Sexo oral e cancro: estudo mostra novas provas

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Michael Douglas foi infectado pelo HPV e teve cancro da garganta LUCAS JACKSON/REUTERS

Estudo analisa evolução dos casos de cancro na faringe e na base da língua, e a sua relação com o vírus do papiloma humano.

Os cancros na região da base da língua e da faringe causados pelo vírus do papiloma humano (HPV, sigla em inglês) são poucos, mas já foram menos. Um estudo no Canadá, que analisou 160 pessoas que tiveram este tipo de cancros entre 1993 e 2011, mostra que o HPV passou a ser a causa mais importante para o desenvolvimento destes tumores, superior ao tabaco ou ao álcool. O estudo foi agora publicado na revista Current Oncology.

Ainda em Junho, o actor Michael Douglas deu voz ao problema no mundo inteiro, quando admitiu que o cancro da garganta que teve foi causado pela infecção do HPV durante a prática de sexo oral. O seu caso parece fazer parte de uma tendência que atinge vários países e que este artigo vem corroborar.

A equipa do Instituto de Investigação para o Cancro do Ontário, no Canadá, utilizou a base de dados de patologias do Centro de Ciências de Saúde de Londres, também no Ontário, para aceder às biópsias feitas em 160 doentes que tiveram cancro na base da língua, na garganta e nas amígdalas. Depois, a equipa procurou nas amostras a presença do HPV 16 e do HPV 18 - duas das estirpes do vírus que mais provocam o aparecimento de cancro.

Os cientistas não identificaram nenhum caso de HPV 18. Mas o HPV 16 foi detectado na biópsia de 91 doentes, o que representa 57% da população estudada. A maioria dos casos era de homens com menos de 60 anos que não fumavam. Até há uns anos, os cancros desta zona do corpo surgiam maioritariamente na população consumidora de tabaco e álcool, mas isso está agora a mudar.

Os cientistas dividiram os 160 doentes em três grupos: os que foram diagnosticados entre 1993 e 1999, entre 2000 e 2005 e entre 2006 e 2011. A proporção de doentes com HPV foi de 25% no primeiro grupo, passando para 68,3 e 61,76% no segundo e terceiro grupos, mostrando uma maior prevalência do HPV, além de um aumento no número de cancros.

A única boa notícia do estudo é que, nos últimos anos, a sobrevivência também tem sido maior. Além disso, os cancros causados pelo HPV mostraram ter, em geral, melhor prognóstico.

"Devido às mudanças das práticas sexuais, a frequência das infecções transmitidas tem aumentado constantemente ao longo das últimas décadas", explica o artigo assinado por quase três dezenas de autores, encabeçado por Anthony Nichols, do Instituto de Investigação para o Cancro do Ontário. "O cancro na orofaringe tem estado especificamente ligado a um aumento do número de parceiros de sexo oral, especialmente nos homens", lê-se ainda no artigo.

A mudança está representada na transição da década de 1990 para a de 2000, em que a maior parte dos doentes passa de homens com mais de 60 anos, com uma história de vida associada ao consumo de tabaco, para homens com menos de 60 anos que não são fumadores.

Esta mudança é um reflexo, por um lado, das fortes campanhas contra o consumo de tabaco das décadas anteriores e, por outro, da primeira geração pós-revolução sexual que foi infectada pelo HPV quando tinha pouco mais de 20 anos. Sabe-se que o vírus demora três a quatro décadas a provocar cancros na garganta.

Como fazer a prevenção

Transmitido sexualmente, o HPV reproduz-se nas células da epiderme. É amplamente conhecido por ser um dos principais responsáveis pelo cancro do colo do útero. Existem 200 estirpes deste vírus, mas o HPV 16, o mais frequente em Portugal, e o HPV 18, o mais agressivo de todos, são os principais responsáveis pelo aparecimento dos cancros, que podem também atingir o pénis, a vagina e o ânus.

O vírus integra-se no ADN das células hospedeiras e, dessa forma, altera o funcionamento de genes que estão ligados ao controlo da divisão celular. Devido à fisiologia do útero, o HPV causa mais frequentemente cancro nesta zona. Ainda assim, só uma baixa percentagem da população que é infectada pelo HPV 16 é que desenvolverá cancro. Isso relaciona-se com o tempo que o organismo leva a debelar o vírus. Quanto mais tempo demorar, maior é a probabilidade de o vírus se integrar no ADN das células e provocar um cancro.

Em Portugal, 70% das mulheres já tiveram contacto com o HPV e 12,7% estima-se que estejam infectadas (não há dados para os homens, por ser mais difícil detectar o vírus). A vacina contra o HPV faz parte do Programa Nacional de Vacinação para as raparigas que fazem 13 anos. É dada numa altura em que a grande maioria das adolescentes nunca teve relações sexuais e, por isso, nunca esteve em contacto com o vírus. As duas vacinas existentes criam imunidade ao HPV 16 e o HPV 18 e evitam, assim, que provoquem cancro no colo do útero e ainda nas outras regiões.

Mas no caso do cancro da garganta causado pelo HPV é o sexo masculino que é o mais afectado. No novo estudo, há 75 homens com cancro devido ao HPV e apenas 16 mulheres. "Há uma maior transmissão do HPV da mulher para o homem do que o inverso", diz ao PÚBLICO Nuno Verdasca, justificando a causa desta desproporção.

O biólogo responsável pelo Laboratório de HPV e Herpes Genital do Instituto Nacional Doutor Ricardo Jorge, em Lisboa, explica que o vírus se multiplica dentro das células da epiderme. Mas só se liberta lá de dentro quando as células morrem e saem da pele, escamando. Como isso ocorre a um ritmo muito maior na região da vagina do que no pénis, "os homens são mais susceptíveis de serem infectados durante o sexo oral", diz o cientista.

Nuno Verdasca concorda que este é mais um argumento para a vacinação se estender aos homens. A Gardasil, uma das marcas de vacinas aplicadas às mulheres, já foi testada em homens até aos 26 anos e teve sucesso. Outra forma de tentar evitar a infecção passa pela prevenção, que "é sempre uma atitude comportamental", lembra o cientista, acrescentando que o preservativo não é 100% eficaz neste caso.

Em Portugal, um estudo, de 2013, mostra que 9623 pessoas tiveram cancro na região oral entre 1998 e 2007. Mais de dois terços eram homens, apesar de haver cada vez mais casos em mulheres. Até ao final deste ano, vai iniciar-se o programa nacional de rastreio do cancro oral. Esta é uma forma de o detectar e tratar cedo, quando há mais hipóteses de o vencer.