O caminho de um fadista

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Cumpridos 50 anos de carreira de Carlos do Carmo, um programa especial de reedições reúne toda a sua obra gravada: ao todo, 16 discos DANIEL ROCHA

Uma tarde inteira a ouvir o que andou a gravar nos últimos 50 anos: Carlos do Carmo não aprecia especialmente o exercício, mas admite que há coisas que só se vêem quando se olha para trás. "A minha discografia é uma exploração do caminho errado que um fadista pode levar."

Carlos do Carmo não tem por hábito reouvir os seus discos - o decano dos fadistas prefere concentrar-se no que vai fazer a seguir, e terá sido essa fixação com o futuro que lhe permitiu guindar a carreira à bonita idade de 50 anos que agora atinge. Datas tão redondas não passam incólumes e esta é assinalada com uma reedição de 16 discos de estúdio - Carlos do Carmo 50 Anos - que, não sendo uma integral da obra de Carlos do Carmo, se aproxima bastante desse fito. E foram exactamente esses 16 discos que pusemos a tocar na aparelhagem do fadista, pedindo-lhe que comentasse.

A ideia não era falar apenas dos discos mais importantes - aliás, Carlos do Carmo tem a (correcta) impressão de ser hoje visto quase exclusivamente como o autor de Um Homem na Cidade, o que (dizemos nós) é extremamente redutor - nem ouvir e comentar tudo (seria impossível). Era iluminar o que ficou escurecido pelo tempo, ir aos altos, aos baixos e aos discos que ficaram numa terra de ninguém. Como Mais do que Amor é Amar, de 1986, por onde começámos.

Talvez nunca tenha havido um baixo tão baixo na carreira de Carmo como aquele em que caiu - ou o fizeram cair - nesse ano. Quando falamos em baixo não nos referimos à qualidade do disco, que está muito longe de ser fraco (antes pelo contrário, é uma das revelações destas reedições), mas ao opróbrio a que foi votado. "Não me recordo de ter ouvido uma única faixa deste disco passar na rádio", recorda Carlos do Carmo. Razões políticas levaram a que passasse "cinco anos sem aparecer na RTP". Foi a época mais amarga da sua carreira, aquela em que pagou o preço de ser considerado demasiado à esquerda pelos partidos do centro que já então alternavam na liderança do país. Ainda assim, não se deixou abater: redefiniu as prioridades para o exterior e em 1990 "estava a esgotar o Olympia pela primeira vez".

O afastamento mediático surgiu numa altura conturbada em termos pessoais: Mais do que Amor é Amar é um disco muito importante porque foi feito "na ressaca do desaparecimento do [José Carlos] Ary [dos Santos]", com quem o fadista colaborava há muito - dois anos antes tinham criado, juntos, Um Homem na Cidade. É por isso um daqueles discos que só tem a ganhar com esta reedição, que poderá trazer alguma da visibilidade que nunca teve a um objecto inovador: "Estive fechado em casa durante meses [após a morte de Ary] e depois, com a ajuda dos editores, juntei pilhas de livros de poesia. Ocorreu-me cantar fados tradicionais mas procurando poetas eruditos que recorressem a uma linguagem acessível." Pessoa, Bocage, Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes, "nenhum deles tinha sido cantado antes". Na altura não ocorria a ninguém juntar baixa e alta cultura desta forma. Na altura, aliás, o fado ainda era baixa cultura e coisa de fascistas. Valha a verdade, e apesar da sua imagem conciliadora, Carlos do Carmos sempre arriscou, sempre esteve à vontade com misturas e miscigenações. Desde o início, no final da década de 1960, quando, cumprindo os ditames da época, lançava singles mas não LP (os LP, explica, "eram quase exclusivamente colectâneas de singles de sucesso"), namoriscou tanto o fado como a canção e, claro, atreveu-se ao fado-canção.

