As imagens do filme perdido de Jerry Lewis sobre o Holocausto

O vídeo surgiu no YouTube no dia 10 e a história do filme maldito foi desenterrada outra vez. São já muitos os que pedem para que seja finalmente lançado, mais de 50 anos depois da ideia que lhe deu origem.

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The Day the Clown Cried é o filme nunca lançado de Jerry Lewis sobre o Holocausto, um projecto maldito desde o seu início, no princípio da década de 1960, até hoje. Muito poucos o viram na íntegra, mas esta semana reemergiram algumas imagens da sua rodagem. Os cinéfilos dedicam-lhe tal atenção que, ao saber dos clips na Internet, a revista New Yorker classificou a possibilidade de conhecer estas imagens como “um milagre cinematográfico”.

O utilizador do YouTube que assina como unklesporkums e que se descreve como actor no vídeo de apresentação do seu canal colocou online a 10 de Agosto o que parecem ser imagens que documentam a feitura do filme com o comediante americano, hoje octogenário e ainda defensor de que o filme de 1972 nunca veja a luz do dia. Já em Abril de 2012 o site Cobra.be mostrava as mesmas imagens, que não serão as primeiras a ser conhecidas dos bastidores do filme (o canal Biography terá também algumas cenas).

Com legendas em holandês, o vídeo de cerca de sete minutos mostra Lewis a testar um número em que brinca com uma vela e o acender de um cigarro vestido com uma camisa de riscas, suspensórios e nariz de palhaço, mas também permite vislumbrar o cantautor francês Serge Gainsbourg e a actriz e cantora Jane Birkin no local de filmagem. A participação ou não de Gainsbourg em The Day the Clown Cried  permanece um mistério, pois o seu nome aparecia associado ao projecto apesar de nunca ter constado do seu currículo oficial.

A história por trás deThe Day the Clown Cried é o testemunho de uma era: Joan O’Brien, que trabalhava em relações públicas, concebeu no início dos anos 1960 – altura em que nem o termo Holocausto era muito usado no contexto da Segunda Guerra, nem os trabalhos sobre a Alemanha nazi eram comuns - a ideia de um filme sobre um palhaço enviado para um campo de concentração, no qual tenta entreter as crianças judias ali detidas. A personagem, que viria a chamar-se Helmut Doork e a ser interpretada por Jerry Lewis, um dos mais conhecidos actores de comédia da época (e do século XX), acaba por se sacrificar juntamente com as crianças na câmara de gás.

Mas se Joan O’Brien teve a ideia, associou-se depois a Charles Denton para escrever um guião que, na fase de filmagens, seria alterado por Lewis. O actor e realizador do filme entra em campo pela mão do produtor Nathan Wachsberger, que não só não tinha dinheiro para financiar o filme, como não tinha adquirido os direitos a O’Brien. Foi Jerry Lewis que o financiou, porém a relações públicas nunca autorizou o lançamento do filme nas salas, descontente com as mexidas no seu guião. A história é contada na biografia de Lewis, King of Comedy, e citada agora pela New Yorker para analisar o “milagre cinematográfico” que é o emergir destas imagens na Internet.

Não foi só O’Brien a barrar a divulgação do filme. Também Lewis é um fervoroso adepto da sua inutilidade: fala em “embaraço” quando se refere a ele. Em Janeiro, disse em Los Angeles que sentia “vergonha da obra” – ainda bem “que tinha o poder de o conter e nunca deixar ninguém vê-lo. Era mau, mau, mau. Podia ter sido poderoso, mas escorreguei”, admitiu, citado pela publicação Hollywood Reporter. “Nunca será visto.” Harry Shearer, comediante e voz de várias personagens de Os Simpsons, é um dos mais famosos entre os raros espectadores do filme. Em 1979, terá visto uma primeira versão de The Day the Clown Cried – que, segundo Lewis anunciara em 1973, chegou a estar previsto para uma projecção no Festival de Cannes – e arrasou-o numa sempre citada entrevista em 1992 à revista Spy: “O filme é tão drasticamente errado, o seu pathos e a sua comédia estão tão absurdamente deslocados.” Chega mesmo a compará-lo com “um quadro em veludo negro de Auschwitz”, frisando que “não é engraçado e não é bom”.

A história do filme, desde o facto de o palhaço ter sido preso por ter sido apanhado na rua, embriagado, a troçar de Adolf Hitler, até ao final com a caminhada das crianças e do palhaço rumo à câmara de gás, é conhecida porque o guião há muito foi tornado público. A revelação destas imagens fez com que tenham surgido algumas novas invectivas ao lançamento do filme. Richard Brody, na New Yorker, desvaloriza as dúvidas de Lewis sobre a sua actuação e elogia mesmo a comédia física do actor numa das cenas. No site Pop Matters, escreveu-se uma carta aberta em que se pede o lançamento do filme. No YouTube, muitos dos que viram o clip mais recente pedem o mesmo.