O futuro do cinema pode passar por sair da sala escura

Viramundo é a primeira estreia simultânea nos cinemas, nos videoclubes das televisões por subscrição e na Internet em Portugal. A indústria do cinema, tal como a da música ou da televisão, procura novos caminhos perante a pirataria, a crise e os espectadores em fuga

Gilberto Gil vai. Vai ter com comunidades indígenas na sua Amazónia (do país onde foi ministro da Cultura), na sua África do Sul (é o continente dos seus antepassados) ou na Austrália. Canta, toca, discute a colonização e o lugar estranho que é estar algures entre a tradição e um Ocidente à força. O cinema independente, todo o cinema, no fundo, está também num lugar estranho - como recuperar espectadores? Como rentabilizar um filme que a Internet oferece no aqui e agora (e ilegal)? A Alambique Filmes tenta a partir de hoje um novo modelo de distribuição em Portugal: com Viramundo, Gilberto Gil vai a salas em Lisboa, Porto e Coimbra, mas também chega aos videoclubes da TV por subscrição e ao streaming pago na Internet.

É a primeira vez que se tenta atingir tantas plataformas em simultâneo em Portugal, e Luís Apolinário, da Alambique, não tem certezas sobre o resultado. "Não estamos desesperados para que seja um sucesso." Mas sente que tem de tentar. E a União Europeia também. É tudo uma questão de números: a sangria nas idas ao cinema é uma constante em Portugal nos últimos anos -"na Europa as coisas estão mais complicadas, em Portugal é mesmo dramático", diz o distribuidor. São menos 3,6 milhões de espectadores nas salas desde 2012, que exibem sobretudo cinema americano (73,3% de quota de mercado em 2012), os mais vistos no país que prefere ver sequelas e filmes de animação.

"A realidade é o mundo em mudança, toda a cadeia de produção de cinema tem de repensar" o seu funcionamento, considera Apolinário. Entra em cena a europeia Tide Experiment, projecto com apoio da União Europeia (UE) focado na circulação de cinema europeu na era digital que convidou a Alambique a vasculhar o seu pequeno catálogo de filmes para distribuição e forneceu 7/8 mil euros que fazem com que este seja "um filme com uma campanha como a Alambique não tinha há um ano". Depois vieram os videoclubes dos cinco maiores operadores de televisão por subscrição em Portugal - Zon, Meo, Cabovisão, Optimus e Vodafone - e o streaming, replicando a experiência que Viramundo está a ter com a Tide Experiment noutros quatro países da UE.

Coordenada pela Guilda de Argumentistas, Realizadores e Produtores (ARP, na sigla original), a Tide Experiment é apoiada pela UE com 800 mil euros e reúne mais de 30 distribuidores, agentes de vendas e outros agentes do mercado cinematográfico com um objectivo: entre Janeiro deste ano e Março de 2014, estrear quatro filmes europeus (numa segunda fase, serão dez) no espaço comunitário em simultâneo em video-on-demand (VOD, aqui os videoclubes dos operadores de TV por subscrição) e em sala. Luís Apolinário, que acredita que isso vai "valorizar a imagem dos videoclubes", frisa: esta "não é uma desvalorização da experiência da sala de cinema. Gostávamos de ajudar a recuperar espectadores para as salas, que são o espaço natural do filme".

Espaço é também algo que existe entre os portugueses e as salas de cinema de exibição diária: só este mês começará a recuperação de 60 ecrãs encerrados desde Janeiro pelo país e continua a haver distritos onde há apenas um punhado de salas - ou um cinema só - em quilómetros. A Alambique, diz Luís Apolinário, acredita em facilitar o acesso aos filmes a quem muitas vezes escolhe a via ilegal - e sem retorno para a indústria -"por falta de alternativa". É assim que Viramundo, do suíço Pierre-Yves Borgeaud, vai ter o potencial de estar em muito mais salas. Caseiras.

David, Golias e a crise

"Viramundo é uma experiência paradigmática", diz o responsável pela Alambique, pequena distribuidora independente. "No modelo tradicional provavelmente não teria condições para estrear o filme, seria demasiado oneroso." Tem o factor Gilberto Gil, que motivou a escolha da distribuidora portuguesa a partir do lote da Tide Experiment, e representa um "abrir portas para o futuro". É preciso repetir a experiência "com alguma regularidade para que o modelo seja perceptível e mensurável", diz Apolinário.

Esta é a primeira sincronização portuguesa entre salas e o VOD, os chamados lançamentos "day and date" - com a novidade extra do Facebook, através do perfil da Alambique para depois poder ver o filme online por 3,49 euros. Mas já houve aproximações. A própria Alambique, em 2010, lançou no mesmo dia Lola, de Brillante Mendoza, nas salas e em DVD. "Não deu para tirar grandes conclusões, porque não foi feito com os meios necessários", admite Apolinário sobre a promoção da iniciativa. Na mesma altura, os videoclubes das principais operadoras recebiam Entrelaçados, do gigante Disney, seis semanas depois de ter chegado às salas. O prazo da chamada "home premiere" foi encurtado, como frisa ao PÚBLICO por email a Zon, que acrescenta à lista outra experiência recente: Shut up and Play the Hits, o documentário sobre o final dos LCD Soundsystem estreou-se a 25 de Outubro no festival DocLisboa e a 1 de Novembro já estava no videoclube. Zon e Meo não forneceram ao PÚBLICO números sobre estas experiências - os dados sobre alugueres no VOD são há anos matéria não divulgada pelas operadoras, mas o modelo que hoje se estreia obrigará a conhecer números para medir os resultados.

