"Eles comem tudo" meio século depois

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Olhamos para o Portugal de hoje e constatamos até que ponto as palavras de Os vampiros se mantêm amargamente actuais

Quando, há meio século, José Afonso gravou, num EP com o selo Rapsódia, a canção Os vampiros, estava longe de imaginar que décadas mais tarde se implantaria a lúgubre mitologia vampiresca que tanto lucro tem dado em livros, filmes e séries de televisão por esse mundo fora. Também não poderia imaginar que a sigla BPN se converteria no sinónimo do mais ignominioso vampirismo financeiro, que obriga um povo inteiro a pagar pelos crimes e abusos de uns poucos, por enquanto escandalosamente impunes.

Os grandes criadores, é sabido, costumam ter a capacidade de antecipar em décadas ou mesmo em séculos aquilo que depois passará a fazer parte da vida e da História, talvez por operarem com um conhecimento profundo e não convencional da natureza e da condição humanas.

Num texto que assinou no PÚBLICO, Nuno Pacheco recordou as circunstâncias em que a canção Os vampiros foi incluída num 45 rotações por minuto que também integrava a célebre Menino do Bairro Negro e trouxe-nos à memória o que Zeca Afonso escreveu sobre Os vampiros, quatro anos mais tarde, na colectânea dos seus textos de canções intitulada Cantares. Era esse livrinho, editado pela Nova Realidade, que Zeca Afonso costumava pousar sobre o joelho, aberto nas páginas certas, para ter presentes os textos que raramente sabia de cor. O de Os vampiros era um deles. Nessa época, muito poucos eram os cantores (sendo eles próprios muito poucos) que sabiam de cor os textos da canções que interpretavam, fossem seus ou de poetas que admiravam, caso de Sophia de Mello Breyner, António Gedeão, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira e outros.

Pode dizer-se, sem pecar por excesso, que Os vampiros é o tema fundador do canto político em Portugal, assumido como instrumento de combate cultural e cívico, em tempo de censura omnipresente e de inexistência das liberdades fundamentais. Daí que Os vampiros figurasse sempre no índex de todas as actuações. Estava lá tudo dito e, por isso, não podia ser dito.

Com o passar dos anos, Zeca Afonso foi dando preferência, nas suas actuações, a outras canções que considerava mais eficazes politicamente, pela veemente denúncia que continham, caso de A Morte saiu à rua, sobre o assassinato de José Dias Coelho, ou de Cantar alentejano, sobre o de Catarina Eufémia em Baleizão, ou ainda mobilizadoras canções de refrão como Venham mais cinco ou O que faz falta. Porém, sempre que lhe pediam que cantasse Os vampiros, ele não se fazia rogado e sabia que muitas vozes se juntavam, num tocante uníssono, para denunciarem: "Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada." E a denúncia mantém-se actual.

Os vampiros foi criada num fase da vida de José Afonso em que as dificuldades materiais eram grandes (quase sempre foram) e em que a sua obra de ruptura com o fado de Coimbra começava a passar de boa em boca, de mão em mão nos círculos mais politizados da população portuguesa. Já com a Guerra Colonial em marcha, o EP que continha Os vampiros também chegou às mãos dos oficiais milicianos e dos oficiais do quadro permanente, contribuindo para que começasse abrir-se caminho para o que viria a ser o 25 de Abril de 1974. E será bom que aqueles que estão agora a escrever a história cultural do 25 de Abril para a comemoração dos 40 anos da Revolução de Abril, em 2014, não esqueçam ou subalternizem, como já antes aconteceu, o papel fundamental e único da canção política. A literatura, o teatro ou o cinema tiveram um papel de relevo, mas foi a canção que uniu as vozes e as vontades e se misturou com o quotidiano dos civis e militares que fizeram a mudança em 1974. A escolha de duas canções-senha pelo MFA na madrugada libertadora confirma amplamente esse papel histórico que não pode ser escamoteado ou desvalorizado.

Olhamos para o Portugal de hoje e constatamos até que ponto as palavras de Os vampiros se mantêm amargamente actuais, como libelo contra a forma como a arrogância do poder financeiro condena à pobreza, à exclusão e à revolta um número crescente de portugueses para quem o direito à indignação é verdadeiramente irrevogável.

Escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores