Crítica

Prince, herói da guitarra

Prince + 3rd Eye Girl Coliseu dos Recreios, Lisboa 4 estrelas (sala cheia)

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Coliseu dos Recreios encheu para assistir a uma noite em que Prince deixou o funk trancado em casa e só quis saber do rock’n’roll. Um óptimo concerto em que o público vibrou mesmo com um alinhamento parco em sucessos.

This is your party now”. Íamos para o segundo de quatro encores da passagem meio-surpresa de Prince pelo Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e o pequeno génio de Minneapolis, músico-súmula de tudo o que é música negra admirável nascida para lá de Juaréz e para cá de Toronto, deixava no ar a frase que explicava a hora e meia deixada para trás. Antes de atacar uma versão descarnada de When Doves Cry, aquilo que se ouvira fora sobretudo um Prince em modo de sobreexcitação rockeira, acompanhado por um trio feminino (3rd Eye Girl) pródigo em limpar subtilezas e em catapultar uma sonoridade explosiva cujo pavio se podia seguir com absoluta clareza até à guitarra incandescente da estrela da noite.

Não por acaso, um dos temas mais entusiasmantes da primeira passagem do músico pelo palco seria Guitar, canção especialmente inspirada da sua carreira pós-2000 e pós-independência editorial, em que o homem canta, sem rodeios, “I love you baby / but not like I love my guitar”. E assim foi. Desde o arranque 48 minutos depois da hora marcada, formalizado pelas três instrumentistas na boca do palco a anunciar a conhecida aversão de Prince à difusão da sua obra pela Internet (quem queria fotografias e vídeos dispôs então de dez segundos oficiais para disparar diante da pose das 3rd Eye Girl) e a pôr um fim à tortura da combinação calor infernal + Gipsy Kings, foram as guitarras de Prince Roger Nelson e Donna Grantis que mandaram na noite.

Let’s Go Crazy foi a primeira desculpa da noite para os dois se embrulharem num longo duelo de solos que se estenderia por toda a noite, tomando um caminho que havia de conduzir Prince, aqui e ali, a outros heróis do instrumento que habitualmente vêm à tona na sua música, como Jimi Hendrix e Chuck Berry. Era, se ninguém o tivesse percebido ainda, uma noite de rock’n’roll, à míngua de funk e numa sequência com poucas paragens estratégicas para recuperar o fôlego. Curiosamente, seria nesses momentos, quando Prince trocava as seis cordas pelas teclas de um órgão, que o funk assomava timidamente em divagações fundidas com um jazz estelar à Herbie Hancock ou em cruzamentos com hip-hop ou soul. Algures, entre o público do Coliseu, ouvir-se-ia o desabafo com graça e exactidão q.b.: “My name is Prince and I am not funky”, numa deturpação da frase original de My Name Is Prince.

Esse abafamento do balanço na música seria compensado por uma sobrecarga de electricidade e por um, por vezes, classicismo rock que mais facilmente imaginaríamos herdeiro dos Cars, de Rick Ocasek, e menos da Family Stone, de Sly Stone, como aconteceria em Fixurlifeup, tema-manifesto em defesa da sua banda feminina e apontando o dedo à misoginia na música, ou Screwdriver. Por outro lado, até When Doves Cry e à supracitada frase, o concerto fora sobretudo uma assumida festa de Prince para gáudio de Prince e respectiva banda, a que a assistência tinha o privilégio óbvio de assistir. Se as passagens por temas âncora do cancioneiro do músico eram poucas até então, o desfecho do jogo de prós e contras cabia a cada um, com evidentes ganhos e perdas: alguma frustração por não ter oportunidade de embarcar num concerto de sonho de Prince, mas a proporcional oferenda de assistir a um músico plenamente endiabrado e vital, sem se deixar arrastar para um menos vigoroso desfile de temas estafados.

Quando Prince virou a festa para o lado do público, mesmo depois de lhe acenar com o início de Diamonds and Pearls e logo abortar o tema atirando-o noutra direcção, a temperatura subiria ainda mais ao sacar da cartola um super vitaminado Hot Thing, momento de explosão em que o palco se viu controladamente invadido por uma pequena multidão dançante. Haveria ainda Wild Thing e U Got the Look, mas o verdadeiro clímax chegaria com um quarto encore, inesperado, quando muita gente abandonava já a sala e Prince desfraldou a sua melhor faceta pop com Nothing Compares 2 U (popularizado por Sinéad O’Connor) e Purple Rain, uma das raras canções de cirúrgica perfeição que o mundo ouviu até hoje. E que, curiosamente, numa noite em que as guitarras invadiram o espectro sonoro deixando espaço para pouco mais, se viu privada do solo que contribui para a sua imaculada concepção pop.

Com Prince, de facto, nunca se sabe o que esperar. E esta foi uma noite em que a marcação de antevéspera do concerto foi a menor das surpresas – tudo o que se passou em palco fugiu repetidamente àquilo que seria imaginável. E isso foi quase, quase sempre, muito, muito bom.