José Cid: Longe do fim do mundo

Alentejano, viajou e viveu na Europa nos anos 60 e 70, e regressou logo após o 25 de Abril. Dedicou-se à terra. Não só a um pedaço de terra, mas a uma ideia de terra. Começou a fazer agricultura biológica quando ainda nem existia esse termo

De manhã, quando acorda, a paisagem está sempre ligeiramente diferente. Vê a paisagem do Alentejo como um pescador vê o mar, reconhecendo que nunca está parado, ou como um homem que encontrou a mulher da sua vida, todos os dias amando cada pequena alteração nela.

José Cid é agricultor. Não é um agricultor típico. Nunca foi típico, mesmo quando fez o que muitos homens da sua geração fizeram, envolvendo-se, durante os anos 60, quando era estudante, em movimentos radicais de esquerda e exilando-se no Centro da Europa para fugir à guerra colonial. Preocupou-se sempre mais com a alegria: de estar nos cafés, de beber vinho e de pensar o mundo com amigos; isso era mais importante do que as vitórias políticas. Não gosta da palavra "importante". "A vida é feita mais de coisas interessantes do que de coisas importantes", diz. "Uma luz, um pôr-do-sol, qualquer coisa que possa acontecer - a vida é feita disso, não é feita de verdades transcendentais." Espremendo, o que têm dado os valores, as promessas, as grandes intenções? Esse terreno político não é fértil. Mas ele é, ainda, um homem político. "Bios", lembra, para os gregos, significava "vida", mas se "zoe" significava a vida natural, "bios" tinha uma força ética, e é nesse sentindo, pensando que é um modo de vida, que faz agricultura biológica.

Foi dos primeiros agricultores biológicos em Portugal, quando ainda nem existia essa designação, começando, no final dos anos 70, início dos anos 80, no coração dos latifúndios, da reforma agrária e, novamente, da propriedade delimitada a arame farpado. É tradicionalista. É radical. A sua vida, parecendo quieta, é uma revolução.

Fala de uma aranha que passa e a seguir se esquece e é uma imagem bonita e que perdura em mim depois de deixar a quinta de José Cid nos arredores de Montemor-o-Novo. Saio a pensar que sobretudo aquilo que se esquece é valioso. A História sempre deixa o insignificante iludi-la.

A primeira coisa que escrevi depois de ter deixado José Cid foi: "O agricultor que fui visitar é um agricultor-filósofo. Durante o Verão trabalha de sol a sol na terra. Durante o Inverno lê Espinosa, Deleuze, Agamben, à beira da lareira. Nunca tinha encontrado ninguém em quem fizesse sentido desta maneira a expressão "filosofia de vida"."

Da conversa, copiei para o computador uma frase que ele disse: "Procuro a singularidade. Aquele que repete verdades não está a ser singular, está a ser memória, não é vivo que chegue."

Impressionou-me a sua magreza, uma magreza rija, que fazia pensar num animal selvagem. Tem a pele toda trabalhada pelo sol. Tem 63 anos.

No fim da conversa, é um dos homens mais bonitos que encontrei. Conversámos muito tempo à sombra de três palmeiras a alguns metros da casa, com vista para o terreno de 18 hectares. Durante esse tempo, passaram os filhos, a pequena neta, a mulher com uma amiga. Depois fomos ver o resto da quinta e as cercas que construiu sem arame.

