Lembrança de Sérgio Vieira de Mello dez anos após o atentado que tirou a sua vida

19de agosto de 2013 marca o décimo aniversário da morte de Sérgio Vieira de Mello, alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos e representante especial do secretário-geral das Nações Unidas no Iraque. Sérgio, considerado por muitos como o provável sucessor de Kofi Annan, foi vítima de ataque terrorista contra a sede de nossa missão em Bagdad no primeiro - e até agora o mais sério - ataque contra a ONU desde sua fundação, em 1945. Vinte e uma pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas. Como sobrevivente do atentado e companheira de Sérgio Vieira de Mello, posso dizer que, até hoje, nenhum de nós entende por que não foi feita uma investigação rigorosa sobre um atentado de tamanha dimensão. Em vez disso, as circunstâncias do episódio foram enterradas com homenagens e discursos comemorativos.

Esse aniversário serve para refletir sobre a vida de um diplomata verdadeiramente comprometido com os ideais e princípios da paz, mas é também o momento para solicitar uma investigação independente que faça justiça à memória das pessoas que perderam suas vidas naquele 19 de agosto em Bagdad.

A trajetória de Sérgio foi pródiga, completa e nela se refletem os episódios mais importantes dos últimos 40 anos. Sua atuação como mediador entre as hostilidades no Médio Oriente em 1982; a remoção dos resíduos da "guerra fria", com a pacificação do Khmer Vermelho e a repatriação de 400 mil refugiados cambojanos nos anos noventa; a explosão da militância sectária e étnica, e seus esforços para negociar um fim ao massacre na Bósnia.

Sérgio teve o privilégio de empreender a mais difícil, mas ao final exitosa, experiência da ONU: liderar, junto com os patriotas timorenses, o processo de independência do Timor-Leste. Pela primeira vez, a ONU concretizava o sonho, inscrito em sua carta de fundação, de 1945, de construir desde o início a institucionalização de um país. Nesse caso, um país que havia sido ocupado e devastado por tropas colonialistas da Indonésia.

No momento de sua morte, Sérgio ocupava o posto mais alto em direitos humanos na ONU - na entidade que muitos identificam como a "consciência do mundo" - e havia sucedido no cargo a Mary Robinson, ex-Presidente da Irlanda, que, durante sua gestão, imprimiu um papel transcendental à organização. Enquanto trabalhou como alto comissário, também, foi designado representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para o Iraque, com base em Bagdad, onde também residia. A simultaneidade dessas funções reforça a certeza de muitos atores da vida internacional de que Sérgio era uma das pessoas com maiores chances de suceder a Kofi Annan no cargo de secretário-geral da ONU.

Por todos esses fatos, é surpreendente a passividade da comunidade internacional - em particular dos Estados Unidos - e da própria ONU com respeito a fatos de tamanha magnitude. Dado o caráter inusitado e a gravidade do atentado, o esperado era investigar, e promover ações visando o esclarecimento dos fatos. Porém, prevaleceu a inação e as escassas pistas que surgiram sobre os autores foram ignoradas ou sabotadas. Awraz Andel Aziz Majmoud Said estava disposto a revelar sua participação nos acontecimentos, mas, não obstante os múltiplos pedidos internacionais - em particular, os do relator especial sobre a Independência dos Juízes e Advogados -, foi executado antes de poder depor perante a Justiça.

Tampouco foi construída pela organização uma mensagem de repúdio por tal violência contra aqueles que trabalhavam e arriscavam suas vidas pela humanidade. Kofi Annan se limitou a atos diplomáticos e formais para os sobreviventes e familiares das vítimas, mas em nenhum momento promoveu um discurso institucional vigoroso de condenação do atentado. Nem, o que é mais importante, deu impulso a uma investigação a fundo sobre o ocorrido. Se tivesse feito, teria conduzido uma verdadeira tomada de consciência ampla (universal) diante do inaceitável.

O certo é que, dez anos após o atentado, vítimas, sobreviventes, familiares, amigos e centenas de funcionários "da casa" ainda desconhecemos as circunstâncias precisas do atentado, os motivos dos autores e a responsabilidade penal e moral que lhes cabe, quem permitiu e possibilitou essa agressão, como ponto de partida para cicatrizar as feridas. Em vez de medalhas, o que todos esperamos é, em primeiro lugar, a verdade e o firme compromisso da burocracia de averiguá-la.

