Cascais Eleições marcadas por guerra aberta entre Carreiras e Cordeiro

O autarca do PSD, a quem dois independentes ex-vereadores do CDS ameaçam roubar votos, acusa Cordeiro de não conhecer o concelho. Este critica o trabalho "tipo jardinista" do presidente

São sete os candidatos à Câmara de Cascais, incluindo dois ex-vereadores do CDS que agora se apresentam como independentes, mas é na disputa entre Carlos Carreiras e João Cordeiro que todos os olhos estão postos. A troca de acusações entre o actual presidente da autarquia, que vai pela primeira vez a votos como cabeça de lista, e o antigo presidente da Associação Nacional de Farmácias começou cedo e promete manter-se acesa até ao fim da campanha eleitoral.

Carreiras acusa Cordeiro de "falta de propostas, falta de estratégia e um completo desconhecimento do concelho", enquanto o candidato socialista diz que o autarca social-democrata pouco mais fez do que promover "festas, foguetes e reuniões sociais", num trabalho "tipo jardinista". A guerra entre ambos já levou, aliás, à intervenção da Comissão Nacional de Eleições, que, na sequência de uma queixa da coligação Viva Cascais (PSD/CDS-PP), instaurou um processo de contra-ordenação contra o PS e três jornais pela publicação de um comunicado, por indícios de violação da lei eleitoral. Nesse comunicado, Cordeiro acusava a Câmara de Cascais e as suas empresas municipais de "assumirem dívidas violando flagrantemente, de forma reiterada, a legislação sobre compromissos de despesa pública".

E não se ficam por aí as críticas do candidato socialista, que já acusou o seu mais directo opositor de ser "a bengala autárquica do Governo" e de ter transformado a autarquia, a que preside desde que António Capucho suspendeu funções no início de 2011, na "maior empregadora de boys do PSD". Questionado pelo PÚBLICO sobre os resultados do levantamento que tinha prometido fazer em torno dessa questão, João Cordeiro apontou de novo o dedo a Carlos Carreiras: "Infelizmente, e apesar das insistentes solicitações dirigidas ao presidente da câmara, temos ainda muito pouca informação sobre a política de emprego da Câmara de Cascais, bem como das empresas municipais".

Já o social-democrata até admite que o homem que foi presidente da Associação Nacional de Farmácias durante mais de três décadas "é um candidato forte", mas logo depois acrescenta que "é um político experiente, embora sem grande sucesso e que se distinguiu na defesa dos seus próprios interesses". Sendo públicas as divergências que houve no passado entre João Cordeiro e ilustres dirigentes e ministros socialistas (entre os quais Ferro Rodrigues, que já criticou, aliás, a escolha feita pelo seu partido para a Câmara de Cascais), Carlos Carreiras aproveita para lançar uma farpa: "A candidatura assenta numa incoerência política e ideológica inultrapassável e que não faz justiça ao espírito e identidade do Partido Socialista".

Polémicas à parte, tanto Carreiras como Cordeiro elegem o emprego como prioridade número um. O primeiro diz que quer "continuar a criar cadeias de valor que gerem riqueza e postos de trabalho e que permitem que as pessoas fiquem em Cascais e que vivam em Cascais", apostando ao mesmo tempo em "proteger os cidadãos em situações de maior dificuldade". O segundo, que se apresenta nos cartazes como "o líder que falta a Cascais", garante que se focará no "apoio à internacionalização das empresas", no "apoio no acesso aos fundos comunitários" e na "criação de uma estrutura dirigida para a fixação de novas empresas", propósito para o qual "é fundamental e prioritária a construção do primeiro parque empresarial do concelho".

À presidência da autarquia concorrem ainda Clemente Alves (CDU), Cecília Honório (BE), Nuno Duarte (Partido Trabalhista Português) e dois ex-vereadores do CDS que agora se apresentam como independentes. Um é o dirigente centrista João Sande e Castro, que diz que entra na corrida porque Carlos Carreiras imprimiu no município "uma mudança de orientação com a qual não concorda", e a outra é a advogada Isabel Magalhães, que conta com o apoio de peso de António Capucho.

Carlos Carreiras, cujo resultado eleitoral não deixará de ser prejudicado por essa profusão de candidaturas, é particularmente crítico do fenómeno: "Não vejo nenhuma candidatura independente. Vejo, isso sim, políticos profissionais que usam a etiqueta "independente" de forma higiénica, como purificador dos pecados de uma vida passada", afirma, acrescentando lamentar que o seu antecessor na câmara "se tenha associado a este embuste democrático". Já João Cordeiro, quando questionado sobre se uma eventual dispersão de votos à direita o poderá favorecer, garante que não olha a situação sob esse prisma, preferindo referir que, "neste período de dificuldades e de crise profunda, é importante que todos estejam disponíveis para servir o bem comum".

A Câmara de Cascais é governada desde 2001 por uma coligação PSD/CDS, que alcançou resultados que oscilaram entre os 49,49% (em 2005) e os 53,04% (em 2001). Já o PS nunca conseguiu, nesse período, votações além dos 29,78%. A CDU tem eleito sempre um vereador, feito que o BE nunca alcançou. O Partido Trabalhista Português apresenta-se pela primeira vez a votos no concelho, tendo como cabeça de lista Nuno Duarte, mais conhecido como "Jel", do grupo Homens da Luta. Numa entrevista recente, quando lhe perguntaram se ficaria como vereador caso fosse eleito, o humorista respondeu: "Sim, porque não? Não sei bem o que faz um vereador, se calhar vou ter de descobrir, mas se tiver os votos talvez sim".