Rutger Hauer gosta de pôr o dedo na ferida

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Blade Runner - o seu papel mais icónico; A Lenda do Santo Bebedor - filme pelo qual quer ser lembrado; Terror na Auto-Estrada, dança à volta dos botões do medo das pessoas

Rutger Hauer "Sempre a aprender", o actor de Blade Runner esteve em Portugal em visita relâmpago para apresentar o filme português RPG. E falou ao PÚBLICO de uma carreira de actor que surgiu porque queria ser realizador e que acabou por o levar da televisão holandesa a vedeta internacional

"O que há de bom nos papéis pequenos é que podem ir muito longe." Rutger Hauer sabe do que fala: "A participação mais curta que alguma vez fiz foi num filme chamado Nostradamus, em que só tinha minuto e meio de ecrã, e é ridículo que toda a gente me tenha vindo falar dela. Mas também quer dizer que não havia muito mais a dizer do filme..."

O holandês veio a Lisboa fazer "serviço pós-venda" para um desses papéis pequenos - os seus 15 minutos de milionário do futuro em RPG, tentativa de ficção científica made in Portugal co-realizada pelo produtor Tino Navarro e por David Rebordão, autor da curta viral A Curva. Entre dois cigarros ("Fumar é uma estupidez, e eu devo ser estúpido para continuar a fazê-lo!"), um café e um pastel de nata no átrio de um hotel da capital, mantém intacta a intensidade que o celebrizou em Blade Runner, de Ridley Scott, faz agora 30 anos. E aqui não há falinhas mansas - escapa-lhe a boca para o vernáculo várias vezes em meia hora de conversa. Afinal, aos 69 anos, do alto do seu metro e 90, já não tem nada a perder nem a provar: ainda há dois anos, passou do pintor Brueghel em O Moinho e a Cruz, de Lech Majewski, a um vagabundo assassino no grindhouseHobo with a Shotgun, de Jason Eisener.

"O problema", diz-nos, "é que os actores com 70 anos de idade já não têm uma palavra a dizer sobre os filmes. Antes viam-me como um actor de acção, mas não posso continuar a ser um actor de acção porque os ossos já não aguentam." Ri-se, como fará constantemente ao longo de uma conversa que atravessou 40 anos de uma carreira iniciada na televisão holandesa em 1969 sob a direcção de Paul Verhoeven (o autor de Robocop e Instinto Fatal).

Passou toda a sua carreira a atravessar estilos e géneros...

Absolutamente. Tornei-me popular antes de as pessoas se darem conta disso. E acho que foi o facto de ser europeu que me salvou o coiro, porque os americanos nunca souberam o que fazer comigo. E acabei por não escolher muito mal. Quando fiz Os Falcões da Noite [o seu primeiro filme americano, em 1981, com Sylvester Stallone], tinha uma excelente oferta para interpretar um amante francês num filme que me pagava o triplo do que o Stallone me ia pagar. Mas o papel não me parecia tão interessante... Nunca escolhi os papéis a pensar na carreira. Qual é o actor que o faz? Mas o que é que se há-de dizer aos miúdos que estão agora a começar? "Não desistas", "continua a trabalhar", "vê se tens sorte". Mas como é que se tem sorte? Não sei.

Muitas das personagens que fizeram a sua reputação são muito sombrias.

É quase um lugar-comum, mas interpreto pessoas e pouco interessa se são boas ou más. Quando li Terror na Auto-Estrada [Robert Harmon, 1986, onde interpreta um psicopata à boleia pelos EUA], achei que era um guião do caraças, mas sabia que não era um filme sobre um assassino em série. A primeira coisa que o Robert Harmon me deu foi um romance sobre o criminoso americano Ted Bundy e lembro-me de lhe dizer: "Se achas mesmo que isto é o filme, devolvo-to já." O bom nesse filme é que a maior parte dos americanos tem tendência para evitar a escuridão, porque tem medo. E o Harmon não tinha medo nenhum. Para mim, o filme era uma dança à volta dos botões do medo das pessoas e o modo como se carrega neles. Era eu a dizer ao puto: "Não achas que estou a meter o dedo nas tuas feridas? Achas, sim. Não, não achas. Achas, sim." E enquanto actor era isso que estava a fazer ao público.

A tentar que nunca percebessem quando é que lhes ia pôr o dedo na ferida?

Exacto. Era uma espécie de jogo.

O jogo é um conceito recorrente nos seus filmes...

