As ilhas do Porto à espera da segunda vida mas não todas

Foto
Rui Moreira esteve na Bela Vista, ilha camarária onde é possível reabilitar as casasLuís Filipe Menezes visitou o Pego Negro, cujas casas considerou dificilmente recuperáveis Fotos: Nelson Garrido

Os candidatos à Câmara do Porto Luís Filipe Menezes e Rui Moreira dedicaram parte do dia de campanha a ilhas da cidade. Espaços a recuperar, sempre que possível, defendem ambos. E não são os únicos

As ilhas do Porto estão na moda, ou em sério risco de entrar na moda. Em período de pré-campanha eleitoral, é difícil encontrar um candidato que defenda, hoje, a sua destruição pura e simples. Reabilitar, sempre que possível, está na ordem do dia. Demolição só mesmo em casos extremos. Foi isso mesmo que o independente Rui Moreira foi dizer, ontem, aos moradores da ilha da Bela Vista, descrita como "a última ilha municipal" do Porto e perfeita para reabilitar. No Pego Negro, Luís Filipe Menezes disse estar perante um "dos piores casos" de degradação que já encontrou.

Os candidatos Manuel Pizarro (PS) e Pedro Carvalho (CDU) também já haviam defendido a reabilitação das ilhas, sempre que possível. O antropólogo Matos Rodrigues, investigador nesta área, diz que são "mais de mil". A habitação do Porto vai mudar? Ontem, Maria da Conceição Pinto, de 50 anos, a viver na Bela Vista desde que nasceu, ouviu as propostas que Rui Moreira e o académico foram apresentar ao núcleo de casas em granito alinhadas em dois corredores amplos. "Pelo menos, é o primeiro candidato, desde que eu nasci, que vem aqui à ilha", diz.

Moreira e Matos Rodrigues traçaram as linhas da proposta da candidatura independente, apoiada pelo CDS, para as ilhas e que passam pela reabilitação, sempre que possível, e com a participação dos moradores; a revalorização de áreas comuns, com a criação de jardins ou hortas; a manutenção dos moradores nos seus espaços de origem e o retorno dos que desejem voltar, além da cativação de novos habitantes.

Rui Moreira admite mesmo construir novas ilhas no Porto. Construções "a custos controlados" e no centro da cidade - e deu o exemplo da zona da Lapa, onde, diz, ter "o metro à porta" é uma mais-valia para cativar gente. "Admito construir novos bairros com estas características, no centro, onde já existem infra-estruturas, onde há estradas e uma rede de saneamento ao lado", disse.

Quanto ao retorno de antigos moradores, o empresário ressalva que, no caso da ilha da Bela Vista, essa possibilidade só seria aberta a quem necessitasse de habitação social. O que não quer dizer que os interessados tivessem de se enquadrar no actual regulamento de habitação camarário, já que Rui Moreira garante que "irá rever" o documento aprovado este ano pelo executivo de Rui Rio. "Iremos criar um conselho municipal [de habitação] participado, que irá avaliar caso a caso os pedidos de regresso", disse.

À hora a que Moreira falava para os moradores das 12 casas habitadas, entre as 40 do Bairro da Bela Vista, Menezes ainda não tinha chegado ao Pego Negro, em Campanhã. A visita estava marcada para as 18h e o candidato do PSD não se atrasou muito. Menezes não contava, provavelmente, que as primeiras palavras que iria ouvir nesta ilha atípica do Porto fossem de Rosa, do café Tom de Rosa, a dizer-lhe: "A única pessoa que se preocupou com esta área foi o Rui Sá [antigo vereador da CDU]". Mas, antes de Menezes chegar, ela já confessara que "tem fé" no candidato social-democrata.

Menezes percorreu, de rosto fechado, as casas encavalitadas umas nas outras, sem ventilação, áreas exíguas, e algumas sem casa de banho, mas com rendas que ultrapassam, amiúde, os 200 euros. "Já não tenho disto na minha terra", desabafou, referindo-se a Gaia, onde ainda é presidente da câmara, antes de se voltar para João Pinto, o candidato à Junta de Freguesia de Campanhã: "Preste atenção a estes casos".

Ao longe, ouve-se a voz alta de uma mulher: "Toda a gente vem aqui uma vez e nunca mais põe cá os pés". É Mónica Gomes, que, apesar da revolta, abre a porta a Menezes. Ele vê mais esta casa e depois outra e mais outra. "Há ilhas recuperáveis, desde que sejam habitáveis, que tenham condições de salubridade. Aqui dificilmente isso é possível. O mais importante é arranjar casas decentes para esta gente", diz.

O candidato defende ainda que é preciso responsabilizar os senhorios que têm condições para intervir nas casas que possuem, manter os moradores, sempre que possível, nas suas áreas de residência, e rever a lei das rendas, para que esta passe a atender a "fenómenos especiais como o das ilhas do Porto".

Sugerir correcção