Visita a fábricas desperta grande interesse no município mais pequeno do país

Os lápis da Viarco, os sapatos da Helsar e os chapéus da Fepsa são algumas das estrelas do Património Industrial de São João da Madeira
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Os lápis da Viarco, os sapatos da Helsar e os chapéus da Fepsa são algumas das estrelas do Património Industrial de São João da Madeira ADRIANO MIRANDA

Já se perspectiva a criação de uma rede nacional de turismo industrial a partir dos bons resultados de São João da Madeira. Circuitos pelo Património Industrial no concelho já têm três mil clientes/mês e dão lucro.

É a última visita deste Agosto. Teresa Cardoso, educadora de infância de Gondomar, sai da fábrica da Viarco, em São João da Madeira. E sai satisfeita. "Muito surpreendida, não fazia a mínima ideia de como se faziam os lápis. Acompanhámos o processo nesta fábrica-museu." Ficou a pensar nas palavras que ouviu ao gerente da única fábrica que produz lápis no país. "Lembrou-nos que por detrás de um produto estão funcionários com nomes, sublinhou o valor do trabalho, e mostrou-nos como visitar a Viarco é regressar à nossa infância." Quem é que nunca teve um lápis feito aqui?

Em Fevereiro do ano passado, São João da Madeira arrancou com um roteiro turístico para mostrar o que tem de melhor nos modestos oito quilómetros quadrados do concelho. Os Circuitos pelo Património Industrial nasceram para mostrar seis fábricas em laboração e três instituições em actividade. A Fepsa, líder mundial na produção de feltros para chapéus, a Cortadoria Nacional de Pêlo, que transforma pêlos de animais em matéria-prima para a chapelaria e o vestuário, a Helsar, que faz sapatos de senhora de alta qualidade, são outras fábricas que abrem as portas aos turistas. Tal como a Evereste, a fábrica que produz os sapatos para homem concebidos pelo estilista Miguel Vieira, ou a Heliotêxtil, que é especialista em etiquetas de tecido. Destes circuitos fazem ainda parte o Museu da Chapelaria, o Centro de Formação da Indústria do Calçado e o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal. É o primeiro roteiro nacional organizado que propõe visitas a empresas em plena laboração.

Conceição Silva também é educadora de infância, mas em Santa Maria da Feira. Visitou a Viarco e prepara-se para conhecer o Museu da Chapelaria. "É uma óptima iniciativa, uma oportunidade única de conhecermos processos industriais. Penso que ninguém imagina que o lápis passa por tantas fases e que pode demorar três meses até ficar pronto", comenta. Ficou com vontade de regressar com a sua escola. "A visita sensibiliza-nos para a utilização que damos ao lápis e para a importância de usarmos produtos nacionais."

Os Circuitos pelo Património Industrial chegaram a Junho com 17.475 visitas, quando no ano anterior, de Fevereiro a Dezembro, esse número rondou os 14 mil. Em meio ano, mais visitas do que em 11 meses e uma média de 3000 visitas por mês. Além disso, o projecto atingiu o equilíbrio financeiro e o fiel da balança até pende ligeiramente para o lado dos proveitos: 15.392 euros de receita contra 15.108 euros de despesa.

"Desde o início do ano que os proveitos suplantam ligeiramente os custos e, portanto, o projecto não custa dinheiro aos contribuintes", nota o presidente da Câmara de São João da Madeira, Ricardo Figueiredo. Mas não é esse o principal objectivo do roteiro, que também foi criado para colocar São João da Madeira no mapa turístico nacional e melhorar a motivação e auto-estima de trabalhadores e de empresas. Para Ricardo Figueiredo, este projecto vive por si só por uma razão simples: tudo faz sentido. "É a indústria que temos para mostrar em São João da Madeira. É um produto realmente genuíno e mostrá-lo é prestar um serviço público."

Se as receitas superam as despesas, a tabela de preços poderá ser reajustada, ou seja, os preços das visitas podem descer. Neste momento, e conforme o número de visitantes e escolha de sítios a ver, os valores variam entre os dois e os dez euros por pessoa.

Os maiores custos operacionais prendem-se com os guias que receberam formação específica. Há uma bolsa de 12 guias para as visitas às empresas em laboração, que rondam os 45 minutos, por entre trabalhadores e maquinaria. Os guias fazem visitas guiadas em várias línguas. Português, inglês, francês, espanhol, italiano e alemão são as possibilidades. A maioria dos clientes dos Circuitos chega do Norte de Portugal, mas também há turistas da Bélgica, Coreia do Sul, França, Inglaterra, Suíça, e vários países da América do Sul. Mais de 80% das visitas são de escolas, do 1.º ciclo ao ensino superior. "Este projecto tem uma vocação educativa e formativa muito interessante", realça o autarca.

A Viarco é a empresa mais procurada, com 6447 visitas no primeiro semestre do ano, seguida do Museu da Chapelaria, com 3459. Este roteiro turístico representou um investimento de 600 mil euros, comparticipados a 80% pelo programa ON.2 Novo Norte.