Os "Mourinhos" anónimos saíram nos anos 1960 e não querem voltar

Conquistaram fora o que jamais conseguiriam cá dentro. Vieram a Portugal receber o troféu Portugueses de Valor, mas não pensam regressar. Só nas férias.

Valdemar Francisco é natural de Leiria e 60 anos
Valdemar Francisco é natural de Leiria e 60 anos DR
José Oliveira é natural de Caxarias/Ourém e tem 61 anos
José Oliveira é natural de Caxarias/Ourém e tem 61 anos DR
Emília Reis é natural de Valinho de Fátima e tem 45 anos
Emília Reis é natural de Valinho de Fátima e tem 45 anos DR
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Quinze portugueses foram distinguidos pela Lusopress TV (França) como personalidades de valor que se afirmaram nos países de acolhimento onde escolheram viver, mas também em Portugal. Os prémios pretendem mostrar “a qualidade e perseverança do povo português”, mas também contribuir “para a divulgação do país no mundo”. Foram entregues em Junho, durante uma gala no TroiaResort, onde só no final se revelou os vencedores, entre os 100 nomeados.

França e Portugal são os países mais representados este ano, mas também houve participantes da Bélgica e dos Estados Unidos.

Para José Filipe Moraes Cabral, embaixador de Portugal em França, esta é uma homenagem “justa e devida àqueles que, tantas vezes de uma forma discreta, longe das luzes da ribalta, honram a profissão que exercem, honram as comunidades no seio das quais vivem e trabalham, honram todos aqueles que construíram com tanto labor as suas vidas fora do país, honram os portugueses e honram Portugal”.

O presidente do júri, Pedroso Leal, considera “portugueses de valor” todos os “que se afirmaram como gente de valor que importa que sirvam de referência e inspiração a esta diáspora que hoje se renova, também com todos os países da CPLP, principalmente Angola, Brasil e Moçambique”.

A actividade da Lusopress TV, que organiza desde 2011 esta iniciativa, traduz-se num revista mensal (em papel) e num site, onde se diz pretender “promover e fomentar a língua portuguesa através da elaboração de conteúdos informativos e de entretenimento” e apresentando-se como “uma alternativa para os cerca de cinco milhões de falantes da língua portuguesa espalhados por todo o mundo”.

O PÚBLICO escutou a história de três dos portugueses premiados que escolheram viver em França. E não se arrependem. Mas teriam gostado que Portugal tivesse sido possível.

“O que nos anos 1960 era um handicap reverteu-se num plus

Valdemar Francisco
Natural de Leiria, 60 anos
Administrador da Câmara de Comércio e de Indústria Franco-Portuguesa
Empresário na área da construção – Empresa Tradi-Art

"O facto de o júri me ter premiado é mais uma forma de reconhecimento do meu envolvimento na vida da comunidade, mas também dos meus sucessos profissionais e pessoais.

Quando escutei o meu nome, para mim uma surpresa, senti um forte orgulho em ser português. Tal sentimento encetou em mim a motivação e a vontade de continuar a assumir as minhas funções como administrador da Câmara de Comércio e de Indústria Franco-Portuguesa, procurando que, com o meu modesto contributo, esta instituição, que se tem dedicado amplamente na promoção dos negócios bilaterais entre Portugal e França, incremente as oportunidades entre os dois países.

Expresso-me pois, com orgulho, e afirmo, para que os portugueses saibam, que a comunidade portuguesa no estrangeiro e particularmente em França é, para além de muito querida, bastante activa. O que nos anos 1960 era um handicap reverteu-se num plus e hoje as últimas gerações de luso-descendentes têm uma formação e cultura muito apreciada em França.

Gosto de relembrar a declaração feita pelo anterior Presidente francês, Nicolas Sarkozy: 'A comunidade portuguesa integrou-se perfeitamente, graças à sua vontade, ao seu trabalho e à sua coragem. Hoje, os portugueses são admirados em França e esta é bastante mais rica por tê-los no seu seio.' Esta declaração enalteceu o meu peito lusitano e prova como as 45 mil empresas detidas por portugueses e/ou luso-descendentes têm um impacto efectivo na economia francesa.

A comunidade criou não apenas milhares de postos de trabalho, como impulsionou igualmente o comércio entre Portugal e França, o que se reverteu em empregos para Portugal, que tanto precisa.

Ter recebido o prémio em Portugal teve igualmente um sabor especial. Foi como se fosse o meu primeiro dia de escola e a professora me tivesse chamado ao quadro!

Quando emigrei para França, ainda não tinha completado os sete anos, o que me impossibilitou de frequentar a escola em Portugal. Naquela época era tudo o que queria. A integração na escola francesa foi exigente (em 1960, o número de portugueses na escola era mínimo), mas tornou-me mais hábil e atento às necessidades dos outros.

Esta iniciativa permitirá que os portugueses por todo o mundo conheçam mais a fundo o trabalho e a perseverança dos seus compatriotas no estrangeiro. É um veículo de esperança, estímulo e moral para todos os portugueses.Queria enviar um especial agradecimento à Lusopress, nomeadamente ao sr. Gomes de Sá."