Fui vítima daquela tragédia. Todavia, em que pese meu status de funcionária da instituição, nunca encontrei o mínimo gesto de reparação e amparo na organização, que me tinha confiado, em agosto de 2003, a tarefa de representá-la em Bagdad, o lugar mais perigoso do planeta.

No momento do atentado, eu era companheira de Sérgio Vieira de Mello. Vivíamos uma relação afetiva tão profunda como solidária, porque tinha nascido nos primeiros anos da reconstrução de Timor-Leste, em condições de grande adversidade, num território devastado por uma guerra de ocupação que custou ao povo timorense quase a metade de seus habitantes.

Depois da exitosa missão de Sérgio em Timor, regressamos a Nova Iorque, onde nossa vida se desenvolveu com relativa serenidade. Isso nos permitiu breves e vibrantes fugas cheias de sonhos: alguns dias em Papua Ocidental; as prolongadas visitas a minha família na Argentina, país onde ele passou os primeiros anos de sua infância; as fartas refeições na casa de Gilda, sua mãe, em Copacabana, onde sempre regressava, porque era o seu lugar no mundo; a visita aos glaciares patagônicos; a neve e o silêncio eterno.

Foi em Nova Iorque onde Sérgio recebeu a notícia de sua designação como alto comissário dos Direitos Humanos. Poucos meses depois de ocupar esse cargo em Genebra, foi nomeado para o Iraque. Por esses fatos pode-se facilmente compreender que o cenário de nossos afetos sempre tinha sido dominado pela precariedade, pelo risco e pela incerteza. Mas, para além dos fantasmas do ódio e da tragédia que povoavam o céu de Bagdad, nossa relação se fortaleceu e juntos transitamos, com intensidade, os últimos instantes de sua existência.

Sem dúvidas, não foram os terroristas do Iraque os únicos que devastaram minha vida. Também o fizeram as diretrizes que chegavam dos principais hierarcas da ONU e dos EUA, que cobriram com um manto de silêncio as circunstâncias do atentado e tentaram tergiversar e reescrever a história de Sérgio, nossa relação e o absurdo abandono em que ele morreu.

Eu própria transitei na tortuosa "amnésia" da burocracia, e por mais de um ano sequer figurei na lista de sobreviventes.

No solene silêncio em que se sepultou o atentado, se é que tem uma única voz que pode se levantar para reivindicar a real história de um dos homens mais importantes e influentes de nossa época, é a do Brasil, seu país, ao qual amava e com o qual se identificava profundamente, apesar de, ou precisamente por sua intensa vida internacional e a necessidade de laços existenciais de afeto.

Celso Amorim, hoje ministro da Defesa do Brasil, e que durante quase uma década esteve à frente da pasta das Relações Exteriores brasileira, deu o passo inicial. Pela primeira vez, alguém do Itamaraty pergunta: "Não sou dado a teorias conspiratórias, mas é difícil lembrar desse episódio sem me perguntar se o "ponto fraco", pela ótica da segurança, não era deixado "fraco" propositadamente, até para desviar os eventuais ataques do alvo mais procurado: a administração militar norte-americana". É surpreendente que essa reflexão venha de alguém proveniente da diplomacia, dez anos depois.

Dois meses antes do atentado, Sérgio havia confessado que a situação no Iraque era dramática, que estava muito preocupado, que cada dia tinha mais problemas com os norte-americanos, e com a ajuda do Brasil poderia dar uma dimensão multilateral. Este foi o último encontro de Amorim com Sérgio, durante a Conferência do Fórum Econômico Mundial (Davos World Economic Forum) que, naquele ano, teve lugar no Mar Morto na Jordânia, em 21 e 22 de junho de 2003.

Passados dez anos, tenho a certeza de que isso, por fim, é o começo. E que esta nova etapa de maior transparência para todas as vítimas da tragédia não poderia ter lugar senão no Brasil, o seu país.

Isso eu digo hoje, do meu profundo amor Sérgio, e o faço com o propósito de destacar a luta que ele encarnou em um mundo que tanto necessita e, porém, persiste em negá-la.

Ao completar dez anos, os Estados Unidos e a ONU devem empreender ações efetivas e conclusivas para o esclarecimento e reparação para que aquelas vítimas tenham, finalmente, acesso ao direito à verdade da qual têm sido privadas há uma década.