A cidade cinzenta que é um arquipélago verde

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À esquerda, o Mauerpark, onde, ao domingo, se monta um mercado de usados ao ar livre. Mas não precisa de ser domingo para estar cheio de gente: pela hora de almoço, o cheiro a churrasco invade o ar. À direita, a floresta de Grunewald, hoje a maior área verde da capital alemã NELSON GARRIDO

A cidade do betão e das ruínas da Guerra Fria é uma história mal contada. Com os seus lagos, biergartens, parques e florestas no interior da cidade, a capital alemã é uma das cidades mais verdes da Europa. E revela-se totalmente nos meses de Verão. Pedro Rios

É verde, é doce, mas é mesmo cerveja aquilo que nos desce pela garganta. Corre através de uma palhinha, que faz parte da experiência Berliner Weisse, uma bebida que mistura a cerveja com xarope de frutos ou plantas. Estamos em Berlim, mas conseguimos facilmente esquecê-lo: à nossa volta, neste biergarten (um "jardim de cerveja", numa tradução literal), há árvores e o lago Glienicke, cujas margens formam uma espécie de praia. Ao fundo, o castelo de Babelsberg, já na vizinha Potsdam, onde se chega através de uma caminhada entre a vegetação, percorrida a ponte de Glienicke, local de espiões na Guerra Fria.

Pode não parecer, mas estamos mesmo em Berlim, a cidade do betão, das mil variações de cinzento, dos prédios descolorados pelo tempo, deixados vazios pelo fim da divisão Este-Oeste. É o que dizem que ela é, mas é mais - muito mais. Uma visita no Verão à capital alemã revela uma das cidades mais verdes da Europa, com mais de 12 mil hectares de jardins e parques e 16 mil hectares de floresta a representarem juntos um terço da área urbana. E o lago Glienicke é apenas um entre as muitas zonas de água que perfazem 7% de Berlim.

Em 1930, o francês Jean Giraudoux escreveu que Berlim "não é uma cidade de jardins", mas "um jardim em si mesmo". Em 1977, o arquitecto Oswald Mathias Ungers imaginou Berlim como um "arquipélago verde" - natureza a circundar ilhas de população e cidade.

Estas ideias podiam surgir-nos no biergarten onde bebericamos a nossa Berliner Weisse, numa espreguiçadeira, longe do bulício, não estivéssemos nós muito afincados na missão do dolce fare niente. Estamos num dos muitos recantos para amantes da cerveja e do apfelschorle (um sumo de maçã) de Wansee, no sudoeste de Berlim. No Verão, a longa praia de Strandbad Wannsee enche-se de berlinenses que vão a banhos num grande lago.

Aproveitar o sol, oferecido em doses razoáveis nos meses estivais (a Fugas teve direito a temperaturas superiores aos 30 graus, coisa rara mas não impossível), é, aliás, especialidade local. Vemo-lo quando pomos os pés no Mauerpark, onde, ao domingo, se monta um mercado de usados ao ar livre - móveis, discos, jóias e roupas amontoam-se nos esguios corredores. O mercado acontece de manhã. Ali ao lado, pela hora de almoço, o cheiro a churrasco abre-nos a fome e convida-nos a ficar para o karaoke que vai juntar, como é hábito, umas centenas de pessoas no anfiteatro do Mauerpark.

Reutilizar

Não ficamos para ouvir alemães a cantar, eufóricos, o ubíquo Ai Se Eu Te Pego de Michel Teló ou outro qualquer sucesso pop naquele que já foi parte do "corredor da morte" do Muro de Berlim (Mauerpark significa "Parque do Muro"). Nessa zona entre as duas paredes que separavam Berlim ocidental e oriental, altamente vigiada e virtualmente impossível de transpor durante a Guerra Fria, nasceram espaços públicos. E verdes. Nas imediações do antigo muro, junto à East Side Gallery, descobrimos o Yaam, um bar ao ar livre onde se preenchem tardes de lazer com reggae, voleibol e brincadeiras familiares na areia. A areia é "importada", mas ninguém se importa: com o rio Spree ali ao lado, está montada uma praia.