 

“Como podemos investir em Portugal, se ninguém nos dá garantias?”

José Oliveira
Natural de Caxarias/Ourém, 61 anos
Criou a Societé de Prefab d’Agglomérés Parisiens (fabrico de elementos em betão para a construção civil)

"Penso que todos os portugueses que saíram de Portugal e ousaram deixar muitas coisas das suas vidas para tentarem singrar além-fonteiras são homens e mulheres de valor. No entanto, esta iniciativa é importante na diáspora portuguesa porque põe em relevo, no seio das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, alguns de nós.

Embora seja redutor premiar apenas 15, honra-me muito ser um deles. Ao mesmo tempo, é o reconhecimento do meu empenho desde 1981 até hoje para com as comunidades portuguesas.

Os portugueses de Portugal nem sempre tiveram a justa medida da importância que têm todos aqueles que saíram de Portugal para a economia e para a grandeza do país. Receber o prémio aí mesmo é indirectamente uma resposta ao país que nos voltou as costas.

Eu saí de Portugal com 30 anos, e a minha esposa, que era a minha namorada, queria que eu tivesse saído dez anos antes. Eu nunca quis porque queria arranjar aí os meios de poder singrar na vida e criar condições para a minha família, esposa e filhos.

Ao fim de dez anos, cheguei à conclusão, com o período da descolonização, que tinha de ir embora. Eu fui militar em África até ao 25 de Abril de 1974.

Voltar, só nas férias. Temos dois filhos, o mais novo nasceu em França, tem 30 anos, e o mais velho tinha três anos quando chegámos a França. Os dois são diplomados aqui. A nossa vida está aqui. Sinto-me perfeitamente integrado na sociedade francesa, que me garante os meus investimentos.

Eu gostaria de fazer a mesma coisa no nosso país, mas os nossos governantes, os nossos deputados, que são os legisladores, têm de fazer muito, muito, muito, para recuperarem a seriedade nos negócios em Portugal.

Quando se faz apelo aos portugueses da diáspora para investirem em Portugal, como podemos nós investir, se ninguém nos dás quaisquer garantias. Ninguém investe correndo sérios riscos de perder tudo. Depois das “mascaradas” do BPP e o BPN, quem nos garante que não vamos cair na mesma armadilha? E, depois, declaramos insolvência?

Durante dez anos fui conselheiro das comunidades portuguesas, e é triste que o embaixador de Portugal em França não se dignasse a estar presente no evento dos Portugueses de Valor, nem o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. É um sinal dado aos portugueses de que eles só têm valor no seio das comunidades e que o seu próprio país não lhes reconhece esse valor. No mínimo, deviam lembrar-se como os portugueses fora de Portugal têm sido extremamente importantes para a balança comercial e de transacções.

Não posso dizer aos que desejam sair do país que não o façam, porque me contradiria. Embora o nosso país necessite sempre das melhores mãos e das melhores cabeças. A quem tiver vontade, coragem e espírito de sacrifício, digo que vale sempre a pena ir à procura e dar um novo rumo à nossa vida. Eu dei, consegui e obtive o retorno. Não me arrependo. Não deixo de ser português porque saí de Portugal. Sou português de corpo inteiro.

O facto de a entrega dos prémios ter sido em Portugal foi importante. Mais ainda quando soube que quem os ia entregar era o embaixador da França em Portugal, Pascal Teixeira da Silva, que eu acompanhei pessoalmente na nomeação como luso-descendente no nosso país de acolhimento. Disse para mim em silêncio que, se tivesse a sorte de ser designado, gostaria de receber o prémio das mãos dele.

Qual não foi o meu espanto quando vejo a minha imagem aparecer no ecrã. Tive uns 10, 15 segundos de reflexão em que o sangue acelerou o movimento das veias. 

Dirijo-me aos nossos governantes e a quem tem responsabilidades políticas há muitos anos, sem querer distinguir uns de outros: são vocês que têm a responsabilidade de não criarem condições para que os filhos da nossa pátria se sintam bem no nosso país. É pena, é mesmo pena."

 

“Ia ser difícil adaptar-me a viver em Portugal”

Emília Reis
Natural de Valinho de Fátima, 45 anos
Fundou a Top Evasion, empresa de viagens turísticas que liga Paris a Lisboa de autocarro

"Não esperava ganhar. Ao princípio nem me queria inscrever. Há pessoas mais importantes que eu para participar. Mas disseram-me que havia poucas mulheres e… lá fui. Também o fiz, confesso, para aproveitar o fim-de-semana no TroiaResort e, já agora, conhecer outros portugueses que estão fora.

Foi pena não ter conseguido dizer algumas coisas que queria quando recebi o prémio, mas fiquei emocionada e faltaram-me as palavras.