O disco mais antigo que pusemos na aparelhagem, Carlos do Carmo, remonta a 1970 e traz a marca dessas aventuras: à viola e à guitarra portuguesa sobrepõem-se as cordas e os sopros da Orquestra Sinfónica de Lisboa. O cantor recorda, com humor, como eram esses tempos: "Os músicos eram contratados um a um porque eram exclusivos da Orquestra e não ficava bem que a Orquestra fosse contratada na íntegra para um disco de fado." Tem muito orgulho da versão da Gaivota que aqui faz, e tem razões para ter orgulho do resto, porque da composição à interpretação, passando pelos arranjos, é tudo exímio. E já então o fado-canção assentava como uma luva na sua dicção e no seu timbre.

Carlos do Carmo já era então uma estrela, mas era, também, "um miúdo que estava a aprender com os mestres guitarristas" e com os seus fadistas de eleição. "Quando o Marceneiro ouviu pela primeira vez um fado dele cantado por mim com orquestra disse: "Olha, rapaz, gostei e se calhar gravo um dia destes com uma cortina de violinos." Os genuínos, os melhores não tinham a mania de ser puristas, gostavam do som que gostavam, não tinham problemas com novidades."

Um miúdo atrevido

Dois anos depois desse álbum lindíssimo, vem outro disco com orquestra, Canoas do Tejo - e temos a certeza de que se os leitores escutassem esta peça tremenda (que ecoa Sinatra mas também Scott Walker) deixariam de ver Carlos do Carmo como fadista de um disco só. Canoas do Tejo tem orquestrações de Dennis Farnon, "um americano que casou com uma portuguesa e ficou por cá". "Na maior parte do disco", diz Carmo, "há uma dose razoável de loucura: faz-se música porque se a ouve na cabeça e quer-se fazê-la."

Por esta altura já Carlos do Carmo era um fadista contra os clichés do fado (o destino pequenino, etc), um fadista que cantava canções para Dizer que sim à vida; fazia digressões com um quinteto de piano, flauta, baixo, bateria e guitarra eléctrica. "Primeiro fazíamos canções, depois entravam o meu viola e o meu guitarra portuguesa", conta antes de resumir numa frase a sua obra: "A minha discografia é uma exploração do caminho errado que um fadista pode levar." Um exemplo disso é a sua associação em concerto com o contrabaixista Carlos Bica. "Ele vivia em Berlim e metia-se no seu [Citröen] 2 CV, atava o contrabaixo ao tejadilho e vinha ter connosco. O que se dizia só por eu tocar com ele... Hoje toda a gente no fado toca com contrabaixista."

Mas isso foi no final dos anos 1970. Em 1973 saiu um dos discos preferidos de Carlos do Carmo, Por Morrer Uma Andorinha. Um dos temas, Fica-te mesmo a matar, é elucidativo do que seria Carlos do Carmo ao vivo nessa época, já que a faixa foi gravada num estúdio móvel instalado na cave do Faia, o restaurante da mãe, onde Carlos começou a cantar. "A cantar para a geração da minha mãe", precisa, antes de dizer que o que se ouvia nesse disco era "um miúdo atrevido". "Durante anos os velhotes diziam-me que gostavam de me ouvir mas que a minha mãe é que era. Cantei numa época em que a geração de ouro estava toda em actividade. Tive de esperar para conquistar o meu espaço." Continua: "Estava condicionado aos autores que queriam escrever para mim. Até que o Britinho veio ter comigo e me disse que ia começar a compor para mim, porque gostava dos meus graves". Reouvindo Fica-te mesmo a matar, em que a dicção (apesar do som) é tão clara, Carlos do Carmo explica que quando se canta um fado "está-se a contar uma história": "Se as palavras não se ouvem, que história se está a contar?"

"Esse é um grande disco", diz então, olhando para a capa que seguramos. É Uma Canção Para a Europa, um dos álbuns que - com razão - acha desmerecidos. "É composto por oito temas escritos para a Eurovisão. Nesse ano resolveram fazer como a BBC: escolhiam um intérprete que cantava as canções todas. E Tem a Lisboa, menina e moça, que era uma grande melodia com uma letra fraca. Eu repesquei-a e refizeram a letra."