No fundo o que é representar se não um jogo? É isso que a maior parte dos meus colegas, e não só em Hollywood, perdeu de vista. Não consigo pôr a coisa de outra maneira: há demasiada erecção na performance. Não tenho nada contra a erecção, mas estamos ali para fazer um filme, e não quero sentir mais nada que não seja a corrente da narrativa a fazer-me avançar. E isso não tem a ver com as personagens, mas sim com a história. Quero contar tudo o que preciso de contar sobre a história, mais nada. Na minha cabeça, é o público que preenche os espaços em branco. E na minha experiência fá-lo muito bem. Basta dizer-lhes o suficiente.

Isso tem muito a ver com o que o seu compatriota Paul Verhoeven fez ao longo da sua carreira.

É possível...

Trabalharam juntos durante muito tempo, primeiro na Holanda e depois nos EUA. Como era a vossa colaboração?

Sei que o Paul me influenciou muito durante muito tempo. Quando algo corria mal, ele perguntava-me se eu poderia fazê--lo mais depressa. Uma coisa que aprendi com ele é que o tempo do cinema não é o mesmo tempo da vida real. Por qualquer razão, quando se tem uma hora e meia, pode-se contar a história mais depressa. OK, é preciso abrandar de vez em quando, mas o meu objectivo foi sempre acelerar as coisas desde que fosse possível. Vejo outros actores fazerem muitas experiências, o que para um montador é muito bom. Mas de mim um montador não consegue nada; eu vou cortando, cortando, intensificando, e fica só uma noz. É assim que trabalho.

Comprimindo?

Exacto, comprimo tudo. Não sou capaz de fazer o que os outros fazem. Mas isso são eles...

Mas ser um actor exige ser maleável, moldar-se ao que o director pede.

Claro. E não queremos dar-lhe o que ele quer, mas sim mais do que o que ele quer (risos). É isso que é realmente bom, porque ele sabe que o conseguimos fazer, mas não sabe como lá chegar. Isso vem do nosso talento. Não somos donos do talento, mas só nós é que o temos. E usamo-lo, de modo criativo, para atingir algo de que o realizador não está à espera. Blade Runner [1982] foi um passo muito importante a esse nível. Era uma grande produção, foi um filme difícil, mas eu e o Ridley Scott pensávamos da mesma maneira. Ele disse-me: "Dá-me tudo o que conseguires, porque é isso que eu quero neste filme. Toda a gente acha que sou um realizador tecnicista, mas este é um filme de personagens." Eu era o único a entender-me com ele - todos os outros pareciam ter problemas com ele, mas eu não tive nenhuns.

Se tivesse de escolher um papel pelo qual gostaria de ser recordado, qual seria?

Há dois. Um é A Lenda do Santo Bebedor [Ermanno Olmi, 1988, baseado num romance de Joseph Roth]. O Ermanno Olmi é um mestre. É também um cineasta muito honesto; não nos conta histórias, nem nos quer passar a mão pelo pêlo, não está a querer agradar-nos como outros realizadores. Foi uma grande experiência. Mas foi uma grande luta; ele não falava inglês, eu tinha a versão alemã do guião... E ele não gosta de actores porque acha que são todos uns tangas - o que é verdade [risos]. E depois co-realizei uma curta-metragem chamada The Room [2001], que está disponível na Internet - o que é bom, porque gostamos que o nosso trabalho seja visto - e é o mais próximo que se pode estar da pele de um actor dentro de uma personagem. Adoro isso, mas é algo de muito assustador para a maior parte das pessoas, porque nos aproximamos muito de quem somos - mas gosto muito que isso aconteça, porque a história torna-se mais transparente.

Já pensou em realizar uma longa-metragem?

Sim! É o que sempre quis fazer, mas fui-me perdendo a aprender representação, porque achei que não poderia realizar se não soubesse o que um actor faz. Basicamente, os cineastas tentam encontrar respostas para as suas perguntas através do estudo do comportamento, e tenho certeza que os actores também são um pouco assim. Não posso falar pelos outros, claro, mas sei que eu estou sempre de olho nas coisas, a observar. E continuo sempre a aprender. E sei que estou pronto. Já estive muito próximo nove ou dez vezes, mas houve sempre um elemento que caiu por terra - produtores que faliram, outros que me enganaram, outros caíram por causa do ego. Não posso dar--me ao luxo de passar um ano a montar um projecto, pelo que preciso de um produtor que diga: "Sei quem tu és, vamos fazer qualquer coisa juntos"...

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