Fernando Namora: Retalhos do artista enquanto médico-escritor

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Apesar de pequena, a casa-museu, inaugurada em 1990 e depois reaberta, apresenta mais de oito mil livros, além dos manuscritos fotos: ADRIANO MIRANDA

Nasceu em Condeixa onde estão alguns dos seus manuscritos, parte do seu espólio e muita (desconhecida) pintura.

A vida de Fernando Namora é feita de retalhos: os pais, que eram comerciantes, partiram da aldeia de Vale Florido para Condeixa-a-Nova, nos arredores de Coimbra, e aí abriram uma loja de tecidos a retalho. Por baixo, a loja dos pais; por cima, a habitação. Fernando nasceu aqui (em 1919) na sobreloja desta casa pequenina que hoje é a sua casa-museu, em Condeixa.

Cresceu entre a aldeia e Condeixa, onde ia à escola. É de pequenos retalhos da infância em Vale Florido que Namora compõe a sua memória, em Autobiografia (1987, edição d"O Jornal): "Às vezes uma imagem desgarrada, sobressaindo absurdamente na opacidade do tempo: uma certa visão ou uma certa fasquia no crescer vagaroso da casa dos meus pais, a casa que era para eles um desagravo quase passional (aldeia de Vale Florido, nas bancas de Ansião, personagem de muitos dos meus poemas e de umas tantas páginas de Casa da Malta, 1945)."

Foi também aos retalhos que estudou, centro e sul, de parcos recursos, itinerante, filho de uma "família que nunca me ensinaram a sentir como tal, sucessivos que foram os afastamentos e os agravos": o liceu, primeiro em Coimbra, depois em Lisboa, no Camões, e de novo em Coimbra. Na página web do Liceu Camões, por onde passaram ilustres da cultura portuguesa, pode ver-se a caderneta de Namora, a lista dos seus professores e alguns testemunhos. Como este em que Namora conta que vivia com duas "parentes solteironas" num "casarão do Paço do Lumiar", em Lisboa, e que, às vezes, ia a pé até à escola para guardar no bolso, "habitualmente vazio, os cinco tostões do eléctrico: vários cinco tostões dariam um bilhete para o "animatógrafo" ou para o aluguer (a meias) de um barquito no lago do Parque Eduardo VII - suprema heresia no meu quotidiano de rapazinho educado por duas senhoras avaras".

Era um rebelde porque, dizia, via a sua "puberdade encarcerada". Escondia-se a ler "as letras e as tretas que as minhas guardiãs tinham por nefastas ao meu aproveitamento escolar". "[Elas] ensinavam-me a desconfiar da alegria e a aceitar os constrangimentos como uma bem-aventurança. Talvez eu tivesse sido um bom discípulo, ou talvez as rebeldias que não tardariam possam explicar-se justamente por essa atmosfera familiar de novenas, suspeitas, punições." A mãe sentiu que o filho não estava bem e foi estudar para Coimbra.

Na escola, criou um jornal "todo ele escrito e ilustrado por mim (exemplar único, como se poderá calcular)", distribuído aos colegas em determinados dias da semana. Jorge de Sena era um deles. "Temia que algum número do jornal fosse apanhado pelas minhas parentes (...); esconder, mesmo aquilo que não precisa de ser escondido, tornou-se uma das peçonhas da minha adolescência, quem sabe se também da minha maturidade."

Neo-realista geracional

Não era de estranhar que os primeiros livros surgissem ainda Fernando Namora não fizera 20 anos: Almas sem Rumo (1935), colectânea de novelas, que permaneceu inédito; seguindo-se Cabeças de Barro (1937), antologia de contos com Carlos Oliveira e Artur Varela, dois autores que o acompanhariam nos primeiros anos do neo-realismo; e anuncia ainda a publicação da novela Pecado Venial, que não chega a sair. É em 1938 que sai o primeiro livro de poemas, Relevos e o romance As Sete Partidas do Mundo.

Uma série de revistas juvenis de inspiração neo-realista surge no Porto, em Lisboa e Coimbra, como "alternativa" à Seara Nova e à Presença. Segundo Óscar Lopes e António José Saraiva, "o neo-realismo apresenta como característica básica (e explícita no seu próprio nome, que se generaliza até 1938) uma nova focagem da realidade portuguesa, de certo modo análoga à da Geração de 70 [do século XIX]" e que "critica o elitismo pedagógico proudhoniano-anteriano e dos democratas da Seara Nova dos anos 20, pois tem em vista a conscientificação e dinamização de classes sociais mais amplas". Entre estas revistas está Altitude, que Namora dirige com João José Cochofel e Coriolano Ferreira (da mesma geração).

É no período de transição para aquela que Lopes e Saraiva chamam de segunda fase do neo-realismo (a primeira, de articulismo e de "polémica de revista") que surge a relação explícita de Namora com o movimento. Primeiro com o Novo Cancioneiro (1941-44), dez volumes de poesia de que fazem parte, entre outros, Manuel da Fonseca e Álvaro Feijó, que começa com Terra, de Namora; e depois com o romance Fogo na Noite Escura (1943), um retrato da sua geração, coimbrã e universitária.

Mesmo evoluindo da estética neo-realista, Namora não deixa de identificar o movimento como um tempo e um espaço geracional: [O neo-realismo] "não resultou de um programa ou de um figurino, mas sim da conjugação de coordenadas que, por igual, singularizaram os escritores de uma geração vivamente empenhada nos problemas do seu país."

A partir de então, a sua obra, vasta para os 69 anos com que morreu (em 1989, de cancro no pulmão), grassa vários géneros, da poesia, ao romance, romance-testemunho, crónica, contos, diários ou ensaio.

Quando publica o segundo romance, Fernando Namora já é médico, licenciado em Coimbra: contra a sua vontade - queria ser arquitecto, inscreveu-se em engenharia, mas "meu pai veio a Coimbra dizer-me que minha mãe estava enferma, desgostada da minha teimosia. Fui vencido: rendi-me à Medicina". Abriu consultório em Condeixa mas não regressou àquela que é hoje a sua casa-museu. Então, Namora já é pai e viúvo: a mulher morre de parto em 1940, nasce a primeira filha.

O médico e o pintor

Começa a vida de médico, aos retalhos, que documentou ficcionalmente como uma espécie de João Semana (a mítica personagem de Júlio Dinis) que, de aldeia em aldeia do interior do país, desenha os seus Retalhos da Vida de um Médico (primeira série de 1949; a segunda de 1963).

"Condeixa, médico, tal como minha mãe planeara. Mas, por isso mesmo, Condeixa foi a rampa para o desconhecido. O Manuel Vidal andava pelos volfrâmios, avisou-me de uma oportunidade em Tinalhas, Beira Baixa. Cu do mundo, como diria o João Falcato [médico amigo]? Eu teria acorrido fosse donde fosse chamado, desde que longe das tutelas." Partiu. Sabia que não seria fácil tornar-se um "João Semana". Sobretudo porque sabia que, jovem médico, forasteiro, seria "recebido com desconfiança pelos caciques em compita e pelas gentes calejadas no agravo social e revolvidas pelo furacão do volfrâmio".

Mas Zita (será segunda mulher) era estudante em Castelo Branco. Foi ela que puxou Namora para Monsanto: "Cada manhã em Monsanto nasce o mundo. Lá me apercebi que a sombra é azul." Monsanto é a terra da sua segunda filha e do livro Minas de S. Francisco (1946). E chegará a Pavia, Alentejo "cálido, moroso, recôndito. Uma fascinação de cal e silêncios extasiados. A largueza espraiada, que se adormenta em cada rumor de gesto".

A casa-museu de Fernando Namora em Condeixa, explica ao PÚBLICO a coordenadora do museu, Ilda Carvalho, deseja sublinhar as três facetas de Namora: o escritor, simbolizado no seu escritório, a sua poltrona de pele, a secretária e a máquina de escrever, ídolos e amigos na parede (Jorge Amado) e prémios literários, condecorações, primeiras edições e dedicatórias. Mas também o médico, que regressou à terra, com uma bicicleta e um fato meio gasto que trocara por um retrato pintado por si, a óleo. E o pintor.