Honestidade

Pouco tempo depois do festival, Ary dos Santos contactou-o para fazerem um disco sobre Lisboa - que acabou por ser Um Homem na Cidade, álbum cujos autores "eram virgens em fado". A abertura, homónima, "é a primeira aventura do José Tinoco no fado"; o Cacilheiro "era uma bossa-nova".

A ideia de Ary era fazer uma trilogia: um disco sobre a cidade, outro sobre o país e um terceiro sobre o mundo. Fizeram um e meio; Um Homem no País foi escrito "já com o Ary muito doente" e o tomo relativo ao mundo nunca foi feito. "O Ary bebia uma garrafa de gin por dia; um dia teria de rebentar."

Ainda assim, Um Homem no País merecia mais amor. Carlos do Carmo gosta muito do disco, e basta ouvir Fado da amendoeira para perceber porquê. Ainda assim reconhece "que, face ao seu predecessor, é mais datado": "Tem o travo amargo do desencanto com o 25 de Abril."

Anos antes, em 1980, fizera um dos seus discos de eleição - e é impressionante como, ouvindo atentamente, Carmo do Carmo tem quatro, cinco discos tremendos e não apenas um. Álbum contém "a única faixa" que Carmo cantou sobre o 25 de Abril, O madrugar de um sonho. "Foi escrito pelo Britinho", faz notar, e pausa para explicar que nessa altura Britinho já tinha 80 anos e ainda era capaz de escrever uma canção assim. Com Ary, que define como um homem de grande generosidade, foi um dos seus grandes cúmplices: "O Britinho foi o homem que mais me ensinou sobre fado. Contou-me muitas histórias. Nasceu no final do século XIX e tratava-me por "meu rapaz". Trazia-me sempre vinho branco feito por ele. Olhe uma história engraçada: o Teixeira de Pascoaes prefaciou o livro de poemas dele, Roseira Brava."

Todo o disco é marcado pela ideia de liberdade e está pejado de arranjos curiosos, seja de flauta ou de acordeão, já para não mencionar a ocasional orquestra. Um achado. "Posso ter um disco ou um concerto menos conseguidos, mas na minha obra não há desonestidade", diz Carlos do Carmo quando já ouvimos quase tudo. "Não há desonestidade e assumo tudo o que fiz, não pretendo esconder nada." Não esconde, por exemplo, que Álbum foi "pessimamente recebido", uma raridade na sua carreira. Ainda assim, Retalhos acabaria incluído em Retalhos da Vida de Um Médico, a série de televisão.

Durante a sua travessia do deserto da década de 1980, Carlos do Carmo começou a cantar cada vez mais lá fora - de resto, fazia-o "desde 1967". "Os emigrantes não eram propensos a grandes aventuras musicais. No entanto, os anos passavam e eles voltavam aos concertos e os miúdos cresciam e vinham com os seus filhos. Habituei-os à minha maneira de fazer fado", diz. Como resultado, sempre foi imune às variações do mercado português e, apesar de não ter gravado muito em estúdio, pôde fazer o que quis.

Quando a década acaba, em 1990, faz Que Se Fez Homem de Cantar, do qual destaca Sonata de Outono, as últimas palavras que Ary escreveu. Daí para cá guarda sobretudo dois discos: o que fez a meias com Bernardo Sassetti, de 2010, e Margens, de 1996, escrito por José Luís Tinoco, que sofre de ter cordas sintetizadas onde uma orquestra se impunha.

"As pessoas escolheram assinalar Um Homem na Cidade como superior, e eu aceito isso, mas você reouça o Canção Para a Europa ou o Mais do que Amor, só lhe peço que ouça esses dois", pede-nos Carlos do Carmo no final do exercício de voltar a ouvir-se, que não aprecia sobremaneira. É água dura em pedra mole: concordamos por completo com ele. Agora resta que o leitor pegue nesses discos. Não custa nada: além de estarem no novo volume de reedições a preço de amigo, também estão no Spotify.