Berlim é especialista nestas transformações. No centro de Kreuzberg, no lugar de antigas fábricas, nasceu o Prinzessinnengarten, horta comunitária onde se cultivam batatas e outros legumes. Noutros locais esquecidos, surgiram jardins "de guerrilha". A zona ferroviária de Gleisdreieck tornou-se um depósito de lixo do pós-II Guerra Mundial, no qual nasceu um mato selvagem que, agora, deu lugar a uma zona ajardinada. E o que fazer a um aeroporto desactivado (Tempelhof, infra-estrutura gigantesca que afirmava o poderio nazi)? Manter tudo como dantes: o edifício e as pistas, que agora são apropriadas pela população para correr (os valentes têm um percurso de 12 quilómetros), andar de bicicleta (podem alugar-se no local) ou fazer voar papagaios.

São 19h e o antigo aeroporto está cheio de pessoas que ali fazem desporto ou um piquenique - só há-de fechar daqui a mais de três horas, quando o sol se esconder. O parque do Tempelhof é um espaço ainda maior do que o Tiergarten, o parque central de Berlim, concentração de esculturas, locais oficiais, memoriais e pequenos lagos - um refúgio de silêncio no meio da urbe.

Subir pela rampa em caracol que acompanha a cúpula envidraçada do Parlamento (a visita é gratuita, mas requer reserva prévia) oferece-nos a melhor visão sobre o Tiergarten, fundado no século XVI para dar um local de caça ao rei: a Coluna da Vitória desponta no meio das árvores, assim como a torre do carrilhão oferecido à cidade em 1987.

Como num filme de Lynch

Quando Jean Giraudoux escreveu que Berlim é "um jardim", há 83 anos, poderia ter agradecido aos ambientalistas do início do século XX que ajudaram a preservar as florestas do avanço da industrialização e do crescimento da cidade.

A floresta de Grunewald foi um dos principais palcos desta luta entre a população e os apetites imobiliários. Graças à mobilização popular, a floresta sobreviveu e é hoje a maior área verde de Berlim. A realeza prussiana deliciava-se aqui a caçar javalis e outros animais. Aqueles mamíferos ainda cá andam, mas, felizmente, não os avistamos no nosso percurso por entre a vegetação densa.

Queremos ter uma vista panorâmica de Grunewald. Podíamos ter optado pelos 204 degraus da Grunewaldturm, torre neogótica do final do século XIX, mas dirigimo-nos a Teufelsberg, "Montanha do Diabo" onde está uma antiga estação de espionagem dos Estados Unidos. Esta montanha não estava cá nos tempos dos reis prussianos: é feita de 25 milhões de metros cúbicos de detritos da II Guerra Mundial.

O caminho faz-se sem javalis, mas sob o ataque incessante de mosquitos. Mordidos, mas vivos, avistamos a vedação da antiga estação de escuta, usada pela Agência de Segurança Nacional (sim, a mesma NSA de Edward Snowden, que, este ano, revelou um esquema de vigilância dos Estados Unidos a vários países) para espiar as movimentações do lado comunista. Há quem ultrapasse a vedação (lá dentro, encontramos grupos de jovens que o fizeram), há quem, como nós, opte por pagar alguns euros ao grupo de falsos guardas com aspecto pouco amigável que tomaram conta do espaço.

Os sete euros compensam a visita tranquila a este espaço que parece saído de um filme apocalíptico de David Lynch: retorcidas estruturas em ferros, altas torres sem paredes com gigantescas cúpulas em tecido rasgado, grafitos em todo o lado. O espaço é já surreal o suficiente para não precisarmos das estranhas histórias de um dos "guardas", um suposto filho de um antigo funcionário da estação, que nos diz que do seu walkie talkie consegue ouvir tudo o que se diz em Berlim.

Guardamos o cepticismo para nós. A Guerra Fria já lá vai, mesmo que a NSA ainda faça das suas. Teufelsberg é hoje, mais do que qualquer outra coisa (e já foi muitas, desde palco para concertos e local para sessões fotográficas), um privilegiado miradouro sobre este arquipélago verde: Berlim.

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