Pressão sobre o Guardian partiu de Downing Street

Foi o mais alto funcionário do Governo britânico quem contactou o director do jornal para que destruísse ficheiros entregues por Snowden.

O Guardian teria já feito cópia dos ficheiros que foram destruídos
Foto
O Guardian teria já feito cópia dos ficheiros que foram destruídos Andrew Cowie/AFP

A pressão para que o jornal Guardian destruísse os documentos confidenciais que lhe foram entregues pelo ex-consultor da CIA Edward Snowden partiu do mais alto funcionário do Governo britânico que, segundo a imprensa desta quarta-feira, agiu a mando do primeiro-ministro, David Cameron, e com a anuência do número dois do executivo, Nick Clegg.

Alan Rusbridger, director do Guardian, revelou na segunda-feira que o computador com os ficheiros secretos foi destruído na cave do jornal, a 20 de Julho, sob supervisão de dois agentes da GCHQ (a agência de vigilância britânica), depois de ter sido várias vezes avisado de que teria de entregar ou destruir o material. Rusbridger não identificou o seu interlocutor, dizendo apenas que foi “um alto responsável que afirmava representar a visão do primeiro-ministro”.

Os jornais Daily Mail e Independent asseguram, no entanto, que foi Jeremy Heywood, o mais alto responsável da administração estatal, quem por várias vezes telefonou ao director do Guardian, avisando que o jornal enfrentaria longos processos judiciais se não cedesse.

Fontes do Governo britânico ouvidas pela BBC confirmaram não só a origem da pressão como insistiram que o Governo estaria a “abdicar totalmente das suas responsabilidades” se não agisse perante as revelações feitas pelo diário britânico que, desde Junho, tem vindo a denunciar os programas de vigilância à escala mundial postos em marcha pela Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana, em colaboração com algumas congéneres europeias.

Segundo as mesmas fontes, o Governo britânico temeria que a informação “caísse nas mãos erradas” – uma formulação que tanto poderá assentar a grupos terroristas como a serviços secretos rivais –, pelo que a posse do material nas mãos do jornal representaria uma ameaça para o Reino Unido.

Segundo o Daily Mail, as conversas de Jeremy Heywood com o director do Guardian aconteceram a pedido de David Cameron, mas quer o vice-primeiro-ministro e líder dos liberais-democratas, Nick Clegg, quer o chefe da diplomacia britânica, William Hague, deram o seu aval à missão.

Contactado pelo Independent, um porta-voz de Clegg disse que ele partilhava as preocupações de Cameron sobre os riscos para a segurança nacional, mas considerava preferível convencer o jornal a destruir os discos rígidos onde a informação estava guardada a processar o diário. “Ele quis garantir que o Guardian continuava a ter liberdade para publicar” notícias sobre a NSA, o que continua a ser possível mesmo perante a destruição dos ficheiros, acrescentou o porta-voz.

Apesar de Rusbridger não o mencionar abertamente, tudo indica que existem cópias dos ficheiros destruídos e há informações de que o jornal prepara novos textos sobre o tema, que deverão ser escritos fora do país – Glenn Greenwal, o jornalista do Guardian a quem Snowden passou a informação é norte-americano, e reside actualmente no Brasil.