Eu abri esta empresa, Top Evasion, com António de Oliveira Magalhães, com quem vivi 17 anos e que faleceu há três anos, com um cancro. Quando ele se apercebeu de que estava condenado, disse-me: 'Emília, vê lá se sabes andar nas estradas que eu te abri. Vai para a frente com as nossas firmas.'

Era a ele que eu queria dedicar este prémio. Abrimos a firma em 1998. Eu sempre fui a gerente, ele era chauffeur, fazia tudo e decidia. Eu, no escritório, tratava dos papéis, organizava as viagens.

No dia da gala, quando vi a minha cara no ecrã, fiquei muito emocionada porque tive pena de que ele não estivesse lá, mas acho que ele viu tudo 'lá de cima'. Eu gostava de lhe dizer: 'Obrigada, Magalhães, por tudo o que temos.'

Trabalhei desde os 13 anos, nunca tive medo ao trabalho. Neste momento, estou até com muito. Temos uma linha regular Portugal-França-Portugal, com partida de França ao sábado e de Portugal à terça (em Leiria). Tenho 12 motoristas, ao todo são 15 empregados. Como dizia o Magalhães, 'se nunca lhes faltar o salário, não te irão criticar. Não tenhas medo de bater com o punho na mesa, eles terão de fazer aquilo que tu mandas'. São só homens, e uma mulher a dirigir homens nem sempre é fácil.

Tive e tenho muita gente ao meu lado, sempre, e isso é muito bom. Família e amigos. Os meus filhos (dois) falam e escrevem em português, os netos (cinco) nem por isso. Mesmo eu tenho dificuldade em conjugar os verbos.

Gosto muito de ir a Portugal, vou muitas vezes, mas regressar para viver aí não está nos meus planos. Ia ser difícil adaptar-me. Tenho aqui o meu trabalho, os meus filhos e os meus irmãos. E a minha mãe vem cá regularmente.

Gostava de agradecer a todos os que participaram no evento, em especial ao João Paulo, que me acompanhou até Tróia e é agora o meu maior companheiro.

Depois da gala Portugueses de Valor, houve aqui em França a festa da Rádio Alfa, onde levei muita gente em autocarros meus. Fui encontrando portugueses que tinham estado em Tróia e diziam-me: 'Olha a nossa portuguesa de valor! Você é formidável, nunca mude.' Gostei. Pareceram-me sinceros."

Os outros premiados

António Macedo de Andrade

Natural de Ribeira Brava, Ilha da Madeira
Empresário na área da restauração. Proprietário do restaurante Paris-Madeira, França

“Tenho um grande prazer em ser português, porque somos um povo trabalhador”

António Marques

Natural de Ourém
Aposentado do Consulado de Portugal em Paris, França

“Ainda hoje não consigo reviver as memórias da guerra colonial”

Diamantino Marto

Natural de Colmeias, Leiria
Empresário na área de demolições. Criou a Marto & Fils, em França. Tem 200 empregados

“Condeno a atitude de alguns gestores que esquecem as origens”

Fernando da Costa

Natural de Espite, Ourém
Empresário na área da electricidade (Eurelec e Lighting). Emprega 50 pessoas, em França. Piloto e membro da associação Rotary Club de Crécy-en-Brie, proporciona anualmente um baptismo de voo a crianças portadoras de deficiência

“Nunca pedi a nacionalidade francesa porque sou português”

José Salvador Couto

Natural de Ribeira Grande, Açores
Empresário. Há cerca de 25 anos, comprou a sua primeira loja da cadeia americana Dunkin’ Donuts, nos EUA. Actualmente tem mais de 50 estabelecimentos da marca.

“Cheguei aos EUA com o sonho de vir a ser alguém de sucesso”

Maria José Guimarães

Natural de Lisboa
Funcionária no Liceu Francês, em Portugal

“Entrei como ‘polícia’, mas acabei por me tornar uma mãe suplementar para os alunos”

Nuno Cabeleira

Natural de Mata, Torres Novas
Vice-cônsul de Portugal em Paris, França

“O povo português é um povo com história, arrojado, capaz de trabalhar em qualquer lugar.”

Paula de Sousa

Natural de Molares
Empresária em França

“Para mim, a felicidade é ter o que comer todos os dias e haver paz e saúde... E já chega! É o que é preciso... O resto é tudo material”

Pedro de Mello

Natural de Lisboa
Empresário. É o filho mais velho da família Mello, que tem participações em empresas como a Brisa, a José de Mello Saúde, a CUF, a José de Mello Imobiliária, a Efacec e a EDP, vive em Portugal

“O ser humano gosta de tornar complicado o que é simples”

Ramiro Fernandes

Natural de Vimioso
Empresário. Detém a Ambulâncias e Transportes Funerários de Ménilmontant, França

“Todos nós temos um sonho a realizar”

Rogério de Carvalho

Natural de França
Consultor da área financeira em França

“Há oportunidades imensas na lusofonia”

Yvan Roque

Natural de Minas do Lousal, Grândola
Presidente da HO.RE.CA. (hotelaria e restauração), Bélgica

“Sou português e serei sempre português”