Situação financeira "alarmante" pode levar ao fecho da Cinemateca em Setembro

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Maria João Seixas é directora da Cinemateca desde 2010 Ricardo Silva

Directora acredita que SEC ainda pode encontrar uma solução, mas admite que este "momento é de grande aflição", sobretudo no ANIM

A Cinemateca corre o risco de suspender as suas actividades a partir de Setembro se não forem resolvidos os problemas de tesouraria que resultam das "quebras substanciais" das receitas sobre a publicidade nos canais televisivos, explicou ontem ao PÚBLICO a directora da instituição, Maria João Seixas.

Segundo a lei em vigor, a taxa de 4% paga pelos anunciantes sobre a publicidade exibida na televisão cria um bolo que depois é aplicado no financiamento do cinema e audiovisual, nas suas mais diversas áreas. A Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, que inclui o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), entidade que reúne o acervo mais valioso do cinema português, recebe 20% desse bolo para financiar as suas actividades. Com as empresas a conterem cada vez mais os seus custos publicitários, esse montante, defende Seixas sem avançar valores muito concretos, tem vindo a decair drasticamente, deixando a casa que dirige numa "situação insustentável".

"Alertámos a tutela para as dificuldades em Abril e sei que o secretário de Estado tem procurado acompanhar todos os esforços, mas também sei que, apesar de muito empenhado, não tem podido ir às Finanças buscar dinheiro", disse ontem a directora, numa breve conversa telefónica.

Os 20% que recebe da taxa sobre a publicidade "tem um peso muitíssimo superior a 50%" no orçamento da Cinemateca, esclarece Seixas. E se em anos anteriores a taxa representava um montante que "ultrapassava em muito os três milhões", este ano estima-se que "não chegue sequer aos dois milhões".

Quando diz que a partir do fim do mês "a Cinemateca não pode avançar" - e no entanto está anunciada para Setembro uma integral do espanhol Victor Erice, que se deslocará a Lisboa (altura em que se encontrará com o português Pedro Costa para o lançamento do livro Casa de Lava - Caderno) -, Maria João Seixas não está apenas a pensar na programação das salas, está particularmente preocupada com a actividade do ANIM: "Uma das nossas missões fundamentais é a preservação do património do cinema - como é que podemos cumpri-la se um cofre avaria e não o podemos mandar arranjar, se uma máquina avaria e não podemos mandar arranjar? Tudo corre o risco de parar."

Desde Abril que resolver os problemas de tesouraria na Cinemateca se tornou urgente. O secretário de Estado Jorge Barreto Xavier interveio para garantir "dotações extraordinárias" do Fundo de Fomento Cultural em Junho e Julho (400 mil euros no total), explicou Seixas, mas a verba de Agosto ainda não chegou e não há quaisquer garantias para os meses seguintes. "Acredito que tudo se pode ainda resolver, mas este momento é de grande aflição."

Seixas aponta as quebras nas receitas sobre a publicidade como o principal factor para explicar a situação financeira a que a Cinemateca chegou, mas diz que, nos últimos anos, outros contribuíram para este "cenário alarmante": "As instituições foram perdendo autonomia, foram ficando espartilhadas em regras de gestão. E depois há o PIDDAC [Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central] - há pelo menos três anos que não temos dinheiro nenhum para investimento."

As receitas de bilheteira e as da venda das publicações próprias são "importantes", até porque mostram "o carinho de um público fiel", mas são residuais quando comparadas com as que resultavam até aqui da taxa dos anunciantes.

O PÚBLICO tentou saber que esforços estão a ser feitos pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC) para resolver o problema na Cinemateca, mas o gabinete de Jorge Barreto Xavier remeteu qualquer comentário para hoje.

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