"A faceta de pintor é o trunfo escondido de Fernando Namora", explica Ilda Carvalho. Ainda estudante de liceu em Coimbra, organizou a sua primeira colecção de pintura. "Houve um senhor major que me adquiriu um trabalho; retive-lhe o nome: Pina Cabral", conta Namora em Autobiografia (1987). "Esse lado da obra de Fernando Namora, as artes plásticas, está toda por estudar", continua Ilda Carvalho.

A casa-museu, inaugurada em 1990 e depois reaberta, com novo projecto museológico, em 2010, tem organizado projecções de filmes (várias obras de Namora foram adaptadas ao cinema, como Retalhos e Domingo à Tarde) e encontros correspondentes às três facetas do autor: escritor, pintor e médico.

Apesar de pequena, a casa apresenta mais de oito mil livros, além dos manuscritos - "um dos próximos projectos é a digitalização dos manuscritos e provas tipográficas e criar uma base de dados digital online", explica Ilda Carvalho - e há inúmeras obras de arte. Mal entramos, várias pinturas de Namora (de pendor neo-realista, de preocupação social e ambiência rural). O pintor Lima de Freitas escreveu sobre o amigo: "Olho para estes quatro ou cinco quadros aqui à mão e entro num espaço angustiado e ao mesmo tempo amplo." No andar superior da casa-museu, obras de amigos: Lima de Freitas, mais Vítor Palla, Carlos Botelho, Manuel Filipe, Mário de Oliveira, Malangatana, Júlio Resende.

A cidade e a consagração

Com a mudança para Lisboa, para o Instituto de Oncologia em 1950, começa a fase de consagração literária. Na cidade conta que teve "o privilégio imperecível do convívio com algumas as últimas figuras maiores da nossa intelligentsia". Fala de Jaime Cortesão, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, João de Barros, Fernando da Fonseca, das tertúlias, dos amigos realizadores de cinema, dos projectos que nasciam à mesa do café.

Mas a cidade afastou-o, passados anos, da medicina: "Na cidade deixei de ser médico para que o escritor pudesse persistir. Quem ganhou?, quem perdeu? Tive a sensação de jogo viciado." Nos anos 50, os seus títulos Homem Disfarçado (1957) e Cidade Solitária (contos, 1959), acusam, segundo Óscar Lopes, "o toque existencialista do decénio", deixam o ambiente rural e passam a centrar-se na ideia da "condição humana". Seguem-se Os Adoradores do Sol (1971), Clandestinos (1972), Cavalgada Cinzenta (1977), Resposta a Matilde (1980) e Rio Triste (1982). A sua obra foi traduzida em 25 línguas e publicada em 26 países. O crítico Alcides de Campos escreveu um artigo no jornal Le Monde, em 1968, onde apontava a Fernando Namora (a par de Ferreira de Castro) um "papel de relevo na abertura de fronteiras ao romance português" no estrangeiro.

Namora soube evoluir do formalismo teórico do neo-realismo, passando por romances de pendor existencialista, de herança social, sempre, mas com humor, picaresco. Isto significa também que, tanto Namora como outros escritores consagrados pelo neo-realismo dos anos 30 e 40 (Carlos de Oliveira, Alves Redol, Manuel da Fonseca ou, mais tarde, José Cardoso Pires), começaram a experimentar novos moldes literários, evitando assim a estagnação. O principal desencanto do movimento, de pendor marxista, de cariz socialista, "residia na difícil adequação da literatura neo-realista àquelas camadas que pretendia interessar-se" (Lopes e Saraiva): isto é, camponeses, operários, obreiros, gente do campo e da terra, assalariados, trabalhadores, os heróis do romance não conseguiam compreendê-los. A obra não os tocava.

A censura e as ligações de muitos dos seus escritores ao Partido Comunista não contribuiriam para uma sobrevivência fulgurante do movimento que parece ter sido esquecido, ou relegado para um plano meramente ideológico, após o 25 de Abril. Como recorda, aliás, o próprio Namora em 1987: "O que vou lendo sobre essa época, e o que ela representou na história literária portuguesa, é por via de regra tolice. Tolice ou má-fé. Instalou-se na nossa cena uma espécie de bando arrogante, de uma ligeireza patética, capaz de varrer com um único gesto uma geração."