Vem aí o Pardusco!

Anselmo Mendes lança verde tinto à moda antiga.

O presidente da Comissão de Vitivinicultura Regional dos Vinhos Verdes, Manuel Pinheiro, não vê futuro para os vinhos tintos da região e sustenta esta crença, estranha face à posição que ocupa, na irrelevância estatística dos mesmos. O que se vende e exporta é o vinho branco; o tinto continua a ser um vinho étnico, consumido quase só localmente. Mas há alguns produtores que olham para as estatísticas como algo mutável e que pensam o contrário de Manuel Pinheiro. Vasco Croft, criador do tinto Aphros, é um deles. Outro é Anselmo Mendes, que se prepara para lançar o tinto Pardusco, inspirado nos vinhos de antigamente.

Muito antes de ser conhecida pelos seus vinhos brancos de Alvarinho, Loureiro, Azal Arinto Avesso e outras variedades, a região minhota produzia sobretudo vinhos tintos. E eram tão famosos que os ingleses, muito antes de terem descoberto os vinhos do Douro, já compravam vinhos tintos em Monção e, menos, no Vale do Lima. Começaram a fazê-lo no século XIV, quase 400 anos antes da criação da região demarcada do Douro. Foram os primeiros vinhos portugueses a ser exportados.

Na altura, os vinhos exportados para Inglaterra eram chamados de "parduscos", por apresentarem uma cor parda. Eram vinhos claretes, feitos à base de uvas tintas mas que incorporavam também uvas brancas. Nesse tempo, o Vinhão, casta rica em cor, taninos e acidez, talvez ainda nem existisse (a existir, não tinha de certeza a predominância que tem hoje). Seriam castas como o Borraçal, o Cainho e o Alvarelhão, algumas das variedades actuais que encaixam no padrão de antigamente. Nenhuma tem a importância do Vinhão, mas é também por elas que pode passar o futuro do vinho tinto minhoto.

Para o seu Pardusco Escolha 2012, Anselmo Mendes recorreu a todas aquelas castas e a outras menos conhecidas. Juntou uvas das sub-regiões de Monção e do Vale do Lima, tintas apenas, e submeteu-as a uma extracção mínima, para diminuir a agressividade dos taninos. Fez um vinho de cor aberta, de aroma singelo mas muito preciso e cheio de frescura. Bebe-se e dificilmente se adivinha a sua origem. A boca não fica negra e encortiçada e a acidez não nos obriga a fazer cara feia, como acontece com a maioria dos tintos minhotos. É um registo muito contido e harmonioso. O estágio em barricas antigas de Alvarinho serviu mais para micro-oxigenar o vinho do que para o complexar. Para grandes divagações técnicas e filosóficas há tintos mais adequados. Este, além de pretender ser um tributo aos antigos vinhos de Monção, serve acima de tudo o propósito de proporcionar uma experiência diferente e agradável. Pelo impacto que causa a quem o prova, é um tinto capaz de ser bem recebido pelo mercado, em especial por consumidores mais receptivos a vinhos pouco alcoólicos, não muito extraídos e bastante frescos. Só tem um "problema": bebe-se tão bem que acabamos a beber mais do que a conta. Cada garrafa vai custar sete euros.