As eleições em Oeiras tornaram-se num "combate moral e não político"

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Moita Flores Promete mudar a governação em Oeiras, até porque recusa gerir "clientelas". Esta atitude, em Santarém, valeu-lhe "anticorpos dentro do PSD". Acredita que o dossierPPP/Oeiras ainda pode levar a mais "dois ou três engavetados"

Francisco Moita Flores, 60 anos, deixou a Câmara de Santarém no final do ano passado e é o candidato do PSD a Oeiras. Um apelo que não conseguiu recusar para um concelho sui generis, com "favelados e cientistas".

Renunciou no ano passado à presidência da Câmara de Santarém. O que é que o levou agora a aceitar o desafio do PSD para Oeiras?

Anunciei que ia sair logo que ganhei as eleições [em 2009]. [Em 2012] Estava a chegar ao fim do mandato, faltava um ano e o próprio PSD estava inquieto com quem seria o meu sucessor. Combinámos afastar-me para que o novo candidato pudesse ganhar força. Tive vários convites e decidi aceitar este, porque trabalhei 20 anos em Oeiras, conheço Oeiras como as minhas mãos.

Está a dizer que teve vários convites do PSD para autarquias? Quais?

Sim, sobretudo de comissões concelhias. Nesta altura não vou dizer por respeito a todos aqueles que se candidataram.

Aceitou Oeiras porquê? Com esta carga litigiosa...

Tinha um sabor acrescentado. Sendo um homem independente, conheço muito bem os movimentos partidários. Era um grande desafio conseguir fazer aqui um aglomerado maior das forças do PSD. As pessoas, que estavam à frente das duas grandes facções que aqui existiam, tiveram a sensatez de perceber que tinha de ser feita essa unidade. Houve franjas que não a aceitaram. Mas no essencial uniu-se um velho partido, que foi o grande partido autárquico em Oeiras. As tropas essenciais estão deste lado agora. O segundo desafio tinha a ver com os meus apelos de cidadania. Sou um homem do 25 de Abril, ainda tenho um pedaço de romantismo nos olhos, ainda acredito que conseguimos fazer coisas que têm a ver com direitos, liberdades e garantias. E aí Oeiras torna-se num combate moral e não político. Esta é uma aventura sobre um concelho sui generis, que tem o melhor aparato de propaganda no país, mas que tem a maior carga de assimetrias que conheço, tem o oito e o 80. Tem os favelados e a melhor concentração de cientistas.

Reconhece obra feita por Isaltino Morais. Quer prosseguir esse trabalho?

Renovação na continuidade é um velho slogan do Marcello Caetano. E o grupo [presidido por Paulo Vistas] que lhe caiu nas mãos o poder, devido à prisão de Isaltino Morais, usa-o até nos outdoors. Aquilo que eu disse é que queria aproveitar o bom trabalho que Isaltino fez no período mais fecundo da vida dele, que foi exactamente quando era militante do PSD, nas décadas de 80 e 90. Este último mandato foi um verdadeiro desastre. E eu percebo, porque Isaltino estava mais preocupado já com problemas da sua vida pessoal do que com a autarquia. E isto descambou. Desde a fuga de empresas até coisas completamente loucas, como é o caso da revisão do PDM, em que querem transformar o concelho todo em solo urbano.

E o que é que vai fazer a essa proposta?

Vai para o lixo. Não faço parte desse grupo, é por isso que não há aqui continuidade.

É isso que quer dizer quando fala em moralizar a relação entre a câmara e os grandes grupos imobiliários?

Quero pôr a câmara ao serviço das pessoas.

E é com o PSD, que esteve sempre de braço dado com Isaltino, que vai conseguir moralizar este concelho?

Há uma parte do PSD que não esteve. Há uma parte que o apoiou para que a câmara fosse governável. E há também uma nova forma de pensar a política aqui. Não aceitaria este combate se não impusesse alguns pressupostos, um deles é o da nossa relação com as pessoas e não com a especulação imobiliária e com grandes grupos financeiros.

Alexandre Luz é director da sua campanha e o número dois da sua candidatura. Foi adjunto de Isaltino e de Paulo Vistas até há pouco tempo.

