vaticano há apenas um italiano. Na verdade, uma italiana, uma jovem leiga de 30 anos, especialista em relações públicas e ligada à Opus Dei, bonita e, surpreendentemente, com um historial de declarações bombásticas no Twitter sobre a política do Vaticano, até sobre o próprio secretário de Estado, que estão a causar escândalo na Santa Sé.

Quando foi nomeada, Francesca Immacolata Chaouqui expressou a sua alegria no Twitter: “O meu coração, a minha fé, o meu empenho, o meu profissionalismo estão ao serviço da Igreja e do Santo Padre, sempre”. Esta calabresa de origem marroquina, que trabalha na Ernst & Young e está bem colocada na chamada “Roma que conta” — tem ligações ao Vedró, o think tank a que pertencem o primeiro-ministro Enrico Letta e seis outros ministros.

Mas tem pelo menos um ano e meio de intervenções no Twitter sobre a política do Vaticano no mínimo polémicos e que os jornalistas italianos logo trataram de espreitar. A sua conta no Twitter foi entretanto encerrada, mas o Corriere della Sera guardou alguns comentários.

A 1 de Março de 2012 não hesitava em chamar “corrupto” ao cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de Estado do Vaticano. Aliás, Bertone é um tema recorrente. “Creio na Igreja: una, santa, católica e apostólica. Talvez alguém devesse recordá-lo a Bertone”, escreveu. Quando o Papa abdicou, a 11 de Março deste ano, comentou: “Ganhou Bertone. Estava certa de que não o faria, mas deitou a toalha ao chão. Como crente estou simplesmente decepcionada.” Sobre Bento XVI, pouco tempo antes, dissera que tinha leucemia.

A 29 de Fevereiro de 2012, Chaouqui afirmou ainda que Giullio Tremonti, ex-ministro das Finanças, era gay — algo que, segundo o Corriere della Sera, lhe pode vir a custar um processo judicial, embora ela diga que não foi a autora daquelas palavras, que outras pessoas tinham acesso à sua conta de Twitter.

Outro comentário problemático face à sua actual posição é o que fez sobre Gianluigi Nuzzi, o jornalista que publicou em livro os documentos roubados a Bento XVI pelo seu mordomo Paolo Gabriele. “Ainda bem que existes. Bravo, isto é o que se chama fazer boa informação. Orgulhosa de ti”, escreveu quando ele lançou o livro Sua Santidade.

Visto isto, terá sido sensato da parte do Papa Francisco nomear esta conselheira? Uma sondagem online do Corriere sobre os comentários de Francesca Chaouqui revela que 50% dos leitores se sentem “indignados” com as suas palavras.

Mas na verdade o mais provável é que o Papa argentino não soubesse dos tweets desabridos desta leiga, diz Sandro Magister, analista da Santa Sé que revelou na revista L’Espresso que monsenhor Battista Ricca, escolhido por Francisco para o representar no banco do Vaticano, manteve relações homossexuais quando era núncio papal em Montevidéu. “O Papa negou saber disso. Disse que no dossier que lhe deram sobre Ricca não estavam essas informações. Mas não as desmentiu. É um exemplo de manual sobre como actuam os lobbies do Vaticano: ocultam informações para pôr em xeque os do lado oposto”, comentou Magister ao El País.

Nuzzi, o jornalista que publicou os documentos desviados pelo mordomo de Bento XVI, defendeu a mesma ideia no Sunday Times: “Os próximos de Bertone estão a usar Francesca como ferramenta para defender os seus próprios interesses. A cúria está a ver que o Papa a exclui da tomada de decisões e não está a gostar.”

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