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Tinha 16 anos e o pai deixou-o ir viajar no Verão de 1966. Ele e um amigo arranjaram trabalho de Verão, a apanhar favas, numa quinta no Norte de Inglaterra, e saíram de Évora já com a ideia de irem até Londres. Na quinta, ganhavam apenas para um cachorro-quente e uma pint de leite ou de cerveja. O amigo, indignado com a exploração, pior do que no Alentejo, escreveu aos pais e estes mandaram-lhe dinheiro para que regressasse a Portugal. José convenceu-o a comprar bilhetes de barco para a Suécia. No barco, comiam as sobras que os passageiros deixavam nos pratos, os empregados rindo-se e esperando para levantarem as mesas. Da Suécia foram para a Noruega, onde trabalharam durante 15 dias para conseguirem seguir viagem e atravessarem a Europa até Portugal. Mas da viagem o que ficava de mais forte era mesmo Londres: dois adolescentes alentejanos a verem os The Who a partirem os instrumentos em palco depois de cantarem My Generation: People try to put us d-down (Talkin" "bout my generation) / Just because we g-g-get around (Talkin" "bout my generation) / Things they do look awful c-c-cold (Talkin" "bout my generation) / Yeah, I hope I die before I get old (Talkin" "bout my generation)...

1966 foi o ano em que a revista Time fez capa com a cidade de Londres e usou o termo Swinging City. No início de Julho de 66, em Londres, três dezenas de pessoas foram presas em protestos contra a guerra do Vietname. No final de Julho, Inglaterra venceu Portugal, dois a um, no Estádio de Wembley, chegando à final do Campeonato Mundial de Futebol. 1966 foi o ano em que John Lennon disse que os Beatles eram mais famosos do que Jesus, mas John Lennon não devia estar a pensar em Portugal.

Tudo aquilo era uma espécie de golpe de estado da juventude. E, país após país, os velhos cairiam. Era o ano zero, depois tudo seria diferente.

Nos verões seguintes, sempre com o consentimento daquele pai que tinha uma visão pouco burguesa da educação, continuou vagabundo. Saiu de Évora para estudar em Lisboa em 68/69, num ano de muitas greves e protestos estudantis. Depois, no Verão de 69, partiu para Genebra, sem saber quando voltaria. Genebra não estava longe de Paris e era ainda o espírito do Maio de 68 que tomava posse dos estudantes, um espírito de recusa de um certo modo de vida que se podia resumir na frase: métro, boulot, dodo. Isso era o que não queriam: essa prisão, sem lugar para pensar, imaginar e mudar, do trabalho-casa-casa-trabalho.

Esse foi o tempo de partir, de ir ver o que havia por aí fora. À família e aos amigos telefonava, escrevia cartas. Mas, nos sete anos em que esteve no exílio, esteve completamente cortado da paisagem. Era, então, o que mais lhe provocava nostalgia e era o que mais queria rever no regresso a casa. De longe, a paisagem alentejana parecia-lhe superior a todas as outras. E depois, de perto, não mudou de ideias.

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Foi uma surpresa para ele próprio perceber que via Évora não com os olhos do jovem de 17 anos, idade com que tinha saído da cidade alentejana, mas com os olhos da criança que tinha sido. Voltou para o Alentejo assim que foi possível depois do 25 de Abril de 74, no Natal de 75. Chegou à praça onde tinha crescido e viu de novo as galinhas esvoaçando dos braços dos camponeses enquanto esperavam pelo oftalmologista que tinha fama de tratar os pobres e que lhes daria consulta em troca de uma galinha ou daquilo que pudessem dispensar, o consultório era mesmo em frente à loja do seu pai. Via, com essa escala de criança, as carrinhas dos agricultores, chegando à terça-feira, dia em que vinham à cidade fazer negócio, com os camponeses e camponesas pobres à boleia, carregados de produtos da terra para trocar por serviços ou para vender no mercado negro. Lembrou-se dos sábados à tarde em que eram convidados para as quintas, faziam-se à paisagem e depois ele e o irmão passavam longas horas brincando com os pés na terra.

A sensação era a de regresso ao berço e o espanto era enorme. Decidiu logo que era para ficar. Numa tarde, comprou uma pequena quinta, perto da quinta onde vive hoje, e começou com uma enxada e a ouvir as recomendações de um pequeno agricultor vizinho.