Afastou-se. Alexandre Luz está afastado da Câmara de Oeiras há muito tempo.

Há quanto tempo?

Há uns três anos, afastou-se logo a seguir a 2009.

Há um conjunto de pessoas do PSD anterior e do Isaltino, Oeiras Mais à Frente (IOMAF) que estão hoje consigo.

Ponho a questão ao contrário. Quem aqui está e quem para aqui veio é gente que era do PSD. É gente que percebeu que esse tipo de caminho, sem Isaltino, é um caminho vazio. Não há finalidade ideológica nem programática. Com Isaltino ainda se percebia uma visão estratégica, agora nada disso existe. A continuidade de que se fala é de coisas translúcidas, não se sabe bem o que é. Não se sabe nada do Vistas, a não ser que usa o cabelo como o Isaltino e fuma charuto como o Isaltino. Não se lhe conhece um pensamento.

Vive unicamente à sombra da herança de Isaltino?

Mais nada. A única coisa que se sabe, que é altamente preocupante, é uma investigação que existe aqui às parcerias público-privadas (PPP).

Já lá vamos. Mas está mesmo convencido que vai conseguir dominar o PSD em Oeiras?

Tenho uma relação com os outros que não é impositiva, que é pelo acordo. Há uma grande vontade das pessoas de mudar. Vemos isso nas nossas iniciativas de campanha, projectámos um jantar para a abertura da nossa campanha para 500 pessoas e apareceram 2000. Aliás, ainda há bem pouco tempo, o PSD fez uma rentrée no Pontal com 2000 pessoas e o PCP vai ultrapassar isso porque tem a festa do Avante. Comigo não está só o PSD, está o MPT e o PPM, como comunistas, como socialistas.

É capaz de apontar nomes de socialistas e comunistas?

O fundador do PS, Edmundo Pedro, por exemplo.

Está na sua comissão de honra?

Irá para a comissão de honra. A lista ainda está a ser feita. É um amplo leque de pessoas que percebe que o que aqui está não é um desafio partidário, mas um outro modo de estar na vida.

Por que é que impugnou a candidatura de Isaltino à Assembleia Municipal?

Não fiz nada. Homens de mão conhecidos, um movimento de altos funcionários da câmara, começaram a urdir há uns meses um Carnaval por causa da minha candidatura...

São militantes do PSD?

Alguns, outros são do PS. Eles querem ganhar na secretaria. E no decurso desse Carnaval montado nos jornais, Isaltino foi preso. E eu pedi ao PSD que perguntasse ao tribunal se isto era possível. Têm feito uma política do insulto e do jogo de baixo. Fico em silêncio, não respondo, os tribunais estão a responder.

Concorda que Isaltino Morais não seja admitido como candidato?

O meu adversário não se chama Isaltino Morais. Eu concordo com a lei, se o tribunal diz que é assim é porque é assim.

Tem fundamento a afirmação de que vetou funcionários da câmara e que são militantes do PSD para as suas listas?

Há uma série de funcionários da câmara que estão nas listas das freguesias, da Assembleia Municipal. Da câmara não sei se está algum... Sabe? Há um tipo que escreve num blogue e que faz a análise das reuniões que eu não tenho. Agora, não tenho quatro funcionários da câmara como cabeças de listas, se olhar para aquela lista é assim...

A lista de Paulo Vistas à câmara municipal?

Sim.

Então como é que vai fazer se for eleito? Vai dar uma vassourada nas direcções municipais?

Não é a primeira vez que sou presidente de câmara. Ganhei a Câmara de Santarém que tinha 30 anos do mesmo partido, cheia de vícios. E toda a gente esperava que chegasse ali e degolasse toda a gente. Não tenho essa visão do mundo. Agora, há um padrão de comportamento que vou exigir, quem não souber cumprir, tenho legitimidade política e democrática para os substituir. É preciso revisitar a Câmara de Oeiras e dar-lhe uma nova governança. Aquilo não é uma empresa em autogestão, é uma instituição de serviço público.

Vai fazer auditorias?

