Morreu Jacques Vergès, o “advogado do Diabo”

Tinha 88 anos e nos últimos meses estava debilitado depois de uma queda. Não sobreviveu a uma paragem cardíaca.

AFP
Foto
AFP

Saddam Hussein, Carlos, o “Chacal”, Klaus Barbie estão entre aqueles que tiveram Jacques Vergès como seu advogado. A lista de “clientes”, que incluiu terroristas, criminosos de guerra ou serial killers valeu-lhe a alcunha de o “advogado do Diabo”. Morreu nesta quinta-feira, aos 88 anos.

“Como pode ser o advogado de Saddam Hussein?”. A questão foi colocada por muitos e em 2004 foi feita directamente a Vergès pelo diário France Soir. “Defender Saddam não é uma causa perdida. Defender [o Presidente dos Estados Unidos Geroge W.] Bush é que é uma causa perdida”, respondeu aquele que foi um dos nove advogados que representaram o antigo ditador iraquiano, após a sua detenção em Dezembro de 2003.

Esta não terá sido a primeira vez que o francês foi confrontado com o porquê de se disponibilizar para defender alguns dos “monstros” do mundo. A esta questão e a muitas outras respondeu com ironia e humor, como quando em 2007 sugeriu ele próprio que fosse dado o título "O Advogado do Terror" ao documentário de Barbet Schroeder sobre o controverso advogado.

O anúncio da sua morte, na quinta-feira, aos 88 anos, foi feito pela editora das suas memórias, publicadas em Fevereiro sob o título De mon propre aveu - Souvenir et rêveries. “Jacques Vergès morreu de paragem cardíaca às 20h no quarto de Voltaire, precisamente no Voltaire em Paris, quando se preparava para jantar com amigos. Um lugar ideal para um último acto teatral que foi a morte deste nascido actor que, como Voltaire, cultivou a arte permanente da revolta e volte face”, escreve a editora Pierre-Guillaume de Roux.

O presidente do Conselho Nacional de Advogados francês recorda, em declarações à AFP, que Vergès estava debilitado depois de ter sofrido uma queda há alguns meses. Estava magro e caminhava com lentidão. “Ele tinha dificuldades em falar mas intelectualmente estava intacto”, sublinha Christian Charrière-Bournazel.

Vergès nasceu em 1925 na Tailândia, filho de mãe vietnamita e pai francês. Durante a sua juventude integrou as forças francesa livres, com as quais combateu na Argélia, Marrocos, Itália e em França. Aderiu depois ao Partido Comunista, estudou Direito e em 1955 estava já inscrito na ordem de avogados em Paris.

Na Argélia conheceu aquela que viria a ser a sua mulher e que foi um dos seus primeiros casos de justiça. Djamila Bouhired, condenada à morte em 1957 por ataques bombistas, acabou por ver a pena revista e casou com o advogado francês, com que teria dois filhos.

Este seria apenas o início de uma carreira associada à defesa dos criminosos mais indesejados. Foi próximo de várias individualidades políticas, bem como de membros do terrorismo internacional nas décadas de 70 e 80. Assumiu ou quis assumir a defesa de nomes que marcaram a história pelas piores razões. Entre estes destacam-se o venezuelano Carlos, o “Chacal”, o activista libanês Georges Ibrahim Abdallah, o criminoso de guerra Klaus Barbie, o ditador jugoslavo Slobodan Milosevic ou o antigo dirigente dos Khmer vermelhos Kieu Samphan.

"Acredito que todos, independentemente do que tenham feito, têm direito a um julgamento justo", disse numa entrevista dada em 2008 à revista alemã Der Spiegel.

"O público é sempre rápido a dar o rótulo de 'monstro'. Mas os monstros não existem, tal como não existe o mal absoluto. Os meus clientes são seres humanos, pessoas com dois olhos, duas mãos, um género, e emoções. É isso que os torna tão sinistros”, acrescentou.

Apesar do polémico percurso, o poder de Vergès na sala do tribunal foi destacada por alguns dos advogados ouvidos pela AFP. Isabelle Coutant-Peyre, que iniciou a sua carreira com Vergès enquanto elemento da equipa de defesa de Carlos, recorda a “oportunidade incrível” que foi trabalhar com aquele advogado. “Ele tinha uma visão política exemplar do que é ser advogado e uma experiência única nas grandes lutas do século XX”.

Gilbert Collard, advogado e deputado pela Frente Nacional, de extrema-direita, também lembrou Vergès. “Quando ele defendeu Klaus Barbie, eu estava do lado da parte civil. Eu estava do lado bom, ele estava do lado mau, mas é isso que faz a democracia”, contou.