Organizadores de marcha contra a Monsanto acusam Facebook de censura

Convocatória para protesto à porta da sede da multinacional, em St. Louis, foi apagada. Justificação: viola as regras da rede social.

A Monsanto é líder mundial na produção de sementes geneticamente modificadas
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A Monsanto é líder mundial na produção de sementes geneticamente modificadas Larry Downing/Reuters

O grupo de activistas que promoveu as manifestações de 25 de Maio contra a Monsanto e a produção de organismos geneticamente modificados (OGM) – que, segundo o próprio grupo, de nome March Against Monsanto, levou dois milhões de pessoas às ruas de 436 cidades, em 52 países – viu a convocatória para um novo protesto ser apagada da sua página no Facebook.

A manifestação global agendada para 12 de Outubro pretende ser ainda mais participada do que a anterior. O EcoWatch, um site de informação ecologista, fala em mais de 600 acções de protesto previstas para todo o mundo, avançando com uma ambiciosa estimativa de participação – 3,6 milhões de pessoas. Uma delas, no entanto, é motivo de atenção particular.

É em St. Louis, no estado norte-americano do Missouri, que a “marcha” terá o seu mais importante protesto – ou, pelo menos, o mais simbólico. É ali que fica a sede da Monsanto, a multinacional que os ecologistas acusam de ser a principal responsável pela proliferação dos OGM e pela condução de uma política comercial e produtiva nefasta para a vida na Terra.

Na segunda-feira, à sensibilidade do protesto em St. Louis o Facebook juntou-lhe controvérsia. A empresa liderada por Mark Zuckerberg decidiu apagar o “evento” que servia de convocatória para os utilizadores daquela rede social, alegando que o conteúdo violava as suas regras.

“Removemos este conteúdo que você publicou ou de que era o administrador porque viola a Declaração de Direitos e Responsabilidades do Facebook”, lê-se na mensagem que os administradores da página do March Against Monsanto naquela rede social recebiam ao tentar aceder ao “evento”. A imagem dessa mensagem foi depois publicada na mesma página e no site do movimento para denunciar o que é tido como um acto de censura.

No ponto 5 da sua Declaração de Direitos e Responsabilidades – o conjunto de regras pelo qual os utilizadores da rede se comprometem a reger –, o Facebook reserva o direito de “remover qualquer conteúdo ou informação”, se considerar “que estes constituem uma violação desta declaração” ou da sua política de utilização de dados.

A convocatória em causa era uma das 80 que a March Against Monsanto tem publicadas na sua página para 12 de Outubro. Mas foi a única apagada. O movimento criou, entretanto, um novo “evento”, onde dá conta de que o primeiro foi apagado, repete o convite à mobilização e estende-se longamente em questões de contexto como a do impacto global dos OGM.

“Marcha connosco para continuarmos a sensibilizar a opinião pública a respeito da agricultura corporativa predatória e das práticas negociais da Monsanto. A Monsanto não está a resolver o problema da fome no mundo. Pelo contrário, está a desviar a atenção das suas verdadeiras causas – pobreza, falta de acesso à comida e, cada vez mais, falta de acesso à terra para a cultivar”, alerta a convocatória da March Against Monsanto.

Novo filme sobre a Monsanto
Além da organização deste protesto, o grupo de activistas está empenhado no financiamento do filme Santo 7.13.15., do realizador Robert Everest, que pretende através de uma ficção científica distópica denunciar o que considera ser os malefícios da acção da Monsanto. No seu argumento, Everest leva a propriedade industrial dos OGM ao limite e aplica-a a seres humanos geneticamente modificados, cuja reprodutibilidade estaria dependente da autorização da empresa que criou a sua sequência genética (o que acontece com as sementes comercializadas pela Monsanto).

A produção de Santo 7.13.15. está dependente da campanha de financiamento colectivo que está a decorrer no site indiegogo até 6 de Setembro. Os cerca de 122 mil dólares conseguidos até ao momento estão, contudo, ainda longe dos 300 mil dólares (quase 225 mil euros, ao câmbio actual) necessários para avançar com o projecto. No vídeo de apresentação da campanha, o realizador sugere que a Monsanto está relacionada com o cancro da mãe.

A concretizar-se, este não será o primeiro filme a ser feito sobre a multinacional que, fundada em 1901, é hoje a líder mundial na produção de sementes geneticamente modificadas. Marie-Monique Robin realizou em 2008 o documentário Le monde selon Monsanto (“O mundo segundo Monsanto”, numa tradução livre), no qual denunciava a política agressiva de expansão da empresa.

Recorde-se que a Monsanto foi recentemente notícia (em Julho) por ter desistido de cultivar novos transgénicos na União Europeia. A multinacional conduzida pelo empresário escocês Hugh Grant anunciou então ter retirado pedidos de autorização de cultivo de organismos geneticamente modificados no espaço comunitário. A Comissão Europeia confirmou.