Morreu Elmore Leonard, o escritor de policiais que às vezes dava ao criminoso o papel principal

Era considerado o "Dickens de Detroit".

ElmoreLeonard,  em 2004,  na sua casa em Bloomfield Village, em  Detroit
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ElmoreLeonard, em 2004, na sua casa em Bloomfield Village, em Detroit Eleanor Bentall/Corbis

O escritor de policiais norte-americano Elmore Leonard morreu na manhã desta terça-feira, em Detroit. A notícia foi dada através da página de Facebook do autor onde Greg Sulter, o homem que faz a pesquisa para as suas obras, escreveu : “Este é o post que eu temia ter de escrever e que vocês temiam ler. Elmore morreu às 7h15 desta manhã por causa de complicações depois do seu AVC. Estava na sua casa rodeado pela sua querida família.”

O escritor, de 87 anos, a quem chamavam o “Dickens de Detroit”, tinha sofrido um Acidente Vascular Celebral (AVC) no início de Agosto e estava a tentar recuperar.

Tal como o crítico José Riço Direitinho escreveu no Ípsilon quando Unha com Carne, o seu 43º romance, saiu em Portugal na Teorema, o escritor era “na opinião de muitos, o maior autor vivo de romances policiais”. Admirado por escritores como Saul Bellow ou Martin Amis, começou por escrever westerns na década de 1950 e alguns dos seus títulos tornaram-se lendários depois de adaptados ao cinema, como Valdez is Coming, com Burt Lancaster, Joe Kidd, com Clint Eastwood, Hombre, com Paul Newman, e Mr. Majestyk com Charles Bronson.

Foi na década de 1970, quando as editoras que publicavam westerns começaram a falir, que Leonard se iniciou nos policiais, alargando então as fronteiras do género que já tinha tido o seu apogeu com Dashiell Hammett e Raymond Chandler: "Os criminosos passaram a ser muitas vezes as personagens principais, o detective e o móbil do crime passaram para segundo plano; além disso, tornou os romances mais despojados de descrições e os diálogos adquiriram uma nova força. Eles são, de facto, o mais importante nos romances de Elmore Leonard. A história progride a partir das falas”, escreveu o crítico José Riço Direitinho. "Não há a voz de um narrador a levar a acção para a frente, são as personagens que dizem, e por vezes de um modo bastante inesperado, o que é que tem que acontecer a seguir. Todos os detalhes existem para fazer avançar a história."

Quanto aos diálogos, ou melhor, quanto à sua linguagem e importância, o escritor desmitificava, lembrou o crítico: "Numa entrevista radiofónica Leonard disse, depois de lhe ser perguntado se andava muito pela rua a ouvir como as pessoas falavam: 'Não preciso de andar pela rua. Andei muito em bares de jazz nos anos 40, encontrei todo o tipo de gente. O que me interessa não são tanto as palavras usadas, mas a cadência do discurso, o ritmo. Deixar uma palavra de fora de vez em quando. Fazer com que aquilo soe verdadeiro ao leitor. Adequar a gramática à rua. Se me soa a escrito, reescrevo.'"

Elmore Leonard continuava a trabalhar. Em mãos tinha o seu 46.º livro, disse a família numa nota à imprensa quando o autor de westerns e policiais estava ainda no hospital. O seu último livro, Raylan, foi publicado no final do ano passado nos Estados Unidos. 

Vários dos seus livros estão publicados em Portugal,  Na Casa de Honey (Teorema), Cuba Libre (Quetzal), Hot Kid (Teorema), Crianças Pagãs (Teorema), Um Bom Argumento (Difusão Cultural) , livro que deu origem ao filme Jogos Quase Perigosos (1995), de Barry Sonnenfeld com John Travolta e Danny DeVito.Também o realizador Quentin Tarantino adaptou ao cinema Rum Punch, um dos romances do escritor. E o filme Romance perigoso, de Steven Soderbergh, em que George Clooney interpreta o assaltante de bancos Jack Foley também é baseado no romance Out of Sight de Elmore Leonard.

“Raros foram os escritores tantas vezes adaptados ao cinema – nada menos do que 19 filmes foram inspirados em obras suas. Por exemplo, um clássico do western O Comboio das 3.10, de Delmer Daves. Mas Elmore Leonard era sobretudo uma referência crucial no cinema de Tarentino”, diz ao PÚBLICO o crítico Augusto M. Seabra. “Em Pulp Fiction e ainda mais em Jackie Brown, que era adaptado de um dos seus romances, em particular no estilo dos diálogos tão característicos de Tarantino é que ele se mostra mais devedor de Leonard. Tarantino disse mesmo que o seu argumento de Amor à Queima-Roupa (realizado por Tony Scott ) ‘era como um romance de Elmore Leonard que ele nunca tinha escrito’. Leonard foi o escritor que deu cartas de nobreza a um género considerado menor”, acrescenta o crítico. 

Elmore Leonard nasceu em Nova Orleães, o seu pai era um quadro da General Motors e durante a sua infância e adolescência viveu em vários locais do sul dos EUA antes da família se instalar definitivamente em Detroit. Antes de se licenciar em língua inglesa e em filosofia, esteve na Marinha, e mais tarde trabalhou na agência de publicidade Campbell Ewald. Foi durante essa época que em casa ia escrevendo westerns que vendia a revistas. O seu primeiro romance,The Bounty Hunters, foi publicado nos Estados Unidos em 1953.