Serra da Culebra, um refúgio para homens e animais

Foto
Pelas ruas quase desertas o silêncio é tanto que se ouvem talheres a tinir nas cozinhas

Há veados que visitam as aldeias, lobos a uivar nos montes e águias-reais a planar no céu. E povoações onde se desfruta de um sossego ímpar, como Santa Cruz de los Cuérragos, onde o tempo parece parar até nos sentirmos fora deste mundo. Partirmos à descoberta das suas ruas quase desertas e encontrámos o paraíso no Vale dos Infernos. Ana Pedrosa (texto) e António Sá (fotos)

Que espécie de águia será a que plana no céu, lá bem em cima, entre farrapos de nuvens que se estiram como algodão doce? Os binóculos estão pousados na erva, o guia de aves também. Perdemos a noção do tempo, entretidos a ver a brisa brincar com as copas das árvores, a fazer bailar as flores nos prados. Não fossem os trinados dos pássaros empoleirados nos arbustos, não se ouviria um único som. Nenhum sino a anunciar as horas, nenhum carro a rodar no asfalto, nenhuma voz a elevar-se para chamar o vizinho. Dir-se-ia que nos encontramos no fim do mundo, fora do mundo. E, no entanto, há uma aldeia a poucos passos daqui. E outra a quatro quilómetros, mais um rosário de povoações nos 26 quilómetros que nos separam de Puebla de Sanabria. A Bragança chega-se em menos de uma hora, por uma estrada sinuosa, que se desenrola entre searas, pinhais e as margens apetecíveis do rio Maçãs, onde há prados para piqueniques à sombra dos ulmeiros.

Estamos no sopé de Peña Mira, o mais alto (1243 metros) dos picos quartzíticos da serra da Culebra, cordilheira cujo traçado sinuoso faz lembrar o dorso de um imenso réptil. Dizem que vem daí o seu nome, embora haja quem garanta que este se deve à quantidade de cobras que em tempos existiam na região.

O que agora existe neste espaço natural protegido, que integra a Rede Natura 2000, é a maior população de lobos da Europa Ocidental, um grande número de veados, corços, texugos, gatos-bravos, raras aves de rapina e outras espécies que encontram abrigo numa área cada vez mais despovoada.

Uma aldeia, três homens

É esta escassez de gente que faz com que se sinta um sossego ímpar em Santa Cruz de los Cuérragos, aldeia de uma só rua, de onde saem várias vielas em direcção a hortas e soutos. O silêncio é tanto que se ouvem talheres a tinir numa cozinha e as vozes chegam cá fora já desfeitas em murmúrios. Nem os gatos miam; deslocam-se com cautela de muro em muro ou espreitam-nos entre os vasos das varandas. Ninguém a quem dizer bom dia, a não ser um cão afável que se aproxima a pedir festas, logo seguido por um dono pouco dado a conversas.

Vale-nos Fernando, dono do único estabelecimento da povoação, um centro de turismo rural com cinco quartos, restaurante e balcão aberto a quem estiver sedento de um café ou uma bebida fresca. Por sorte, Fernando não é parco em palavras. Num instante ficámos a conhecer episódios de uma vida cheia de aventuras deste marinheiro que, cansado de mares agitados e bares fumarentos, encontrou um porto de abrigo nesta aldeia isolada. Sonhou este projecto com a mulher de três décadas. Quando enviuvou ficou a ser um dos três homens que habitam a aldeia no Inverno, num recolhimento que ele classifica de "horroroso, horroroso". As coisas animam um pouco quando, na Semana Santa, chegam as abuelitas. Como formigas incansáveis, são elas quem trata das hortas primorosas, quem colhe as maçãs dos pomares, quem semeia as batatas que Fernando nos serve ao almoço, quem apanha as castanhas. Depois vão-se embora, para Zamora, onde passam os meses frios com os filhos e os netos.

Fernando não lamenta a opção. "Viver aqui é barato, simples, e de uma tranquilidade...". Há semanas em que não gasta um só euro, tendo por companhia as prateleiras repletas de livros e os animais que encontra quando sai para o monte. Além disso, a sua solidão tem os dias contados. Com casamento marcado para Setembro, em breve chegará a nova companheira com quem irá partilhar as horas e os passeios.

Na verdade, no decorrer dos séculos pouco tem mudado em Santa Cruz. Um excerto do Diccionario Geográfico-Estadístico de España, datado de 1847, dá conta que na altura ali viviam 18 almas, dedicadas ao cultivo de "centeio, algum vinho, feno e hortaliças", à criação de gado e à caça da abundância de "lebres, coelhos, perdizes, corços e veados". Como indústria, registam-se várias colmeias e um moinho. Do património construído constava a igreja, "uma fonte de muito boas águas" e "dez casas, quase todas com parreiras que formam um cenário bastante pitoresco".

À excepção dos rebanhos, que já não deambulam pelos montes, a descrição poderia ter sido feita hoje. A igreja continua a abrir as portas para as missas ocasionais, rezadas por um padre bielorrusso. Dali saem também os andores para as festas de Santa Cruz, em meados de Setembro, e da padroeira Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Maio, devoção mais recente e comum a muitas povoações da raia. Da fonte ainda brota uma água fresca e límpida, o moinho, agora em desuso, perdura na margem sombria do rio Manzanas, enquanto várias colmeias providenciam o mel escuro de urze.

Em dois séculos, só o número de casas cresceu, embora sejam pouco mais de uma dezena as que se encontram em condições de habitar. As restantes entregam-se de novo à natureza, com silvas a espreitar à janela, árvores a assomar dos telhados caídos e heras a trepar pelas paredes até às varandas sem parapeito, num esplêndido declínio que parece embelezar ainda mais a povoação, classificada de Interesse Turístico-Cultural.