Vamos ver. Herdei uma câmara falida quando estive em Santarém. E fazíamos apostas sobre qual era a dívida da câmara, só soube qual era no dia em que tomei posse e o responsável das finanças me disse.

Que propostas tem para Oeiras? O que é que as distingue?

Em primeiro lugar, o tipo de governação. Ganhei alguns anticorpos dentro do PSD por gerir assim a Câmara de Santarém. Não quero clientelas. Quero reduzir rapidamente o prazo de resposta que a câmara dá nos domínios do urbanismo, fiscalização, taxas. E com a revolução tecnológica que se passa no país, queremos transformar este concelho num concelho wireless. Mas a proposta das propostas dirige-se ao apoio escolar. Vamos fornecer gratuitamente os livros aos nossos putos. Essa é a bandeira principal. O conhecimento tem de ser o verdadeiro upgrade a fazer em Oeiras. Do ponto de vista do acesso aos direitos, não temos uma democracia quando há um puto de um bairro social que tem direito a uma escola podre e outro puto de outro bairro tem escola com ar condicionado. Quero o reforço do apoio aos mais idosos, a requalificação da zona ribeirinha e revisitar a mobilidade e o estacionamento do concelho.

O que é que vai fazer no Taguspark?

O Taguspark vai precisar de uma conversa séria. Neste momento, a câmara perdeu o poder que lá tinha e é preciso parar com a hemorragia de empresas a que temos vindo a assistir.

E o Sistema Automático de Transporte Urbano (SATU)?

Fizemos um inquérito à população por causa do SATU. Ou há fundos comunitários e conseguimos concretizar a obra até ao Cacém ou é um nado-morto. Sei que foram aprovados [pela câmara], neste período pré-eleitoral, dez milhões de euros para o SATU. É uma demagogia igual a uma pastilha elástica, porque ainda não sabemos quais são os critérios dos fundos comunitários. Do ponto de vista da mobilidade, era fundamental se estivesse ligado ao Cacém.

E a AITEC, a agência para a promoção do investimento?

Vai ser totalmente reformada para deixar de ser uma instituição de propaganda.

Há grandes projectos para o Alto da Boa Viagem e para a foz do rio Jamor. Concorda?

Vamos ver. Em 2005, o então movimento [IOMAF] tinha um líder e apresentou um programa com 12 propostas, realizou uma e meia.

Qual?

Sei que a meia é o centro de congressos [que ficou com as obras paradas a meio há dois anos]. Vamos rever projecto a projecto.

Vai reabrir o processo de revisão do PDM?

Claro! E iremos contestar o que estiver aprovado até às últimas consequências. Não podemos permitir que um concelho veja destruída a sua qualidade de vida por causa da veracidade imobiliária. Temos, neste momento, dez mil casas vazias. Esta projecção [da proposta de revisão do PDM actualmente em discussão] atira-nos para 30 mil.

O que é que vai fazer com as parcerias público-privadas da câmara?

Se o relatório do Tribunal de Contas for levado até às últimas consequências, vamos ver o que é que faz o Ministério Público. Mas é uma coisa gravíssima. Não sei se isto não vai acabar com mais dois ou três tipos engavetados...

Por que é que instalou a sua sede de campanha numa zona periférica do concelho, próxima de bairros sociais?

Estou dentro dos bairros sociais há 40 anos. Não os visito em campanhas eleitorais, sei o que é a pobreza. Não ando a fazer exploração e chantagem política. Era a sede de uma empresa falida, tem bom espaço para trabalhar e para estacionar e está à venda, o que permitiu um arrendamento precário.

Estas são as primeiras eleições depois de este Governo ter tomado posse...

Mas eu não tenho nada a ver com este Governo, este Governo tem-me roubado.

Mas este Governo é PSD, partido pelo qual concorre.

Não respondo por aquilo que diz o Passos Coelho. Eu pago por aquilo que eles dizem, a minha reforma já levou três trambiques... Não estou com eles, estou num projecto.

Então podia ter recusado o convite do PSD e concorrido como independente.

O PSD tem a grandeza de aceitar que eu pense de maneira diferente.