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Ao primeiro dia, começou a dor de cabeça: uma dor que faz com que pareça que a cabeça vai explodir, tão forte que acaba por anestesiar todo o corpo. Ao segundo dia, a febre aumentou ainda mais. Estava deitado numa barraca e três senhoras da aldeia vinham pegar-lhe na mão. Contavam-lhe histórias que ele não compreendia. Ao terceiro dia, a febre começou a descer. Ao quarto dia, viu o seu burro. Estava na direcção do sol, e as orelhas do burro ficavam recortadas na luz. Viu o sol subir e ficou muito contente por não estar morto.

Tinha planos de descer, com o burro que tinha comprado, o rio Níger, mas depois do surto de malária decidiu não seguir viagem. Já tinha estado em Marrocos, Argélia, Niger, Mali. Era a segunda viagem a África que fazia com a mulher. Na primeira viagem tinham andado pelo Egipto e passado mais de quatro meses no Sudão, num período de interrupção da guerra civil. Procuravam a civilização sem "civilização"; faziam parte de um conjunto de europeus que procurava em África uma espécie de revolução natural ou uma contra-contra-revolução. Faziam também parte de um pequeno conjunto de pessoas que tinha decidido não viver compactuando com um certo modo de vida que lhes parecia que iria destruir, primeiro, a natureza, e de seguida, a própria vida humana.

O fim do mundo já se começava a ver nos anos 70: grandes desastres ecológicos apareciam nas notícias - chuvas ácidas, lagos com peixes mortos boiando - mas depois desapareciam e ainda não se ensinava às crianças, nas escolas, que era preciso salvar o planeta. Vivia-se, na Europa, um período de paz e de prosperidade e esse era um terror todo silencioso.

Depois deixou de sair da quinta, não só porque a quinta exigia todo o seu tempo, entre as sementeiras, as colheitas, a produção de azeite, os animais querendo alimento e trato, mas porque deixou de sentir necessidade. Ali, na quinta, era nómada que chegasse.

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Dentro de casa, anoiteceu. Os olhos demoram a adaptar-se à luz. A divisão principal é a da cozinha com uma mesa grande para comer e receber, e uma lareira onde, no Inverno, gosta de ler.

Uma cortina separa essa divisão de uma mais pequena onde tem os livros. Mostra-os quase com o mesmo orgulho com que mostrou a horta, as oliveiras e o lagar. Tem alguns romances, Melville, Nabokov, mas quase tudo é filosofia. Lê e sobretudo relê: Aristóteles, Séneca, Nietzsche, Walter Benjamin, o Mil Planaltos de Gilles Deleuze e tudo o resto de Deleuze, a Ética, de Espinosa, relê a cada três anos. Pensa sobre o que lê. Não escreve, preferindo a palavra dita, espontânea. E espera as visitas para que possa discutir os assuntos que mais lhe interessam, e nessas alturas fica um tagarela.

É no interior, no escuro do fresco, que conta uma história sobre o seu corpo a corpo com a natureza. Faz tudo à mão e isso faz com que a quinta fique de uma maneira muito especial no seu corpo e o seu corpo na quinta. Para tosquiar as ovelhas é preciso agarrá-las e elas dão luta e ao tosquiá-las recentemente acabou no chão, espezinhado pelos animais. Conta-o com romantismo, precisa desse romantismo, é isso que faz com que valha a pena não ser um agricultor convencional.

É também com romantismo que fala da morte. Encontra muitas vezes ovelhas mortas, mas nunca encontra os carneiros quando morrem. Depois lá aparece um corpo de carneiro, escondido. Escondem-se para morrer e morrem sozinhos aninhados num canto da terra. É mais um desaparecimento do que uma morte ou um regresso a casa e essa seria uma morte que lhe conviria.

Mas se há uma ideia central em José Cid é a ideia de alegria. Foi a alegria que viu desde a infância no pai, trabalhando muito, mas sempre procurando satisfação. A alegria retira-a então, sobretudo, do próprio trabalho, como um artista da sua obra. Não se trata da alegria leve do entretenimento, uma alegria para esquecer, mas uma alegria para encontrar, a alegria profunda que se retira de viver inventando uma verdade.