Farrobodós e briefings

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O espectáculo do briefing deixou de ser essa racionalidade desejada do explicável para ser a amplificação do que se queria evitar e anular

Fala-se muito de défices de comunicação do poder governativo, que não explica bem as coisas, não são dotados para isso - governar seria outro tipo de competência, puro fazer positivo, o que os ocupa totalmente e explicam mal, nem sabem explicar, o que fazem denodadamente, para bem de todos nós que reagimos, com ingratidão, nas sondagens -, se eles percebessem como custa governar....

Quando o micro dos assediadores jornalistas se atira sôfrego a umas palavras do poder, à saída ou entrada de um evento (onde se produz normalmente vento a favor), a figura de poder instada a falar diante do objecto agressor, defendendo-se (por vezes com gorilas), mete as mãos pelos pés e normalmente fala pouco, frase curta, para dentro coisa séria, para fora piada expressiva, respondendo sempre, em que caso seja, de modo assertivo, mais na pose que no tema, mais na autoficção de uma imagem facial que se finge na fotogenia - os primeiros planos abundam - num registo grave, sério, pesado (Passos) ou ligeiro, divertido e patriótico empolado (Portas). Nem Portas, o ex-jornalista, se tem safado da ingratidão maioritária. Anda para aí uma sondagem que lhe dá 3%, e a maior, 8%. É o que vale, qualquer coisa no meio.

Para obviar o mal comunicativo tira--se novo coelho da cartola, briefings regulares: a partir do briefing diário, depois bissemanal, depois conforme for, a opinião pública - nós - aí esclarecida, entenderia que o que parece desgoverno é finalmente governo e tudo não passaria de incompreensão dos destinatários, alimentada, para além do caos instalado e próprio da crise, pelas múltiplas oposições que são hoje muitas mais que as partidárias, começando pelas oposições internas. Será, pensam eles, como ironicamente diz o poema de Brecht sobre a boa propaganda, convencermo-nos que a palavra "carne" alimenta, dita alto, ou que as autoestradas com portagens são óptimas para quem não tem para a gasolina.

Qual o objectivo do briefing: que se perceba como tecnicamente nos estão a salvar, eles são neutros e é a dívida que empurra, a dívida é intrinsecamente uma espécie de força omnipresente do diabo protegida divinamente e portanto sem contraditório - basta explicar tecnicamente, basta a neutralidade de fazer inteligir os mecanismos do ajustamento, nada mais simples. Ora como se faz isso? Apelando à unanimidade, à união nacional, mesmo ao que poderíamos chamar "unicidade nacional". Mas, a partir do momento em que os casos se multiplicam, os casos de casting falhado e eles não param, haverá mais swaps e depois destes outras corrupções emergirão, como é o caso agora do envolvimento de Machete nas acções do BPN (como Cavaco), de repente o espectáculo do briefing deixou de ser essa racionalidade desejada do explicável, por gente que se doutorou a explicar (e andou pelos jornais explicando e até tem dotes explicativos em terrenos dominados) para ser essa caixa de amplificação do que se queria evitar e anular: os casos, um governo de casos, de falhanço de metas, um governo de erros de casting sucessivos por efeito de uma toxicidade ambiente que toca, e forma curricularmente, a casta que instalada no chamado "bloco central" o serve e onde recruta os seus quadros - quanto mais swaps, mais sobes, desde que a tal transparência, nem sempre controlável e por vezes transparente, não faça transparecer e contribua para ocultar o que convém, o que acaba por acontecer, na realidade, objectivamente, sob a forma de uma espécie de despojos de guerra (a tal confusão semelhante a um fim de batalha que não termina), ocupando um tempo e os espaços do nosso espectro áudio-visivo, justamente como efeito de um confronto público interpartidário ou intrapartidário, pois a transparência não é nem o seu objectivo, nem dama de tal tipo de pleito.

Mas há mais: esclarecer hoje em regime de briefing - coisa neutra, técnica, pura ciência comunicativa (o briefing é, em si, a-ideológico, pura operacionalidade) - seria acrescentar uma voz centralizada do Governo às múltiplas vozes dos seus porta-vozes, e eles são mais que muitos, desde os próprios governantes (a maior parte com a sua agenda privada, não propriamente pessoal mas "interessada") aos porta--vozes, aos economistas partidários, aos economistas da mesma receita, aos porta-vozes parlamentares, mais governamentalistas que parlamentares, e a toda uma imensa miríade de pequenas vozes que vão fazendo essa atmosfera generalizada de opinião convergente a favor da teoria da saída única, a que afasta para os lados da "loucura nem mansa" a saída do euro e a renegociação profunda da dívida. Essa saída única, que é uma via única de fazer tudo em todas as áreas pelo critério único do corte, engorda os mesmos com uma distribuição radical de maior miséria também para os mesmos e com menos democracia também para os mesmos - nem todos querem a democracia, os mercados por exemplo e os seus cegos defensores, mesmo os que se dizem liberais. O que é facto é que neste momento temos a democracia refém dos mercados e o que é facto é que jamais lá regressaremos, à democracia que tivemos. O que está aí não é uma suspensão ou um hiato, é um outro regime, uma espécie de ditadura, para já a emergir light, mas a prazo, muito provavelmente dura.

Resultado da política briefinguiana de informação convergente: maior confusão. Mas maior confusão não é um resultado não desejado pelo poder que os governa, a eles governo. Na sociedade do espectáculo a confusão serve a expulsão da possibilidade do raciocínio lógico da razão crítica potencial, esta não tem espaço, não se exerce. A "soma das inteligências" num ambiente de barbárie informativa contribui para o engrossar de uma estupidez que se generaliza como alimento único e em que os actos de inteligência livre de servir interesses económicos são marginais, residuais, como em consequência o espaço de liberdade real do debate de ideias, pelo desaparecimento em si desse espaço e pela falta de qualidade cultural de que entre nós sempre careceu mas que fazia o seu caminho, agora bloqueado pelo mesmismo da ideia única, única ideia, o horizonte da dívida - as outras políticas são danos colaterais, incluindo a morte. É esse o resultado, confusão a acrescer a confusão, e é nas falhas do sistema, nos seus hiatos, nas suas disfunções, que isso se torna claro, como agora.

O próximo briefing, dizem que para Setembro - logo veremos -, será, não se esquecerão e estes jovens explicadores têm explicação para tudo (se assim não for, aqui o pedimos, um briefing pedido como a canção da rádio), sobre Paulo Portas e a sua instalação no Palácio das Laranjeiras. Não só vão explicar bem como é que não saiu de lá nenhum serviço público - estava lá o Arquivo Histórico do Ministério da Educação - depois de anunciado que não deslocariam nenhum serviço, como explicarão que baixos custos foram esses de ao instalar lá o vice-ministro Portas, desinstalando o Arquivo, não foram deitados à rua os custos, significativos, da própria recente - e moderníssima - instalação desse serviço.

O farrobodó não para, a alma do Conde Farrobo habita agora outro corpo, o século XIX está cada vez mais perto.

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