Opinião

Cercados

As diferentes agências de notícias, TV’s e jornais, tanto internacionais como portugueses, preparavam-se na terça-feira para anunciar o fim da recessão na Europa. Por exemplo, o Financial Times escrevia que parecia claro que a pior crise económica em tempo de paz –desde a grande recessão –estava terminada para a Europa. Ou seja, havia-se atingido na Eurozona um crescimento de 0.2% e no Japão e Reino Unido de 0.6% (ou seja três vezes mais, mostrando o quanto a Europa ainda está debilitada).

Este crescimento na Eurozona é pequeno, mas parece portanto ser boa notícia, no geral é uma boa notícia, mas boa para quem? Para poder responder de forma concreta, precisamos de primeiro olhar para a capa do Le Monde, também do dia 13 de Agosto, o título que sobressai diz “Os bons resultados das grandes empresas mundiais”e lendo percebe-se que em média as 2600 maiores empresas mundiais apresentam um aumento das suas vendas no último ano na casa dos 2% e de lucros acima dos 12%. No global, segundo a Bloomberg, nos Estados Unidos os 500 primeiros grupos norte-americanos atingiram margens de 9.3% face ao seu valor de negócios e, assim, regressaram ao tipo de resultados do período pré-crise de 2008.

Não há dúvida que as notícias são boas para os Governos Europeus da zona euro, sejam eles de esquerda ou de direita ou coligações de identidade difusa no espectro ideológico, pois todos os governos podem reclamar para si as boas notícias - apesar de na maioria dos casos a média de crescimento do conjunto depender tanto ou mais do parceiro europeu do lado do que si próprios. E, as notícias são também boas para as grandes empresas Europeias que disputam mercados dentro e fora da Europa.

No entanto, as boas notícias não resolvem por si só duas dimensões estruturais dos problemas de cada país da zona Euro. Esses problemas são as dívidas nacionais dos países (todos, mesmo a Alemanha, têm uma gestão da dívida pública que teráfuturamente de ser feita de forma diferente da actual) e o que fazer a todos os bancos (todos, mesmo os alemães) e ao facto, confirmado pelas instituições de regulação europeias e internacionais, de a sua debilidade ser ainda extrema, apesar de quase seis anos de injecções financeiras de dinheiro público e de múltiplas tentativas de resolução negociada de novas formas de regulação a nível nacional e europeu.

As boas notícias não resolvem também, o maior problema de todos, maior porque é-o em número de actores individuais e colectivos neste processo que assumiu o nome técnico de “grande recessão”e que na gíria se denomina “crise”, ou seja, os problemas dos cidadãos europeus e das pequenas e médias empresas europeias.

Porque governar só faz sentido se for feito para as pessoas e não para grandes organizações (as quais poucas pessoas envolvem) e porque a riqueza e o emprego sóse gera (pelo menos na Europa) por via dos milhões de pequenas empresas, esta indicação de crescimento que alegra Governos e grandes empresas não deve trazer grande felicidade a todos nós, pois não resolve ainda os nossos problemas.

O crédito continua a não fluir, porque ninguém no sistema bancário confia ainda o suficiente nos outros bancos seus parceiros. E, não havendo crédito, não se gera riqueza porque as pequenas empresas não podem investir. Há de facto dinheiro a circular no sistema, mas é aplicado no empréstimo aos Estados da zona euro que, seguros pelo BCE, oferecem taxas de juro que permitem lucros certos e garantidos ao sistema bancário europeu. Ou seja, estamos todos a trabalhar para o médio prazo, que é quando se espera que tudo fique mais ou menos como estava antes de 2008.

Mas, no entretanto, há outro problema não resolvido, o do emprego. Porquê? Porque todos os analistas e gestores financeiros sabem (embora acredite que nem todos os governantes europeus o tenham presente) que é perfeitamente possível, no curto prazo, crescer o lucro das empresas despedindo pessoas –ou reduzindo salários quando possível - e que esse é o manual de gestão utilizado na maioria das grandes empresas globais para apresentarem resultados aos seus accionistas mesmo em tempo de recessão. E, também, deveríamos saber que produto da introdução das tecnologias de informação e no moldar das nossas sociedades em sociedades em rede, háuma clara transformação da relação entre emprego e geração de riqueza numa série de actividades das nossas indústrias e dos nossos serviços - simplificando, podemos dizer que são hoje precisas menos pessoas para garantir uma dada rentabilidade empresarial em certas actividades. E, ainda, que o experimentalismo europeu de e com as Troikas não fez apenas erros com multiplicadores, errou também no grau de disrupção do know how industrial existente, pois o downsizing/ajustamento é muito difícil de fazer com pequenas e médias empresas e, consequentemente, leva à destruição total e não parcial do emprego.

Ou, que todos os analistas das estatísticas de emprego sabem que, quer na Eurozona do Sul quer na do Norte, os períodos de férias de praia, neve ou campo geram contra-ciclos, aumentando a criação de emprego em ciclos de crescimento económico e, em ciclos de crise, promovem a redução da destruição de emprego.

Ficar contente, mesmo que contente com cautela e precaução, por regressarmos, no actual contexto, àperformance das grandes empresas no pré2008 e às taxas de crescimento de “0.qualquercoisa%”é mau, muito mau mesmo.

É mau, porque para todos os cidadãos e para todas as pequenas e médias empresas europeias (e espero que para os Governos atentos também o seja) quer dizer viver num cenário onde, por um lado, há menos riqueza para ser distribuída e, por outro, hámaior desigualdade de rendimentos para os cidadãos e redução de capacidade de alavancagem para gerar riqueza pelas pequenas e médias empresas.

Ou seja, se nada mais fizermos (e contentes ficarmos) com o que estáa surgir no radar apenas podemos esperar que em Portugal e na restante Eurozona, tenhamos menor capacidade de criar riqueza, assistamos ao incrementar da tendência de concentrar a riqueza num cada vez menor número de pessoas e de grandes empresas, diminuindo assim a capacidade de criação de emprego e criando uma sociedade assente em cada vez maiores desigualdades, no medo de deixar de pertencer às classes médias (cada vez mais frágeis) e no condicionamento de facto do livre acesso ao empreendedorismo e àliberdade empresarial. 

Se acharmos que tudo está bem se todos os que eram fiéis à crença na austeridade passarem a professar agora o crescimento,  se acharmos que os que desde sempre acreditaram no crescimento não precisam de combater a desigualdade para conseguirem gerar riqueza, então continuaremos, em Portugal e na Europa (incluindo na Alemanha), cercados numa sociedade que se contenta com tentar gerar riqueza, sem perceber que sem melhor repartir aquela, para além do 1% que a acumula actualmente, não serápossível retomar nem a riqueza de ontem, nem o emprego que os que hoje têm 40 anos conheceram no final do século XX e no início do século XXI. 

Gustavo Cardoso é docente do ISCTE-IUL em Lisboa e Investigador do Centre d'Analyse et Intervention Sociologiques (CADIS) em Paris.