Um inferno paradisíaco

Se dificilmente se encontrará melhor lugar para descansar do ritmo citadino, ver as nuvens a passar não é, decerto, a única actividade levada a cabo por estes lados. Vários percursos pedestres dão-nos a conhecer as paisagens e história da região. Daqui, podemos subir até às arribas de Peña Mira, fantástico miradouro sobre a imensidão de colinas da Serra da Culebra, conhecer as ruínas do Castro antigo, descer ao moinho, até seguir os caminhos ilícitos da Rota do Contrabando, negócio responsável pela prosperidade da região em finais do século XIX.

Nós optamos por descer às profundezas sombrias, ou melhor ao Vale de los Infiernos. Uma placa informativa situada nas antigas eiras, actualmente o parque de estacionamento à entrada da aldeia, deixa-nos, por ora, descansados. A distância é curta (1500 metros) e o desnível aceitável (130 metros). O início é prometedor e aromático, por um caminho largo rodeado por estevas logo abraçado por urzes. A partir de certa altura o trilho vai estreitando, tornando-se menos evidente, mas não há forma de nos perdermos; basta seguir as pedras no chão e as ocasionais mariolas. No morro oposto, procuramos sinais de vida: as hastes de um veado, um movimento súbito, um perfil no topo das fragas que despontam entre o matagal. Mas o sol ainda vai alto. A esta hora os animais maiores estão recolhidos e só as aves de rapina nos fazem companhia. Deixamos de as ver quando nos embrenhamos num túnel formado por árvores e arbustos de grande porte. Castanheiros, cerejeiras bravas e pilriteiros crescem aqui desmesuradamente. Enormes são também os fetos que surgem a seguir, quando já se ouve o rumor da água. O caminho fica então atapetado por musgos e são agora os amieiros a providenciar a sombra.

Num instante chegamos à Ponte de los Infiernos. Mas não há águas violentas a rugirem ao fundo, nem plantas ameaçadoras a erguerem-se como garras, embora as raízes se enlacem umas nas outras como nós fantasmagóricos. É fácil imaginar que não será o lugar mais aprazível para se estar em noites de Inverno, quando o vento agita os ramos com ruídos ambíguos e o nevoeiro cobre as silhuetas de mistério.

O que vemos, agora que repousamos aos pés da ponte construída no século XVII como via de ligação de Santa Cruz à vizinha Robledo, é um mundo encantado onde esvoaçam borboletas e libelinhas. O rio Manzanas flui com vagar, rodeado de mil tons de verde, do verde translúcido das folhas dos castanheiros que filtram a luz em tons suaves ao verde escuro dos musgos que, com as heras, cobrem o xisto da ponte. Há líquenes de um verde-acinzentado a penderem numa melancolia suave, tenras ervas rasteiras alegradas pela cor de flores pequeninas e até rãzinhas verdes, que saltam para os charcos quando sentem a nossa presença. Continuamos rio acima por um bom bocado, transpondo raízes deitadas nas margens e apanhando seixos redondos para lhes sentir a macieza, quando paramos para refrescar os pés em pequenos açudes.

No regresso à aldeia ainda teremos tempo para descansar junto a um castanheiro centenário, tão grande que uma família de quatro não o conseguiu abraçar, por mais que esticássemos os braços e os dedos. Razão tinha o aviso à entrada do souto, "cada castanheiro é uma quinta", que pedia aos visitantes para não colherem castanhas junto a árvores assinaladas.

Uivos e bramidos

"Ainda ontem, à hora de almoço, esteve aí um, no sítio onde está o vosso carro." Falávamos de veados, com Félix, o dono de um café em Linarejos, onde parámos para comprar água para o caminho. Conta que em dias de chuva costuma descortinar as pegadas dos herbívoros até à entrada da aldeia, e não é raro deparar com um grande macho a cruzar as estradas de pouco trânsito. Extintos na região no início do século passado, a serra da Culebra foi repovoada com alguns exemplares em meados dos anos 1970. Hoje, calcula-se em cerca de um milhar o número de veados que percorrem a serra, estabelecida como Reserva Regional de Caça. Na altura do cio, em meados de Setembro, o crepúsculo inunda-se de bramidos roucos, e então é ainda mais fácil avistá-los, nas clareiras dos pinhais. Mais difícil é deparar com um lobo, embora haja referência a oito alcateias a deambularem pelos montes, naquela que está considerada a maior densidade de lobos da Europa. Pode acontecer ver algum ao longe mas, se não andar acompanhado por quem conhece bem os seus hábitos, o mais certo é ouvir um uivo longínquo depois de anoitecer. Várias empresas da região já exploram este filão turístico (ver caixa), organizando saídas para tentar avistar - e fotografar - estes predadores de tão imerecida má fama. É possível que dentro de alguns anos a conservação da espécie seja mais lucrativa do que as licenças de caça atribuídas a quem paga bem para ter um troféu cinegético.

Partimos com a sensação de não termos sido bafejados pela sorte. Os veados esconderam-se dos nossos olhares por mais que os procurássemos do cimo das colinas, e dos lobos só ouvimos as muitas histórias que Fernando tem para contar. Foi então que, numa curva apertada, um par de corços se nos atravessou ao caminho, saltitando até desaparecer no meio do arvoredo. No céu, entre as nuvens, pareceu-nos descortinar a silhueta majestosa de uma águia-real. Vigiada lá de cima, parece que a serra está bem entregue.