Prince só quer saber de si - e, consequentemente, de todos nós

Prince deixou o funk trancado em casa e só se ocupou do rock"n"roll. Um óptimo concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, cheio na noite de sábado e em que o público vibrou mesmo com um alinhamento parco em sucessos

Quando Prince se despede com Purple rain, num quarto encore que estende o concerto até às duas horas e meia, sabe exactamente que botão emocional está a pressionar. Quando apregoa os poderes curativos de uma das criações musicais mais familiares da ideia de perfeição pop, garantindo que quaisquer males pessoais que assombrem o seu público não resistirão até ao fim da canção, está, no fundo, a alimentar o love one another que não se cansa de repetir e a lembrar o seu estatuto deífico que, subtilmente, infiltra todo o concerto.

Há uma certa presunção nesta conquista do palco, crente numa devoção tão incondicional e numa tal emanação de génio que muito pouco resta do concerto best of que lhe vimos há três anos na noite de todas as enchentes do festival Super Bock Super Rock. A primeira hora e meia de concerto, precisamente, transforma-se quase num teste à fé de cada um na presença divina que tem pela frente. É uma presença de um deus egoísta, preocupado antes de mais na sua própria satisfação, mas cuja consequência directa é a fidelidade total de quem lhe segue obedientemente os passos.

Ao soltar This is your party now, no segundo dos quatro encores no Coliseu dos Recreios, o músico-súmula de tudo o que é música negra admirável nascida para lá de Juaréz e para cá de Toronto, deixava no ar a frase que explicava tudo o que se tinha passado até então. Antes de atacar uma versão descarnada de When doves cry, aquilo que se ouvira fora sobretudo um Prince em modo de sobreexcitação rockeira, acompanhado por um trio feminino (3rdeyegirl) pródigo em limpar subtilezas e em catapultar uma sonoridade explosiva cujo pavio se podia seguir com absoluta clareza até à guitarra incandescente da estrela da noite.

Não por acaso, um dos temas mais entusiasmantes da primeira passagem do músico pelo palco seria Guitar, canção especialmente inspirada da sua carreira pós-2000 e pós-independência editorial, em que o homem canta, sem rodeios, I love you baby/but not like I love my guitar. E assim foi. Desde o arranque 48 minutos depois da hora marcada, formalizado pelas três instrumentistas na boca do palco a anunciar a conhecida aversão de Prince à difusão da sua obra pela Internet (quem queria fotografias e vídeos dispôs então de dez segundos oficiais para a pose das 3rdeyegirl) e a pôr um fim à tortura da combinação calor infernal + Gipsy Kings, foram as guitarras de Prince Roger Nelson e Donna Grantis (acompanhadas de baixo e bateria) que mandaram na noite.

Esse preâmbulo ao concerto, de pedido enfático do abandono das tecnologias em favor de uma comunhão total com a música - e, mais importante, com o próprio -, estaria presente em todo o concerto até um Purple rain de sentido orgástico. Demonstrativo de duas ideias fundamentais que se resumem numa só: a recusa em embarcar no comboio padronizado da indústria musical e autorizar que a sua criação não tenha fuga possível dos carris em que se vê colocada. E daqui extraem-se as tais duas verdades. Prince quer dominar em absoluto a partilha da sua música - proibindo a disseminação de vídeos na Internet, optando por usar jornais como o Mail on Sunday como meio de distribuição dos seus álbuns, eliminando da equação editoras e lojistas; e quer que a sua ligação com o público se estabeleça nos mesmos termos que sempre o fez James Brown - um bom concerto é validado por uma boa actuação, por boas canções e pela capacidade de criar uma ligação inquebrantável com o público.

A primeira verdade conseguir-se-ia com o pedido para deixar os telemóveis sossegados e a persistência de uma brigada de seguranças de lanterna em punho admoestando quem fazia ouvidos moucos; a segunda seria a própria essência do concerto, assente num alinhamento sem cedências à obrigatoriedade de conquistar pelos êxitos e sem o espalhafato crescente em que se tornaram os espectáculos megalómanos na esteira de U2, Rolling Stones, Madonna ou Britney Spears, em que o papel da cenografia quase eclipsa a própria música. No fundo, Prince pede-nos que abdiquemos da tecnologia quando também ele prescindiu (salvo uns míseros vídeos) da sua.

Mais Cars do que Sly Stone

Logo a abrir o concerto, Let"s go crazy seria a primeira desculpa da noite para Prince e Grantis se embrulharem num longo duelo de solos que se estenderia a toda a noite, tomando um caminho que havia de conduzir o pequeno génio de Minneapolis, aqui e ali, a outros heróis da guitarra que habitualmente vêm à tona na sua música, como Jimi Hendrix e Chuck Berry. Era, se ninguém o tivesse percebido ainda, uma noite de rock"n"roll, à míngua de funk e numa sequência com poucas paragens estratégicas para recuperar o fôlego. Seria nesses momentos, aliás, quando Prince trocava as seis cordas pelas teclas de um órgão, que o funk assomava timidamente em divagações fundidas com um jazz estelar à Herbie Hancock ou em cruzamentos com hip-hop, soul ou boogie-woogie. Algures, entre o público do Coliseu, ouvir-se-ia o desabafo com graça e exactidão q.b.: "My name is Prince and I am not funky", numa deturpação da frase original de My name is Prince.

Esse abafamento do balanço na música seria compensado por uma sobrecarga de electricidade e por um regular classicismo rock que mais facilmente imaginaríamos herdeiro dos Cars, de Rick Ocasek, e menos da Family Stone, de Sly Stone, como aconteceria em Screwdriver ou Fixurlifeup - tema-manifesto em defesa da sua banda feminina e apontando o dedo à misoginia na música. Até When doves cry seriam escassas as passagens por temas âncora do cancioneiro do músico. e quando Prince virou a festa para o lado do público, mesmo depois de lhe acenar com o início de Diamonds and pearlse logo abortar o tema atirando-o noutra direcção, a temperatura subiria ainda mais ao sacar da cartola um supervitaminado Hot thing, momento de explosão em que o palco se viu controladamente invadido por uma pequena multidão dançante.

Haveria ainda Wild thing e U got the look, mas o verdadeiro clímax chegaria com o quarto encore, inesperado, quando muita gente abandonava já a sala e Prince desfraldou a sua melhor faceta pop com Nothing compares 2 U (popularizado por Sinéad O"Connor) e Purple rain - que, ironicamente, numa noite em que as guitarras invadiram o espectro sonoro deixando espaço para pouco mais, se viu privada do solo que contribui para a sua imaculada concepção pop.

Com Prince, de facto, nunca se sabe o que esperar. E esta foi uma noite em que a marcação de antevéspera do concerto foi a menor das surpresas - tudo o que se passou em palco fugiu repetidamente àquilo que seria imaginável. Mas aquilo que de mais indelével ficou foi mesmo a imagem de um músico brilhante que proclamou a sua independência e apenas faz o que lhe apetece. Para o bem (concertos que continuam a ser concertos e não transitaram para a categoria de "espectáculos") e para o mal (nem sempre partindo do seu mais inspirado reportório).