Estafilococo multirresistente saltou das vacas para o homem há 40 anos

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A bactéria Staphylococcus aureus (a amarelo) ganhou resistência aos antibióticos rapidamente, logo a seguir ao momento em que começaram a ser usados, na década de 1940 NIAID

Estudo genético verifica que um dos tipos de estafilococos super-resistentes passou dos bovinos para os humanos e que, já em nós, sofreu transformações. Descoberta mostra complexidade desta infecção

Uma das infecções mais perigosas que se podem apanhar nos hospitais, o estafilococo áureo multirresistente (MRSA, na sigla em inglês), é causada por uma bactéria que adquiriu mudanças que lhe conferem defesas contra a meticilina e a outros antibióticos. Uma das estirpes mais recentes de MRSA, que começa a ser vulgar em países como a Dinamarca, tem origem em gado bovino. Há mais de 40 anos, estas bactérias saltaram das vacas para os humanos, onde depois desenvolveram a resistência que entretanto foi detectada, mostra agora um artigo publicado na revista online e de acesso livre mBio, da Sociedade Americana para a Microbiologia.

"Demonstramos aqui que o gado é um reservatório potencial de bactérias patogénicas capazes de atravessar a barreira das espécies, de se adaptarem ao hospedeiro e de se estabelecerem nas populações humanas", escrevem no artigo os cientistas que levaram a cabo o estudo liderado por Ross Fitzgerald, da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

O Staphylococcus aureus foi identificado na década de 1880. Presente em um quinto da população, a bactéria está normalmente adormecida em zonas do corpo como a pele e o nariz. De vez em quando, pode aproveitar uma ferida para produzir uma infecção que causa um furúnculo ou entrar para as vias respiratórios e provocar uma pneumonia ou ainda chegar mesmo ao sangue, onde há um risco de uma infecção disseminada por vários órgãos. Quando não é tratada, pode matar.

A descoberta da penicilina em 1923 e, depois, de outros antibióticos, começou por se revelar uma boa notícia no combate a esta bactéria. Mas, entre 1940 e 1960, o estafilococo foi ganhando uma série de resistências até que, finalmente em 1961, descobriu-se que a bactéria ficou resistente à meticilina.

Esta adaptação aconteceu graças ao promíscuo universo das bactérias, em que uma célula bacteriana pode ganhar um pedaço de ADN de outra, o que lhe pode conferir algum tipo de vantagem evolutiva. Este processo chama-se transferência lateral. É uma espécie de processo parecido com os organismos transgénicos, mas que ocorre de uma forma natural e fortuita e que pode ser conveniente, ou não, para a própria bactéria.

Neste caso, houve uma bactéria sortuda do Staphylococcus aureus que incorporou no seu único cromossoma um pedaço de ADN estrangeiro de outra bactéria - pensa-se que terá sido de uma espécie que vive em ratos - que continha o gene mecA. Este gene comanda a produção de uma proteína que a torna imune à meticilina e a todo um grande grupo de antibióticos que normalmente impedem as bactérias de produzir a sua parede celular, matando-as.

Esse foi o momento zero do MRSA. Desde essa altura, surgiram várias estirpes diferentes que são resistentes à meticilina: todas essas defesas foram adquiridas através de um processo semelhante. "Com a globalização, o grande problema é pode surgir uma bactéria que adquire resistência e ser, já de si, muito patogénica", explica ao PÚBLICO Constança Pomba, veterinária e investigadora da Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa.

Primeiro, associadas ao contágio nos hospitais e, depois, em comunidades fechadas como escolas, as várias estirpes de MRSA tornaram-se um verdadeiro problema de saúde.

Parte da resolução desse problema passa por compreender como é que estas bactérias viajam na população humana. Ou como é que saltam de uma espécie animal para outra, já que o Staphylococcus aureus predomina noutras espécies de mamíferos, muitas delas em contacto próximo do homem, como as vacas, os cavalos ou os porcos.

No novo trabalho, a equipa de Ross Fitzgerald olhou para um tipo emergente de MRSA que já se espalhou por quatro continentes. E foi analisar amostras de estafilococos presentes em 43 pessoas. Depois, sequenciou o genoma da bactéria em cada amostra para construir uma história desta estirpe emergente.

Os investigadores descobriram que o novo MRSA evoluiu nas vacas e depois passou para os humanos. Essa passagem deu-se em dois saltos distintos. Um terá ocorrido entre 1894 e 1977, e o outro algures entre 1938 e 1966. Na altura que se deu esta passagem, esta estirpe de Staphylococcus aureus ainda não tinha ganho o gene que lhe dá resistência aos antibióticos. Isso aconteceu algum tempo depois, quando já estava no homem.

"Eles provaram que estas estirpes vieram dos bovinos, depois ganharam o gene mecA e, mais tarde, mecanismos que permitem ultrapassar o sistema imunitário humano", explica Constança Pomba.

Este é um dado importante: a proporção esmagadora em Portugal de pessoas infectadas com MRSA surge nos hospitais. Neste contexto, as bactérias atacam as pessoas já de si doentes, com o sistema imunitário debilitado, que, de outro modo, conseguiriam controlar o estafilococo. Não é o caso do novo tipo estudado agora, que até causa doença em pessoas saudáveis e que não estão no hospital.

Outro dado importante é a forma como a nova estirpe apareceu. Em 2012, outro trabalho sobre a infecção, em que a investigadora portuguesa participou, concluía que numa outra estirpe de MRSA o gene mecA tinha surgido no porco. Através de uma análise genética, compreendeu-se que esta estirpe tinha saltado do homem para o porco. Depois, neste animal, a bactéria adquiriu o gene mecA. E, finalmente, voltou a saltar para o homem.

No caso dos bovinos, houve primeiro a passagem da nova estirpe para os humanos e só depois a bactéria ganhou defesas contra os antibióticos. "Temos duas histórias diferentes. Uma no porco, outra na vaca", diz Constança Pomba. Mas porquê? "Se calhar o tipo de sistema produtivo de bovinos e suínos é diferente", sugere a investigadora.

Um artigo de fundo, na revista Nature, analisava o risco nos EUA da passagem de estafilococos das explorações suínas para os humanos e o perigo do uso excessivo de antibióticos nestas explorações como promotor do aparecimento de novas estirpes resistentes. Agora, estas descobertas podem trazer mais elementos para este debate. Mas Constança Pomba refere que em Portugal não há razão para alarme: "Em 2008, 13% dos porcos tinha a bactéria MRSA, mas não se conhecem casos de pessoas infectadas por esta via."