Portugal prepara "feixe de medidas" para combater o MRSA

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As infecções hospitalares são um problema de saúde pública PEDRO INACIO

Coordenador do programa de Controlo de Infecção diz que o combate a este problema é prioritário

O estafiloco áureo multirresistente (MRSA) é a principal causa de infecções associadas aos cuidados de saúde em todo o mundo. Mas em Portugal "é um problema com uma expressão hipersignificativa, é endémico", sublinha José Artur Paiva, coordenador do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infecção e de Resistência Antimicrobiana, que não poupa palavras para destacar a gravidade da situação nacional.

"É uma bactéria perigosa que causa doença grave e pode matar. Desde há anos que temos uma taxa tendencialmente crescente e a situação é facilmente melhorável", acentua o médico, que está a preparar um "feixe de medidas" direccionadas especificamente para o combate a este problema. São medidas "muito ligadas à higiene e detecção precoce de doentes portadores da bactéria", explica.

Nos Estados Unidos estima-se que o MRSA provoque 94 mil infecções e mais de 18 mil mortes por ano. Na União Europeia, calcula-se que cause mais de 150 mil infecções em cada ano. Em Portugal não há dados sobre mortalidade, nem isso seria relevante, defende José Artur Paiva, para quem o mais importante é quebrar o "ciclo vicioso" instalado. "Quando as bactérias são resistentes usa-se antibióticos [de espectro] mais largo, as bactérias criam mais resistência, começa o ciclo vicioso", lamenta.

No último estudo do Centro Europeu para o Controlo das Doenças (ECDC, na sigla em inglês), que incluiu os resultados de um inquérito de prevalência de infecção nosocomial (hospitalar) efectuado em 2012 em 1149 hospitais - e que é uma espécie de fotografia da situação observada nos dias em que o inquérito foi realizado -, Portugal surge a vermelho, a par da Itália, Chipre e Roménia, no mapa da MRSA.

Em Portugal, o microrganismo mais isolado foi o estafilococo (18% do total) e, nos microrganismos isolados com resistência conhecida, 73,7% eram multirresistentes. Uma proporção substancialmente superior à da média encontrada no estudo do ECDC (41,2/%).

Os dados do Sistema Europeu de Vigilância da Resistência aos Antimicrobianos (EARS), um sistema de monitorização permanente, também têm colocado Portugal sistematicamente entre os países com os valores mais elevados de MRSA, ainda que a proporção encontrada seja mais baixa (52% dos estafilococos são resistentes).

O objectivo dos responsáveis portugueses é, agora, reduzir em 10% este valor, ao longo dos próximos dois anos, para uma proporção da ordem dos 40%, semelhante à da média europeia. Será possível? José Artur Paiva acredita que sim e defende que até não será difícil, dando o exemplo de países como os escandinavos e a Holanda.

"As resistências devem-se sobretudo a dois factores - o uso indevido de antibióticos e a deficiente higiene global. Se melhorarmos muito a higiene [o que passa por medidas tão simples como lavar correctamente as mãos e usar luvas, entre outras], melhoraremos muito o combate a este problema", acredita o médico. Também será determinante a detecção precoce dos doentes à entrada dos hospitais (serão seleccionados os de maior risco) para protecção de outros pacientes, através de medidas de isolamento.

Um em dez contrai infecção

No quadro da infecção hospitalar global, Portugal também está colocado nas piores posições no último estudo do ECDC, com uma taxa de prevalência observada da ordem dos 10,6%. Isto significa que um em cada dez doentes contraiu uma infecção nas unidades de saúde, quando a taxa global de prevalência de infecções hospitalares era de 6,1%, na média.

Olhando para os números de inquéritos anteriores feitos em Portugal (taxa de infecção hospitalar de 8,4%, em 2003, e de 9,8%, em 2009), parece que a situação está a piorar, mas José Artur Paiva sustenta que os números se têm mantido relativamente estáveis nos últimos anos e lembra que os hospitais atendem "pessoas cada vez mais idosas, frágeis e imunodeprimidas".

Além de ser um dos países da União Europeia com maior taxa de prevalência de infecções adquiridas em meio hospitalar, Portugal está também no grupo daqueles onde a resistência a antibióticos mais tem aumentado. Por isso é que, em Fevereiro, o Governo atribuiu o estatuto de programa nacional prioritário ao combate às infecções e às resistências aos antibióticos.