Fonte do Meo diz ao PÚBLICO que ainda "existe um receio natural por parte dos estúdios em perder a receita que têm em cinema e, por isso, o número de experiências realizadas é ainda reduzido e são levadas a cabo com condições comerciais muito particulares. Estes factores fazem com que os resultados sejam para já ainda poucos expressivos". Em 2006, Steven Soderbergh parecia estar a fazer uma experiência invulgar. Lançou um dos seus filmes com menor orçamento, Bubble, no mesmo dia numa cadeia de salas nos EUA e num canal de cabo por subscrição. Quatro dias depois, Bubble saía em DVD. Na altura, os outros exibidores rejeitaram o filme por acharem que o lançamento multiplataformas iria prejudicar a sua parcela do negócio. Hoje, "as janelas de distribuição de filmes estão em transformação, sendo que existe uma convergência entre a janela de distribuição em videoclube e a do DVD", diz ao PÚBLICO por email a mesma fonte do Meo, "e a tendência é que a janela do videoclube comece a sobrepor-se também à janela do cinema".

Luís Apolinário, distribuidor de cinema independente, frisa que não é possível continuar a trabalhar "como há dez, cinco anos - estrear uma cópia em Lisboa e depois levá-la ao Porto e depois ao resto do país. Toda a gente se habituou a ter as coisas disponíveis, os livros, os CD, e se no tempo dos 35mm não era simples desmultiplicar salas e ofertas", agora e em digital é preciso fazer mais. Tudo isto acontece no meio da tradicional luta entre David e Golias, entre cinema de grande orçamento e independente, mas contando com novas personagens - a pirataria e o seu aliado em Portugal chamado crise.

"As distribuidoras têm menos recursos para divulgar os filmes", que se pulverizam se tiverem de se repartir por diferentes lançamentos em sala, em DVD, contextualiza Apolinário. "O cinema independente está a acordar com relativo atraso para uma realidade que existe há anos e que com a crise se agravou muito. As majors já tomaram decisões: os blockbusters tinham estreias faseadas, primeiro nos EUA, depois na Europa; e agora um grande filme estreia globalmente - fora a China- com dez mil cópias no mesmo dia."

O novo modelo de distribuição de cinema desponta. Antes, um filme que ia directamente para vídeo tinha uma letra escarlate ao peito: algo tinha corrido mal, nem valia a pena investir num lançamento em sala. Agora, "videoclube" começa a ser outra coisa. A Paramount (Star Trek, Transformers) anunciou este Verão que vai lançar-se no day and date com filmes independentes. E primeiro as senhoras, neste caso Naomi Watts e Robin Wright, com Adore, que chega ao cinema e ao VOD a 6 de Setembro. No Reino Unido, The Late Quartet, com Christopher Walken e Philip Seymour Hoffman, chegou a 5 de Abril aos cinemas e ao VOD; A Field In England, de Ben Wheatley, tornou-se em Julho o primeiro filme a ser lançado no mesmo dia nas salas, na TV, em VOD e DVD. Prevê-se o mesmo para outros indies como Sarah Polley (com Stories We Tell) ou Olivier Assayas (com Something in the Air).

"Porque não deixar as pessoas decidir por si onde e como preferem ver o nosso filme?", pergunta no seu site a distribuidora britânica Ellen Tolsma, que enfrentou os temores do mercado holandês quando, em 2009, lançou Quem Quer Ser Bilionário em DVD com o filme oscarizado ainda em sala. "O que todos temíamos não tinha acontecido: o DVD não canibalizou o cinema", conta, acreditando que lançamentos simultâneos "desencorajarão os downloads ilegais e até podem aumentar a receita bruta do filme ao maximizar o impacto da campanha de marketing".

Entretanto, como um trailer para o Verão, os pais dos blockbusters estivais, Steven Spielberg e George Lucas, avisaram em Junho: o modelo actual de grandes filmes e enormes orçamentos está por um fio (e, nem de propósito, vários blockbusters afundaram-se este Verão nas bilheteiras norte-americanas, mas as receitas globais de sequelas e animação equilibram ainda a balança). A indústria e os media ainda comentam essa previsão cataclísmica. Mas os criadores de Tubarão e Guerra das Estrelas previram outro cenário: as salas de cinema tenderão a tornar-se um negócio de nicho, especializado, que se comportarão mais como teatros com longas residências de um punhado de títulos, passando o consumo de massas para o VOD caseiro e o streaming na Internet.

"É uma leitura pertinente e inteligente", comenta Luís Apolinário, que ainda assim reserva prognósticos para o fim do jogo. "Temos de ter em perspectiva que as pessoas gostam de ver filmes, que trabalhamos para os espectadores", diz o distribuidor português que hoje lança Viramundo em Portugal. "O que importa é não ter medo de fazer experiências, não vale a pena ter medo destes novos tempos - mas que eles são assustadores, são."