Peça a peça, constrói-se um mundo de encantar

Tem montanhas-russas e rápidos que nos deixam encharcados, viagens submarinas e emocionantes aventuras arqueológicas. Mas a Legoland Windsor, situada a poucos minutos de Londres, é mais do que um simples parque de diversões. É um universo mágico feito de milhões de peças coloridas.

"Não tenho palavras suficientes para descrever o que sinto". Luís tem quase 10 anos e está a viver um sonho. De todas as brincadeiras, fazer construções com legos é a sua preferida. Em casa passa horas a inventar mundos só seus feitos de peças coloridas, e quando navega na Internet é para ir à procura de modelos criados por outros ou para saber que novas séries a empresa dinamarquesa acaba de lançar. Por isso, quando se falava em parques de diversões, Legoland era o nome que sempre vinha à baila.

A oportunidade surgiu quando os pais decidiram viajar até Londres. Windsor fica a meia hora da capital britânica, e com um dia suplementar de estadia faziam do filho a criança mais feliz à face da Terra.

Depois de ter subido à Torre Espacial e espreitado a sala onde se pode dar largas à imaginação a construir modelos Hero Factory, é quando chega à Miniland, junto aos monumentos que viu na cidade, como o Big Ben e a Tower Bridge, que Luís finalmente consegue expressar a alegria que lhe vai por dentro. Ou não, porque, como afirma, faltam-lhe as palavras, e o que extravasa é o brilho nos olhos, o sorriso largo, a mente entretida a captar os mais pequenos detalhes.

O mesmo acontece com as outras crianças que circulam por ali. Ouvem-se "Wow!!", "Look, daddy, look!" por todo o lado mas o que predomina é o espanto mudo, dedos a apontarem um autocarro que atravessa Trafalgar Square ou um comboio a partir de uma estação. Têm muito com se entreter: nesta Europa em miniatura há 56 veículos animados, num total de 215 elementos que se movem, tal como a roda gigante London Eye, os moinhos de vento holandeses ou o Space Shuttle que, a cada 10 minutos, descola com fumo e estrondo do Kennedy Space Centre, em Cabo Canaveral - o único cenário alheio ao Velho Continente.

Principezinho no palácio

Com uma brochura na mão, tentando responder ao questionário que nos fazia estar atentos para ver quem (ou o quê) causara a interrupção de um jogo de críquete ou que desporto arriscado se fazia junto ao Sacré Coeur, em Paris, demos conta das horas de trabalho e o material necessário para montar este mundo em versão condensada.

Só aqui, na Miniland, uma das dez áreas temáticas do parque, há 43 milhões de peças, iguais àquelas com que as crianças brincam em casa, cuidadosamente montadas numa escala de 1:20 ou 1:50, conforme os casos. Um número que continua a aumentar: apenas três dias após o nascimento do príncipe Georges de Cambridge, a Miniland já contava com a recriação do bebé real no berço, acompanhado pelos pais, avós e o ruivo tio paterno, colocados junto aos portões do Palácio de Buckingham em frente a um batalhão de fotógrafos e curiosos a acenar. Nem o tradicional edital foi esquecido, numa cena que a partir de agora será certamente das mais admiradas por miúdos e graúdos.

Mas regressemos ao Início, nome dado à praça onde desembocamos, logo após as bilheteiras. Há por ali restaurantes para saciar os primeiros apetites, aluguer de carrinhos de bebé para quem descobre que 60 hectares de parque é muita distância para levar uma criança cansada ao colo e aquilo que faz arregalar os olhos de muitos: a "Big Lego Shop".

O Início deveria servir para olhar o mapa com atenção, seguindo depois as setas para as diversões mais distantes, tal como nos foi aconselhado - porque a impaciência infantil não resiste a quedar-se pelas que vêem à chegada, as mais longínquas são as que têm filas mais curtas às primeiras horas da manhã. Entretanto, deve fazer-se o percurso inverso, estando já perto da saída quando o parque fechar.

Era esse o plano. Porém, as duas crianças que nos acompanhavam não resistiram à mostra Star Wars, a poucos metros dali. Curiosamente, não havia as anunciadas filas de mais de uma hora, tal como não as encontraríamos nos lugares onde estivemos a seguir, nessa quarta-feira soalheira. Cerca de 10 minutos foi o maior tempo de espera. Talvez seja esse o segredo: evitar os fins-de-semana e os feriados britânicos. E, de preferência, escolher uma altura que não coincida com as férias inglesas, cujo calendário escolar é bem diferente do nosso.

Certo é que pudemos apreciar com toda a calma sete das cenas mais famosas dos seis filmes da saga, montadas com um detalhe espantoso. A exposição começa com as torres da Cidade de Cristal, mostra a preparação para as batalhas de Naboo e Geonosis, e continua pelos planetas Kashyyyk, Tatooine e Hoth, terminando na floresta de Endor. Os botões que fazem mover as naves, a música e a luz que vão mudando com os cenários, tornam o percurso muito emocionante, traduzido nos "wooow" multiplicados a cada virar de esquina. No final, os fãs são ainda brindados com o desfile das personagens principais, representados por figuras com mais de 90 centímetros de altura.

Em seguida perdemo-nos nos meandros do parque, percorrendo trilhos, escadarias e rampas, protegidas pela sombra de bosques, onde a cada instante somos surpreendidos por monumentos familiares e cenas campestres. Estátuas da Ilha de Páscoa num recanto escuro, os rostos do Monte Rushmore a adornar uma pequena colina, um ornitólogo escondido entre juncos a observar uma garça junto a um pequeno ribeiro, esquilos, aves pousadas nas árvores. Alguns animais estão tão bem integrados que nos fazem questionar se serão reais ou não. De longe, é difícil perceber se será verdadeiro o texugo, que espreita de um velho tronco de madeira, ou o faisão entre os arbustos. Só quando nos aproximamos vemos que o primeiro é de plástico e que os segundos se passeiam entre quem descansa nos relvados.

Fascinante é vermo-nos rodeados de tubarões, raias e peixes tropicais, dentro de um yellow submarine com capacidade para 14 pessoas. Estamos no reino Atlantis, a viajar através de um aquário com mais de um milhão de litros de água. Pelas escotilhas observamos os peixes a nadarem entre algas autênticas e corais Lego, tal como as sereias, mergulhadores e as ruínas de uma cidade perdida. Pelos altifalantes, uma equipa de cientistas convida-nos a tocar em botões, conforme formos identificando algumas espécies marinhas, mas estamos todos demasiado deslumbrados para obedecer. À saída, os pequenos têm a oportunidade de tocar em búzios e estrelas-do-mar, mas o que apetece mesmo é voltar à fila para mergulhar de novo. Vale-nos o mapa, a mostrar tudo aquilo que há ainda para ver.

Se a viagem submarina nos deixou enxutos, o mesmo não podemos dizer da aventura seguinte. A Pirate Falls Dynamite Drench é um percurso feito num rio pacato que serpenteia através de uma típica ilha de piratas. Nas margens há baús a transbordar de moedas de ouro, caveiras, crocodilos de bocarra bem aberta e papagaios falantes que vão avisando "Be careful! Be Careful!", ao som de explosões ocasionais. Quando o bote sobe uma rampa em direcção a uma barraca de madeira, já sabemos que o perigo espreita. O destino é a queda abrupta numa lagoa, que deixa os desprevenidos a pingar.

Cá fora, os grandes secadores que, por 2 libras, nos secam da cabeça aos pés, estão vazios. Molhar-se faz parte da diversão e ali perto há outra actividade que promete meter muita água.

Quais barris a flutuar no rio, os barcos circulares do Viking River Splash são levados pela forte corrente dos rápidos através de um circuito cujo intuito é encharcar os seus ocupantes. Primeiro há que escapar aos canhões de água, manobrados sem dó nem piedade por aqueles que estão no exterior, depois esperar que três baldes suspensos não se virem na altura em que vamos a passar, apenas para descobrir, segundos mais tarde, que há um balde bem maior e é precisamente esse que nos vai despejar todo o conteúdo em cima. Com estátuas cuspidoras pelo meio, dificilmente alguém escapa ileso. "A melhor diversão de todas", afirmaram as crianças, embora o tivessem repetido várias vezes antes.

Cavaleiros e faraós

Se o público-alvo da Legoland Windsor são crianças entre os três e os 12 anos, os adultos que se entusiasmam tanto como os pequenos parecem não dar por isso - quem nunca brincou com legos que atire a primeira peça. Mesmo que esta montanha-russa não tenha loopings nem atinja uma grande velocidade, proporciona adrenalina suficiente para fazer o coração bater mais forte e gritar sem pudor. É o que acontece no Dragon, o circuito que parte do castelo que domina o Reino dos Cavaleiros, em cuja loja uma adolescente chinesa posa para a fotografia com roupa de princesa, cor-de-rosa integral, tiara e ceptro incluído.

Temos de subir vários pisos da fortaleza até chegar às carruagens, apreciando mais uma vez o que é possível fazer com as pequenas peças de plástico, sejam candeeiros a imitar tochas ou tapeçarias com desenhos intricados. Quando o ventre do dragão nos recebe é para nos revelar uma amostra da vida medieval. Passamos por uma taberna, pela oficina de um boticário e até por uma câmara de tortura, antes de sermos lançados porta fora para uma viagem que, não sendo alucinante, dá azo a gritinhos histéricos e muitas gargalhadas nervosas.

O Reino dos Faraós tem dromedários indolentes e estátuas egipcías com quatro metros de altura a proteger a entrada. Neste mundo sombrio, somos nós os arqueólogos, ou antes os intrépidos Laser Raiders, destinados a enfrentar perigos para descobrir tesouros. O que acontece à passagem do veículo de quatro lugares - paredes que desabam, múmias a saltar - depende da perícia com que manejamos as pistolas laser para atingir o maior número de pontos assinalados. É uma espécie de túnel-fantasma em versão interactiva. Talvez por isso, no balanço do final do dia foi eleita como a melhor experiência, aquela que os nossos filhos repetiriam se só pudessem escolher uma. Já a Spinning Spider, que nos faz girar vezes sem conta, foi classificada como a pior, mesmo por aqueles que não saíram de lá enjoados.

Um dia não foi suficiente para experimentar tudo. Não assistimos ao espectáculo de acrobacias dos piratas, não vimos Chima, o filme em 4D, nem chegámos a visitar o Duplo Valley, a área aberta em 2013, destinada aos mais pequeninos. Mesmo assim, ainda sobrou tempo para apagar um fogo, subir num balão de ar quente, fazer um safari náutico e embrenharmo-nos num labirinto feito de sebes. Para nós foi um dia em cheio, bem passado, mas quando o assunto é parque de diversões, o melhor é deixar a avaliação para os peritos. Como Luís, que à saída, com o sorriso a bailar-lhe nos olhos, encontra finalmente as palavras que lhe faltavam: "Ainda me custa a acreditar. Inesquecível!".